França

Bombas e biribas

A janela de transferências terminou e os clubes franceses tiveram algumas mudanças interessantes, mas no geral o mercado foi bem morno. Se não houve a gastança que se anunciava, muito por conta das seguidas especulações em torno do Paris Saint-Germain, os nomes envolvidos nas principais negociações das equipes da Ligue 1 causaram um impacto apenas mediano.

O Olympique de Marselha enfim resolveu um problema que há muito tempo o incomodava. Lucho González deixou o Vélodrome e está de volta ao Porto, após um martírio que já durava meses. Para o OM, a despedida do Comandante representou um alívio sob todos os aspectos, principalmente financeiro. O jogador, por sua vez, respirará novos ares e terá a chance de reencontrar a motivação perdida.

Com o pagamento de cerca de € 2 milhões de indenização pela saída do meia, os marselheses amargaram um enorme prejuízo – afinal, gastaram € 24 milhões para contratá-lo há duas temporadas e meia. Só que, nos tempos atuais, a política financeira do OM se baseia no corte de gastos, com prioridade para deixar a folha salarial mais enxuta.

Como Lucho González ganhava um salário mensal de € 400 mil (além de bônus), o OM economizou de € 10 milhões a € 12 milhões. Mesmo com o prejuízo, o saldo acaba sendo bom para o clube, que viu um jogador descontente e pouco motivado deixar seu elenco. O argentino não terá um substituto, até porque o técnico Didier Deschamps não queria desestabilizar um grupo que vive excelente momento.

Já o Paris Saint-Germain atirou para todos os lados, fez um enorme barulho no mercado com boatos de que montaria um esquadrão e, no fim, contentou-se com pouco. O que parecia um show pirotécnico se revelou uma daquelas biribinhas sem graça. Para quem sonhava com Tevez, Kaká e Alexandre Pato, as contratações realizadas deixaram um gosto de frustração.

Do ponto de vista técnico, porém, a chegada de Alex, Maxwell e Thiago Motta tenta corrigir um dos problemas principais da equipe nesta temporada: a inconstância de seu setor defensivo. Sem gastar muito, o PSG trouxe nomes interessantes para acabar com este fator destoante da equipe. Os grandes investimentos ficaram para a próxima temporada, quando o clube espera garantir presença na Liga dos Campeões. Se isso se confirmar, aí sim pode-se esperar por nomes de peso com a camisa parisiense.

O Lille perdeu seu grande nome, mas não demorou para repor a perda. Moussa Sow, artilheiro da última Ligue 1, deixou o LOSC e foi para o Fenerbahçe, em negociação na casa dos € 13 milhões. A saída do jogador, porém, teve ingredientes que indicaram uma ruptura mais grave. O senegalês acusou o clube de querer negociá-lo contra sua vontade e se disse ferido com a decisão. O Lille negou as acusações, mas o clima ficou pesado.

Ainda digerindo as declarações de Sow, os Dogues deram um jeito de manter a força de seu ataque. Nolan Roux, destaque do Brest, fechou por quatro temporadas e meia com o Lille e deve se esbaldar com os passes açucarados de Eden Hazard e Joe Cole. Sem dúvida, um substituto à altura.

Auxerre em desgraça

A derrota por 3 a 1 em casa para o Nancy mergulhou o Auxerre no inferno. O clube flerta com a zona de rebaixamento na Ligue 1 e não dá sinais de recuperação, para desespero de seus torcedores. A irritação dos seguidores do AJA não se resume apenas aos jogadores, que parecem estar pouco engajados em tirar o time deste buraco, mas também se dirige à diretoria.

Durante a semana, o discurso ensaiado pelo elenco falava em grupo unido, concentração para reagir e foco – aquelas baboseiras que não levam a lugar algum. Em campo, na prática, a atitude foi bastante diferente. Um time insosso foi incapaz de incomodar um adversário longe de ser brilhante e cujo ataque está entre os piores da Ligue 1.

Cansados de tanta mesmice, alguns torcedores partiram para a ignorância e invadiram o gramado do Abbé-Deschamps para protestar. Jogadores e dirigentes precisaram de apoio policial para deixar o local com um mínimo de segurança, em cenas jamais vistas no local. Como se todo este clima não fosse ruim o suficiente, o presidente Gérard Bourgoin faz questão de pisar nos graves ferimentos que o clube tenta curar sem sucesso.

No início da semana, o dirigente pediu aos torcedores para que mostrassem seu descontentamento com a situação do Auxerre. Os seguidores do AJA atenderam e o próprio Bourgoin correu risco de sair ferido, mas ele ouviu poucas e boas. Mesmo com tamanho clima hostil e os ânimos exaltados, o presidente do clube confirmou ser completamente sem noção.

Bourgoin disse que estava contente por ver a torcida manifestar sua frustração, em um cenário surrealista de dar inveja a Dalí. O mesmo Bourgoin reconheceu, em dezembro, que houve um erro na montagem do AJA para esta temporada. Ele ainda protagonizou outro momento polêmico ao criticar abertamente os jogadores após a eliminação da Copa da França para o Châteauroux.

A reação dos jogadores, obviamente, não poderia ser das melhores. Cédric Hengbart traduziu muito bem a opinião do elenco com todas as bravatas de Bourgoin: “É chocante ouvir da boca do presidente que os torcedores devem nos cobrar na rua”. Chocante e desnecessário, pois amplia uma animosidade que pode chegar a um patamar de completo descontrole.

A solução dos problemas vividos pelo Auxerre passaria sem dúvida pela saída de Bourgoin, mas ele nem cogita pedir demissão. Embora pressionado, o treinador Laurent Fournier também deve permanecer no cargo. Sem contratar grandes reforços na janela de transferências, o AJA está seriamente ameaçado de ver sua crise piorar. O cenário, de surreal, pode muito bem para passar para dantesco.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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