Boa impressão, mas…

O gol marcado por Tevez no final da partida em Gerland, em bola mal afastada por Fred, terá peso fundamental a favor do Manchester United na Liga dos Campeões. Embora o Lyon tenha se mostrado aplicado, o 1 a 1 em Gerland deixou um gosto de frustração. Em Old Trafford, os lioneses agora são obrigados a buscar pelo menos um gol se quiserem ter chances de avançar para as quartas-de-final – tarefa das mais ingratas, convenhamos.
Alain Pérrin preferiu montar uma equipe mais cautelosa e escalou Clerc no lugar de Ben Arfa. Embora comprometesse sua força ofensiva ao isolar Benzema no ataque, o treinador compensou em seu meio-campo, com uma marcação mais forte em cima do setor de armação dos Red Devils. Embora Coupet tenha tido trabalho em duas saídas do gol, o Manchester United encontrou problemas para desenvolver seu estilo de jogo.
Com o 4-5-1, o Lyon foi capaz de exercer uma forte pressão sobre o adversário com o qual a bola estava. Sem muito tempo e espaço para pensar, a rapidez do toque de bola inglês ficou prejudicada. Apesar de as chances de ataque para os dois lados não terem sido tão abundantes assim, foi um bom jogo, com um OL sólido diante de um inimigo poderoso e favorito absoluto à vaga.
Diante de Cristiano Ronaldo, Govou se multiplicou na hora de apoiar o ataque, mas sem se descuidar de grudar no português e auxiliar Grosso em suas tarefas defensivas. Até mesmo Boumsong, criticado por sua forma física fora da ideal, teve uma boa atuação. Clerc conseguiu fechar o lado direito, exatamente como queria Pérrin. Sobrava para Juninho Pernambucano e Benzema tentar alguma coisa na frente – o atacante deixou sua marca, mas não esperava uma das poucas bobeadas de sua equipe no lance do gol de Tevez.
Apesar da impressão positiva deixada no duelo de ida, o Lyon carrega um dilema para o confronto em Old Trafford. Se mantiver a mesma postura, não terá forças suficientes para buscar o gol salvador. No entanto, caso se lance à frente com um esquema mais ofensivo, corre o risco de pagar caro contra um time que exerce uma pressão infernal quando atua diante de sua torcida. Seria necessário outro ‘milagre de Glasgow’ para ver os lioneses comemorarem a passagem para a próxima fase.
Vergonha
Abdeslam Ouaddou, capitão do Valenciennes, recebeu um cartão amarelo durante a partida contra o Metz, fora de casa. O defensor marroquino foi advertido pelo árbitro Damien Ledentu por ‘comportamento antiesportivo’. A atitude do jogador para provocar a punição? Dirigir-se às arquibancadas do estádio Saint-Symphorien para tirar satisfações com um torcedor que lhe fez insultos racistas. Além do absurdo da situação em si, levantou polêmica a decisão do juiz em ter continuado o jogo mesmo com os nítidos sinais de agressão sofridos pelo atleta.
O marroquino agüentou as provocações durante todo o primeiro tempo. Ao apito do juiz, ele não tomou o rumo dos vestiários. Ouaddou passou pelo cordão de isolamento, subiu as escadas e só foi interrompido por alguns seguranças e outros espectadores. Conhecido por ser um dos jogadores mais tranqüilos da Ligue 1, o defensor ainda conseguiu manter certa dose de sangue frio para querer encarar seu agressor. Ele assegurou que não encheria a cara do sujeito de tabefes, mas simplesmente lhe pediria explicações.
Tão estarrecedor quanto o fato foi a displicência do juiz com relação ao caso. Ouaddou afirmou que se dirigiu a Ledentu durante o primeiro tempo para lhe comunicar o ocorrido, mas o árbitro teria dito para o jogador ‘continuar na partida’. O regulamento da Liga de Futebol Profissional (LFP) dá ao árbitro o direito de interromper a partida e/ou pedir aos seguranças para que cuidem do ‘convite’ ao autor das ofensas de ‘retirar-se’ do recinto. Nada disso foi respeitado e o defensor, além de ser vítima de racismo, sofreu outro golpe, desta vez da negligência e da falta de bom senso.
Ledentu deu uma outra versão do caso e afirmou que, se Ouaddou o tivesse realmente procurado para lhe informar do fato, ‘teria parado imediatamente a partida’. Parece uma desculpa esfarrapada para lavar as mãos e se fazer de inocente na história. É impossível o marroquino ser o único no gramado capaz de filtrar, entre todos os gritos vindos das arquibancadas, exatamente a voz solitária com insultos tão graves dirigidos a ele. Mesmo se o jogador não tivesse se queixado, o juiz deveria ter ouvido as ofensas da mesma forma dentro de campo e, a partir daí, tomar as providências cabíveis.
Logo voltou à tona o incidente ocorrido em setembro do ano passado na Ligue 2, bastante semelhante ao ocorrido com o jogador do Valenciennes. Boubacar Kébé, atacante do Libourne/Saint-Séurin nascido em Burkina Fasso, foi expulso a cinco minutos do final da partida contra o Bastia. Ele recebeu o cartão vermelho após fazer gestos obscenos para um setor da torcida corsa que insistia em insultá-lo com termos racistas. Pela primeira vez na história, a LFP decidiu aplicar a regra da ‘tolerância zero’ contra o racismo e o anti-semitismo e puniu o Bastia com a perda de um ponto.
Políticos e dirigentes manifestaram seu apoio a Ouaddou e criticaram a decisão do juiz de seguir a partida como se nada de mais tivesse acontecido. Como se não bastasse a dificuldade extrema de se extrair um mal enraizado na forma de pensar de uma minoria, ainda se deve trabalhar em outra frente, tão trabalhosa quanto, para erradicar esse conformismo com a situação. A velha história do ‘não é comigo, então não me interessa’ mostra-se uma prática repulsiva no mesmo grau daqueles que vão a um estádio para imitar macacos, fazer ofensas racistas a jogadores negros e exibir bandeiras e faixas com símbolos nazistas.
Como a LFP demonstrou no caso do Bastia, uma punição exemplar deve ser aplicada tanto ao ignorante que ofendeu Ouaddou como ao Metz. Castigos insossos como os aplicados na Espanha apenas servem para passar a mão na cabeça dos agressores e fingir que alguma atitude foi tomada. Ao árbitro negligente, também cabe um castigo pesado. Quando ele veste seu uniforme e entra em campo, não deve apenas cuidar do respeito às leis do jogo, mas ter a sensibilidade necessária para fazer valer o bom senso.
Disputa em aberto
O Bordeaux voltou a dar alguma graça à Ligue 1. Com a goleada de 6 a 0 sobre o Monaco em pleno principado, aliada à derrota do Lyon por 1 a 0 para o Le Mans, os girondinos agora estão a apenas um ponto de distância dos lioneses. Para quem achava que o campeonato estava morto, os comandados de Laurent Blanc mostram fôlego para lutar contra um OL inconstante e cuja motivação na temporada depende do dificílimo duelo contra o Manchester United pela Liga dos Campeões.
Desde 1958 um visitante não fazia um estrago tão grande na casa do inimigo. Há 50 anos, o então forte Stade Reims fez os mesmos 6 a 0 como visitante diante do Valenciennes. Uma marca que prova a força do Bordeaux a um terço do final da competição. Ricardo Gomes, ex-treinador dos girondinos, pagou pela instabilidade de seu elenco. Ironia do destino, o Monaco ainda não havia sofrido gols nas vezes nas quais atuou no Louis II em 2008.
Embora esteja na disputa por uma vaga em competições européias, o Monaco apresentou até agora muitos problemas quando tinha jogos decisivos pela frente. Contra os girondinos, não foi diferente. Na primeira etapa, as duas equipes pareciam dispostas a batalhar por um 0 a 0. As únicas jogadas de perigo se originavam em lances de bola parada; no restante do tempo, a técnica passou longe do principado e sobraram bolas lançadas de um lado para o outro sem muita precisão.
Na segunda etapa, o 4-4-2 de Blanc se fez valer mais incisivo, enquanto o Monaco tratava de repetir a mesma apatia. Em 20 minutos, o placar apontava 3 a 0 para os visitantes, graças ao ótimo trabalho realizado por Cavenaghi. A expulsão de Perez facilitou ainda mais a tarefa dos Marine et Blanc, sem grandes dificuldades para impor seu toque de bola rápido para balançar as redes mais três vezes.
O sinal de alerta está aceso para o Lyon. Fora de casa contra o Le Mans, Alain Pérrin optou por escalar um time misto, com os olhos no duelo contra o Manchester United. Além de deixar alguns de seus titulares de fora, quem entrou em campo foi obrigado a lidar com o desentrosamento e até o fato de atuar fora de sua posição. Por exemplo, Govou foi o centroavante, enquanto Benzema, poupado, estava no banco de reservas.
Com a cabeça em outro lugar, o OL foi presa fácil para um adversário que contava com os retornos de Gervinho, Romaric e Túlio de Melo, seus três destaques na partida. O meio-campo formado por Bodmer, Källström e Juninho Pernambucano esteve apático, sem combater nem criar com um mínimo de decência. Se havia a necessidade de tanto descanso, seria melhor algum deles ficar no banco. Quanto a Boumsong, sua condição física ruim torna-se um convite para Rooney, Cristiano Ronaldo e Tevez fazerem a festa. O OL paga em um momento crucial por seus erros no primeiro turno, quando teve a chance de conquistar uma vantagem bem mais tranqüila na liderança.
No clássico, o Olympique de Marselha provou estar mesmo iluminado. A virada por 2 a 1 em cima do Paris Saint-Germain deixa os marselheses em quarto lugar, a apenas três pontos do irregular Nancy. O resultado no Vélodrome, o quinto triunfo consecutivo do OM, comprova como a equipe está em alta, com grandes chances de atropelar na reta final da Ligue 1.
O PSG começou melhor, pressionou o rival no seu campo de defesa mas voltou a apresentar um velho problema: a falta de objetividade para chegar ao gol. Os parisienses acabaram beneficiados por um erro do árbitro, que marcou um pênalti de Bonnart em Diané – a falta foi fora da área. Em vez de cair diante da ‘síndrome do Vélodrome’, o Olympique demonstrou poder de reação e virou ainda no primeiro tempo.
Depois do intervalo, a pilha dos visitantes terminou e os donos da casa perderam uma chance atrás da outra. Apenas a entrada de Pauleta deu algum gás aos parisienses, insuficiente para mudar os rumos do confronto. Com a autoridade e a tranqüilidade necessárias para dominar o rival e reagir de forma racional após sair atrás no placar, o Olympique evoluiu bem em pouco tempo. A LC está cada vez mais próxima.



