BrasilFrança

Chegou a hora de David Luiz considerar uma mudança definitiva para o meio-campo

“Ele joga como se estivesse sendo controlado por uma criança de 10 anos no PlayStation”. A crítica foi de Gary Neville em referência a David Luiz, na época em que o brasileiro ainda era jogador do Chelsea. O ex-lateral direito do Manchester United, sempre muito disciplinado, reprovava a impetuosidade e inconsequência do zagueiro. Se na época a declaração de Neville soou pesada (ele chegou a pedir desculpas), parece cada vez mais proporcional à medida que David Luiz apresenta todos os indicativos de que não pode mais continuar sendo zagueiro.

LEIA MAIS: Neymar dobrou o número de gols que fez na temporada passada e de quebra despachou o PSG

O Barcelona fez 5 a 1 no Paris Saint-Germain no placar agregado das quartas de final da Champions League, e quatro desses gols podem ser colocados na conta de David Luiz. Se no segundo gol em Paris foi batido por um drible em velocidade de Suárez, no terceiro deu um bote inaceitável sob vários pontos de vista: para quem chegou a ser considerado um dos melhores zagueiros do mundo, ou no mínimo com potencial para tanto; para o último homem de qualquer defesa; e para quem conhece o uruguaio muito bem (os dois chegaram juntos à Inglaterra em janeiro de 2011).

David Luiz explicou que estava voltando de lesão para justificar a péssima atuação, mas, uma semana depois, na última terça-feira, voltou a falhar. Foi batido por Neymar sem mais nem menos no primeiro gol da vitória catalã por 2 a 0 e nem percebeu o colega de seleção brasileira passando pelas suas costas para cabecear no segundo. É verdade que ele enfrentou o time que hoje talvez seja o que está jogando o melhor futebol, contra um ataque dos mais potentes.

A coleção de erros tem falhas de posicionamento, desatenção e a famosa impetuosidade, também nítida no 7 a 1 do Mineirão, quando o então capitão do Brasil abandonou a defesa quando a vaca começou a ir para o brejo, ansioso para ajudar o ataque. Algumas coisas escapam do controle de David Luiz. Muitos erros que ele comete, como posicionamento, são fundamentos básicos de defesa que uma formação falha nas categorias de base pode explicar. Outros provêm da vontade excessiva de ajudar os companheiros no ataque quando as coisas estão indo mal, mesmo que isso signifique deixar a zaga desguarnecida. Há também, por outro lado, confiança excessiva no seu repertório técnico e ansiedade. Essa última, principalmente, combina pouco com um zagueiro de primeira classe.

Na última linha de defesa, qualquer erro deixa o atacante na cara do goleiro, como Suárez em Paris e Neymar em Barcelona. E o estilo de jogo de David Luiz é suscetível demais a erros e seguro de menos para quem atua nessa posição. A alternativa para usar melhor as suas qualidades, minimizando o risco, é colocá-lo no meio-campo, como primeiro ou segundo volante, o que está longe de ser novidade na carreira do brasileiro na Europa.

A primeira experiência dele como volante foi sob o comando de Rafa Benítez, no final de 2012. Atuou nessa posição contra o Nordsjaelland, antes da viagem para o Japão, nas semifinais do Mundial e nas fases eliminatórias da Liga Europa que disputou, além de alguns jogos de Copa e do Campeonato Inglês. Saiu o espanhol, chegou José Mourinho, e sua presença no meio-campo ficou mais frequente. Na única temporada com o português, David Luiz atuou mais no meio-campo que na defesa, como nas vitórias sobre Manchester City, Liverpool e Arsenal, jogos cruciais do campeonato. Na Champions League, foi volante contra o PSG, nas quartas de final, e chegou a atuar ainda mais à frente no primeiro duelo com o Atlético de Madrid, protegido por Obi Mikel. Foi elogiado.

No Paris Saint-Germain, ironicamente, a primeira experiência de Laurent Blanc nesse sentido foi contra o Chelsea, no empate por 1 a 1, em casa, pelas oitavas da Champions League. Thiago Motta estava machucado. Teve sua atuação no meio aprovada pelo técnico. “Ele nos ajudou, pode atuar muito bem nessa posição”, disse. David Luiz voltou a jogar assim no empate sem gols contra o Monaco, mas depois retornou à defesa. O resultado? 5 a 1 para o Barcelona.

David Luiz sai um pouco pela tangente quando responde perguntas sobre uma possível mudança de posição. Adota o discurso do cara bom de grupo, disposto a fazer tudo para ajudar o time. “Jogo pela equipe. Se precisar jogar em outras posições, vou fazer meu melhor. Jogo futebol há muito tempo, conheço outras posições. Se o treinador me quiser como atacante, lateral direito ou ponta, faço de tudo para ajudar o time. Essa é minha filosofia”, afirmou.

Não precisa exagerar e levar a bomba relógio tão longe assim da defesa, mas seria bom tanto para David Luiz quanto para o Paris Saint-Germain se uma mudança de posicionamento fosse efetivada. Teria grandes possibilidades de ser definitiva. Abriria espaço para uma combinação interessante de experiência e juventude com Thiago Silva e Marquinhos na defesa. Fomaria um meio-campo com Luiz, Matuidi e Verrati, por exemplo, três jogadores que se completariam muito bem. O problema para o brasileiro é a concorrência mais forte nesse setor, que ainda tem Cabaye, Thiago Motta e Rabiot. Talvez precisasse esquentar o banco de vez em quando, mas poderia ser melhor para o time. Não é essa sua filosofia?

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo