França

Chance jogada no lixo

O Paris Saint-Germain tinha tudo para assumir a ponta da Ligue 1. O Lyon sofreu uma surpreendente derrota para o Auxerre em pleno Gerland e ficou ameaçadíssimo. Os lioneses, em nítida queda de rendimento na temporada, contaram com uma enorme dose de sorte. No Parc des Princes, o PSG deixou o bonde passar, ao perder o clássico para o Olympique de Marselha por 3 a 1. Agora, a disputa pelo título, há alguns meses inexistente, conta com uma acirrada briga. O campeonato pega fogo, como nunca visto nos anos anteriores.

A curiosidade ficou por conta das circunstâncias presentes no duelo entre PSG e OM. No primeiro turno, o Olympique de Marselha também dependia de uma vitória sobre seu maior rival para assumir a liderança. Em pleno Vélodrome, porém, a equipe da casa bobeou e tomou de 4 a 2. A história se repetiu, e o mandante se deu mal mais uma vez. O Paris Saint-Germain estava invicto em seus domínios havia mais de quatro meses. Agora, o time da capital não só viu o sonho de liderar o torneio ruir, como agora tem o inimigo ao seu lado na tabela.

Desde 2004, o maior clássico francês não era cercado por tamanha importância. Para um jogo deste nível, o PSG começou em desvantagem. Sem Sessegnon, a equipe perdeu grande parte de seu poder criativo. Tal fato se fez notar pela atuação apenas discreta de Luyindula, que atuou como substituto no lado direito. Sem seu grande articulador, o Paris Saint-Germain viu Hoarau ficar muito isolado no ataque, quase sem tocar na bola. Esta deficiência no meio-campo comprometeu as chances dos donos da casa, apesar dos esforços de Giuly.

Se no campo ofensivo o PSG encontrou dificuldades, no defensivo os problemas se resumiram a dois fatores. O primeiro foi a atuação de Sakho, em nível abaixo do seu normal. A expulsão de Camara no segundo tempo também contribuiu para a queda parisiense, quando o jogo ainda estava empatado por 1 a 1. A falta que provocou o cartão vermelho também originou o segundo gol dos marselheses, sinônimo de instabilidade para os anfitriões.

Do lado do OM, o treinador Eric Gerets teve grande papel no sucesso de sua equipe. ele surpreendeu ao escalar Zenden como titular, e não Niang. O holandês retribuiu a confiança com um grande desempenho. Ele marcou um gol, provocou a expulsão de Camara e teve participação direta no segundo gol dos marselheses. Nada mal para quem se acostumou a receber críticas por participar pouco das partidas nas quais entra em campo.

O jogo também serviu como uma vingança pessoal de Cana. Com passagem pelo PSG, o albanês nitidamente queria mostrar serviço contra seu ex-clube. Sua disposição foi recompensada com um gol, embora Sakho tenha contribuído ao desviar a bola. Se a defesa parisiense ficou em apuros, muito se deveu a Brandão e Valbuena. Os dois tiveram intensa movimentação, confundindo a marcação. Para completar, a dupla de zaga formada por Hilton e Civelli anulou o perigoso Hoarau.

Levando-se em consideração a péssima fase do Lyon, a Ligue 1 conta com outros seis candidatos à briga pelo título. Olympique, PSG e Bordeaux têm maiores chances de desbancar o líder, enquanto Toulouse, Lille e Rennes correm por fora. Jamais se poderia imaginar que a diferença entre o OL e o sétimo colocado seria de apenas seis pontos a dez rodadas do final do campeonato. O resultado do clássico impediu que os lioneses perdessem a ponta, mas em compensação agora são dois rivais mordendo seus calcanhares (PSG e OM estão somente um ponto atrás do líder). O Olympique sai fortalecido e o PSG continua bem mesmo com a derrota, mas o desgaste causado pela disputa da Copa Uefa será crucial para o desenrolar desta história.

Império em ruínas

Quatro derrotas consecutivas (contando todas as competições), seis jogos sem vitórias e um mísero triunfo em Gerland desde 29 de novembro. Definitivamente, há alguma coisa errada com o Lyon. A apatia exibida contra o Auxerre se repete jogo após jogo, sem qualquer sinal de melhora. A eliminação da Liga dos Campeões para o Barcelona deixa a equipe ainda mais vulnerável nestes próximos dias, nos quais precisará de extrema personalidade para lidar com o abalo psicológico provocado por mais um fracasso em nível continental.

A queda para o Auxerre diante de sua torcida refletiu muito bem como anda o ambiente no clube, poucos dias após perder por 5 a 2 no Camp Nou e se despedir da LC. Não apenas o plano físico, mas o metal também aparenta fragilidade. Faltam pernas e cabeça para o Lyon voltar a se impor como antes, período cada vez mais longínquo. Como em toda supremacia, os lioneses viveram o auge, passaram por uma transição e agora enfrentam sua derrocada.

Em 2007/08, as coisas também caminharam da mesma forma. O clube apostava em um bom desempenho na LC, mas caiu nas oitavas-de-final e sentiu o golpe. Ao menos o time tinha uma certa vantagem na Ligue 1 e, mesmo com apresentações abaixo da crítica, conseguiu se manter e chegar ao título. A taça da Copa da França também passou a falsa impressão de que a equipe havia se recuperado bem. Ledo engano.

Mesmo a troca de treinador e a contratação de diversos reforços não mudaram muito o ambiente geral. A ideia de “rei claudicante” perdurou para 2008/09, e o OL perdeu sua maior qualidade: impor respeito aos adversários. Tanto que hoje o Auxerre, que antes do confronto nada havia feito de relevante no campeonato e estava mais para evitar o rebaixamento, conseguiu dominar os donos da casa com certa facilidade. A cereja do bolo, o golaço de Kahlenberg, apenas expôs uma ferida difícil de cicatrizar. O Lyon não perdia em Gerland pela Ligue 1 havia um ano e meio.

O duelo contra o Barcelona na Espanha evidenciou alguns problemas preocupantes do OL, e se aplicam ao atual momento ruim vivido pelo clube. Três dos principais pilares do time sentiram o peso da hora da decisão: Benzema, sobrecarregado por ser a referência ofensiva da equipe; Juninho Pernambucano, com atuações irregulares; e Cris, perdido na defesa. O zagueiro, em especial, tem cometido erros seguidos de posicionamento, como no gol de Henry ou mesmo no de Jelen, contra o AJA.

Além de Cris, a defesa do OL vai de mal a pior. Boumsong fica vendido quando o companheiro comete suas falhas e, por isso, nem consegue fazer seu trabalho direito para cobrir os erros do outro. Quando o técnico Claude Puel tira um deles, nenhuma mudança efetiva acontece. Bodmer mostra-se pouco adaptado à função na equipe. Mensah, por sua vez, está mais na enfermaria do que na concentração. Os laterais também se veem às voltas com contusões e estão fora da melhor forma física.

O “espírito cordeirinho” também toma conta do elenco e se tornou parte do discurso de quem deveria chamar a responsabilidade para si. O conformismo exibido por Benzema, Cris e Grosso depois da eliminação para o Barcelona, quando aceitaram passivamente a saída da LC como se nada tivesse acontecido, chega a chocar. Não se trata de criar uma mentira e achar que o Barcelona tem a mesma qualidade do Batatais. Também é inadmissível entrar em campo já com espírito de derrota e pensar nas desculpas.

Enquanto contar com a “sorte de campeão”, o Lyon ainda respirará aliviado, como aconteceu após a vitória do Olympique de Marselha sobre o Paris Saint-Germain no clássico. O resultado o manteve na liderança, mas mais do que nunca ameaçado de perder o trono. Com uma vantagem quase nula sobre seus principais concorrentes, o OL vê seu império ruir em velocidade crescente. Sinal dos tempos, e um alerta para mudanças profundas.
 

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo