Bom demais para ser verdade

Estava tudo calmo demais no Paris Saint-Germain. Nas últimas temporadas, o clube vivia um ambiente conturbado, tanto pelos resultados pífios da equipe nos gramados como pela instabilidade em sua direção. Quando o clube enfim se recuperou nas quatro linhas e apresenta um futebol de bom nível, eis que a crise voltou a rondar o Parc des Princes. Tudo por conta da saída anunciada de Charles Villeneuve da presidência do PSG. Uma decisão que volta a deixar os bastidores em polvorosa e promete respingar no elenco.
A partir de 3 de fevereiro, Villeneuve deve ceder seu lugar para Sébastien Bazin. Representante da Colony Capital, acionista majoritário do PSG, ele já adiantou querer mais alguém para lhe ajudar na missão de comandar o clube. Para tanto, Bazin pretende contar com uma pessoa experiente. Fala-se em Jean-Claude Plessis (ex-presidente do Sochaux), David Ginola (ex-ídolo do PSG), Karl Olive (ex-diretor de esportes da emissora de tevê Canal +) e Philippe Boindrieux (atual diretor-delegado do clube). Todos aguardam com ansiedade a reunião do conselho de administração para saber qual deles herdará a função.
A saída de Villeneuve começou a ser traçada por um erro cometido por ele próprio. O ex-jornalista não escondia sua preocupação com os gastos feitos pela Colony Capital para reforçar a equipe para esta temporada. O raciocínio do dirigente foi o seguinte: se eles já gastaram uma fortuna agora, no fim de 2008/09 não haverá dinheiro disponível para se injetar no clube. Por isso, haveria a necessidade de se desfazer de alguns dois jogadores mais importantes do elenco, como Sessegnon e/ou Hoarau – o que deixaria a torcida furiosa e temerosa.
Inquieto com sua projeção para o futuro do PSG a curto prazo, Villeneuve tomou uma decisão desastrosa. Ele resolveu escrever uma carta aos membros do conselho de administração da Colony Capital para pedir mais poderes. Bazin se irritou com a atitude, por não ter sido procurado antes pelo dirigente. Os diretores da Colony também reprovaram o gesto de Villeneuve, com uma desconfiança baseada em suposições e, pelo menos até aqui, sem qualquer embasamento. O presidente do clube da capital pagou caro por sua ingenuidade, ao ficar mal com os principais acionistas da equipe e totalmente sem clima para continuar no cargo.
Desde 1998, quando Michel Denisot saiu, o Paris Saint-Germain teve sete presidentes: Charles Biétry, Laurent Perpère, Francis Graille, Pierre Blayau, Alain Cayzac, Simon Tahar e Charles Villeneuve. Todos conheceram o inferno quando se sentaram na cadeira mais importante do clube, com poucos títulos, decadência financeira e esportiva, escândalos e, sobretudo, um constante clima de intranquilidade. Villeneuve teve o mérito de, em apenas oito meses, resgatar um time do limbo e reerguê-lo, sem deixar de procurar parceiros dispostos a investir – tarefa à qual Bazin deveria se dedicar, mas sem grande sucesso.
Querido pelos torcedores, Villeneuve também se mostrou presente com os jogadores. Ele tem bom relacionamento com o elenco, além de manter conversas constantes com líderes como Makélélé e Giuly. Embora os atletas e o treinador Paul Le Guen neguem qualquer influência do campo político nos rumos do time, a instabilidade deve afetar o grupo, logo quando se encontrava em um ambiente positivo.
Bazin, favorito a assumir a presidência, seria o candidato preferido da Colony Capital. Claro, o dirigente de 47 anos selaria o controle da empresa no clube da capital e reforçaria seu domínio. Como ele possui uma agenda apertada e não deseja abandonar seu cargo na empresa, deve necessitar da ajuda de alguém. Plessis já era cotado desde a saída de Simon Tahar e nunca escondeu seu interesse. Ginola evoca seu histórico como jogador do PSG e declarou seu amor incontestável pelo clube como principal arma para fazê-lo reviver seus tempos de glória. Difícil será manter o otimismo da equipe para o restante da temporada, com tantas incertezas quanto ao futuro.
Blanc e Bordeaux
Laurent Blanc continuará nos Marine et Blanc pelos próximos dois anos. O treinador prolongou seu contrato com o clube, que mantém a esperança de alçar voos mais altos na França. Quando chegou ao clube para substituir Ricardo Gomes, o ex-jogador da seleção francesa carregava uma certa dose de desconfiança. Afinal, não tinha qualquer experiência no banco de reservas e teria a missão de suprir a ausência do brasileiro. Blanc não só cumpriu sua tarefa com êxito como superou seu antecessor, fazendo do Bordeaux o mais forte candidato a tirar a coroa do Lyon.
O acerto de Blanc prova como o treinador está com moral alto com a direção da equipe. nas últimas semanas, cresceram os boatos de uma possível transferência para o Paris Saint-Germain. Contudo, Jean-Louis Triaud, presidente dos girondinos, garantiu ao técnico que o Bordeaux continuaria seu projeto, até agora bastante sólido, de crescimento e lhe deu toda a segurança necessária para trabalhar em paz. Com um time competitivo, não haveria mesmo motivos para Blanc mudar de idéia e abandonar o barco.
Nada mais acertada esta decisão do treinador. O Bordeaux encontrou um equilíbrio desde a chegada de Triaud ao poder, há cerca de um ano e meio. De lá para cá, a equipe se firmou como uma das principais concorrentes à força do Lyon e cumpre seus planos com extrema disciplina. A participação nesta Liga dos Campeões prova como o clube caminha muito bem. Pode-se lamentar a eliminação na fase de grupos, quando os Marine et Blanc tinham chances de passar para as oitavas e superar as expectativas. Em uma chave com forças como Chelsea e Roma, o Bordeaux ganhou muitos pontos de experiência para as próximas edições do torneio. Sem dúvida, um aprendizado essencial para se obter resultados ainda melhores.
Resolvida a questão com Blanc, o Bordeaux se concentra em solucionar outro problema: o futuro de Gourcuff. Cedido pelo Milan até o final da temporada, o meia reencontrou seu melhor futebol nos girondinos. Ele enfim teve espaço para mostrar suas qualidades, algo que mal teve chances nos rossoneri, e logo se tornou um dos grandes nomes da Ligue 1. Seu bom desempenho lhe abriu as portas dos Bleus, com seguidas convocações por Raymond Domenech. O treinador da seleção até lhe acena com a possibilidade de assegurar uma posição entre os titulares, algo fundamental para quem deseja disputar a Copa do Mundo-2010.
No entanto, tudo isto será apenas uma doce ilusão caso o Bordeaux não pague os € 15 milhões pedidos pelo clube italiano pela contratação em definitivo de Gourcuff. Circulou-se o boato de que Blanc só continuaria no time se a diretoria mantivesse o meia para a próxima temporada. O treinador desmentiu os rumores, mas não escondeu a vontade de contar com um de seus principais atletas para 2009/2010. O ‘caso Gourcuff’ requer atenção especial por parte da diretoria, exatamente para não comprometer todo o trabalho realizado pelo técnico até aqui.



