Carrasco Carrasso
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Cédric Carrasso experimentou em 90 minutos a sensação de ir do céu ao inferno. O goleiro do Bordeaux passeava por entre as nuvens após pegar dois pênaltis (!) na partida contra o Montpellier, em duelo direto pela liderança da Ligue 1 (embora os girondinos tenham dois jogos a menos do que o adversário). Os Marine et Blanc venciam por 1 a 0 e tudo caminhava para um final perfeito quando o arqueiro teve seu apagão. Bastou uma falha para que todo seu esforço fosse por água abaixo.
Claro que as defesas feitas por Carrasso durante toda a partida foram fundamentais para o Bordeaux contra o surpreendente Montpellier. Só que o goleiro foi o anti-herói da rodada, o símbolo da frustração concretizada no “quase”. E como o arqueiro deve se recordar quadro a quadro da cobrança de falta de Costa, de longa distância. Os louros da vitória se transformaram nas penas do frango que ele acabara de engolir.
Foram 93 minutos de uma atuação irrepreensível. O roteiro parecia perfeito para Carrasso deixar o Chaban-Delmas em cima de um carro de bombeiros, receber a chave da cidade e pleitear um emprego público depois de se aposentar. O Bordeaux começou a partida voltado para o ataque, mas encontrou um Montpellier muito bem armado em sua defesa. Para piorar, Ciani foi expulso aos 32 minutos de jogo ao cometer um pênalti sobre Montano quando era o último homem.
Carrasso começou a brilhar ao deter o chute de Costa. Ainda tinha mais antes do intervalo: Chalmé tocou a bola com a mão e o juiz não hesitou ao marcar novo pênalti. Lá se foi Montano para a cobrança, mas de nada adiantou a troca: o goleiro girondino pegou de novo. Desde maio de 2008, um arqueiro não pegava dois pênaltis em um mesmo jogo da Ligue 1. O herói daquele dia foi Nicolas Puydebois, no Olympique de Marselha 4×3 Strasbourg.
Com dez contra onze, Laurent Blanc viu seu esquema ofensivo se desmanchar em um estalo. O treinador havia montado o Bordeaux em um 4-4-2, com os meio-campistas posicionados em forma de losango. No setor, havia apenas um jogador prioritariamente de marcação: Fernando Menegazzo. Na frente, a dupla de ataque tinha Cavenaghi e Chamakh. A expulsão de Ciani forçou Blanc a rever seus conceitos; Cavenaghi deixou o campo para a entrada de Sané.
No segundo tempo, o Montpellier mostrou-se pouco à vontade em campo. A equipe estava melhor no onze contra o onze, pois não se adaptou à ideia de aproveitar a vantagem. O Bordeaux trancou a defesa, impedindo qualquer chance de ataque dos visitantes, e ainda contou com o poder de decisão de Chamakh. O marroquino encontrou um gol aos 14 minutos e os Marine et Blanc só tinham que cozinhar a partida.
Vieram os acréscimos e a vitória estava nas mãos dos girondinos. Foi quando o Montpellier teve uma falta a seu favor aos 49 e… Bom, a imagem de Carrasso com a cabeça na trave, olhando para o nada, traduz muito bem o que se passou pela cabeça do goleiro naquele momento para ser esquecido. Felizmente, nenhuma pedra foi atirada nele por conta da falha. Pelo contrário: o merecido apoio veio de seus companheiros de equipe e dos torcedores.
Olhando friamente a tabela, o Bordeaux perdeu a chance de abrir uma distância de três pontos para um concorrente direto pelo título e com dois jogos a fazer. O resultado fez a festa dos demais concorrentes; até o Auxerre, sexto colocado com quatro pontos a menos, agora sonha com a taça. Felizmente, o futebol se mostra muito mais humano com seus dramas a cada rodada do que um simples quadro repleto de números.
Sem cara, sem alma, sem nada
A cerca de três meses do começo da Copa do Mundo, a seleção francesa demonstra não ter qualquer identidade. E nem adianta procura na seção de achados e perdidos da FFF, ou pedir algum esclarecimento para monsieur Raymond Domenech. Não se questiona como os Bleus podem perder para a Espanha (até porque a Fúria está alguns níveis acima), mas sim a forma como o 2 a 0 no Stade de France ocorreu.
Desde o fiasco da Eurocopa-2008, Domenech teve todas as oportunidades para sanar os problemas dos Bleus, a começar por ele mesmo. No entanto, o treinador está mais para aquele servidor público cujas férias vão começar dali a pouco tempo e já enrola o serviço por conta própria, sob as vistas grossas do chefe. A França mais parece um canteiro de obras, sem previsão de entrega, e com um projeto de maquiagem para não deixar impressão ruim no prazo de entrega.
Comecemos pela zaga. Escudé teve um desempenho horroroso e teve responsabilidade direta nos dois gols espanhóis. Ciani, destaque do Bordeaux, nada pôde fazer para suprir os defeitos do seu companheiro. O miolo de zaga titular, formado por Gallas e Abidal, que já não é lá grande coisa, dá calafrios só de pensar na inexperiência de seus possíveis reservas. Nas laterais, Sagna tem posto garantido na direita, mas também não tem um concorrente à altura.
O lado esquerdo preocupa. Evra está jogando mais com o nome do que pela qualidade de jogo. As principais jogadas da Fúria saíram nas costas dele, devido às dificuldades de marcação. Aly Cissokho e Gaël Clichy? Bom, as opções deixam a desejar. Antes que alguém defenda Domenech para dizer “tadinho; ele é tão criticado, mas ninguém vê o lado dele”, a encrenca piora agora.
Ah, o meio-campo… Domenech insiste em utilizar dois volantes puros (Lassana Diarra e Jérémy Toulalan), sendo que um deles já seria suficiente. Com dois jogadores de combate e zero criatividade, a armação dos Bleus fica completamente comprometida. Daí a explicação para os franceses encontrarem tantas dificuldades para criar chances, e os motivos pelos quais os atacantes se tornaram mera peça de decoração na equipe.
A saída era ter colocado mais jogadores que tenham tanto uma boa capacidade de marcação como também saibam o que fazer com a bola nos pés, tenham bom passe e noção de ataque. Alguém falou Patrick Vieira? Dependendo do gosto do freguês, também daria para pensar em Abou Diaby e Benoît Cheyrou. Yoann Gourcuff ficaria muito grato por não ter mais tanta sobrecarga na tarefa de carregar o time nas costas.
Para completar, Domenech promoveu uma verdadeira salada no ataque. Levando-se em consideração apenas os nomes, Thierry Henry, Nicolas Anelka e Franck Ribéry formariam um tridente respeitável. No entanto, o técnico conseguiu o mais difícil: desagradar todo mundo. Nem é o fato de seus seguidos problemas físicos nesta temporada, mas Ribéry atua bem abaixo da sua capacidade nos Blues. Qual a razão? Até o Idéiafix (não sabe quem é? Leia mais Astérix!) sabe que o “Scarface” prefere atuar pela esquerda. Domenech, sábio como só ele, fixou-o na direita.
No Chelsea, Anelka costuma se dar muito bem quando joga em função de um centroavante, caindo para os lados. Domenech, o gênio, disse para ele atuar dentro da área. E foi assim, semeando a harmonia, que o treinador conseguiu apagar qualquer traço de identidade dos Bleus. Haja comprimido para dor de cabeça na África do Sul…