Futebol francês

‘Já impactou a cultura do clube’: Os bastidores da escolha do Monaco por Filipe Luís

Diretor brasileiro elencou pontos que fez com que o clube escolhesse Filipe Luís

O início de trabalho como técnico na Europa vem fortalecendo uma trajetória multicampeã de Filipe Luís, iniciada no Flamengo. A chegada do brasileiro ao Monaco, em um cenário desafiador, não apenas mostrou a capacidade do ex-jogador em se adaptar à diferentes cenários, como também a extrair bons resultados.

Mas a escolha de Filipe Luís ao clube do principado também passou por olhares de um outro brasileiro: Thiago Scuro, diretor-geral do Monaco. Em entrevista ao canal “Sports Market Makers”, o dirigente elencou os pontos que fizeram com que o treinador fosse selecionado para direcionar um novo momento da equipe francesa.

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— Para mim, o primeiro ponto é o que ele conseguiu fazer com o Flamengo em termos de comportamento da equipe, a forma como ele mostrou enxergar o jogo e a capacidade de construir o jogo com os jogadores que ele tinha. Não em termos de conquista esportiva, porque acho que isso é consequência — iniciou.

O primeiro contato entre o dirigente e Filipe Luís aconteceu no período do Mundial de Clubes, quando o treinador ainda comandava o Flamengo. Scuro revelou que chegou a escrever algumas mensagens ao técnico, quando passaram a conversar sobre metodologia de treinos, personalidade e perfil de liderança.

Nesse meio tempo, o Monaco iniciava uma reconstrução, partindo da necessidade de gerar receitas com a venda de seus principais jogadores e sem margem financeira para contratar reforços importantes no mercado. Com um novo projeto em mente, o momento também marcou a saída do técnico Sébastien Pocognoli para a chegada do brasileiro.

Filipe Luís e Thiago Scuro, diretor do Monaco (Foto: IMAGO / PsnewZ)
Filipe Luís e Thiago Scuro, diretor do Monaco (Foto: IMAGO / PsnewZ)

— A gente decidiu iniciar um novo ciclo no Monaco esse ano e nós tivemos algumas conversas até chegar a um acordo. Ele é muito fácil de trabalhar, muito fácil de comunicar no dia a dia, já impactou a cultura do clube. É um treinador muito ambicioso, com uma visão de jogo muito clara, tem profissionais em volta dele muito bons também — afirmou.

Durante o período de análise, Thiago Scuro detalhou a atenção à capacidade de adaptação do treinador tanto ao futebol francês, com a exigência de um jogo mais físico, mas também ao perfil do elenco.

No caso do Flamengo, o clube possui uma média de idade elevada, situação oposta à encontrada no Monaco, que passou a focar no desenvolvimento de jogadores para formar talentos.

— Um ponto importante é a capacidade de aprendizado dele, que é muito rápida. Porque um dos pontos que me preocupava dentro do processo, além da adaptação à liga, que tem um jogo mais físico, é que você sai de um clube que tem um perfil de elenco de produto final, com jogadores mais maduros para vir para um clube que tem como missão desenvolver jogadores — pontuou.

Filipe Luís e elenco do Monaco após partida contra Gornik Zabre na Conference League (Foto: IMAGO / Jonathan Moscrop)
Filipe Luís e elenco do Monaco após partida contra Gornik Zabre na Conference League (Foto: IMAGO / Jonathan Moscrop)

Contudo, o próprio Filipe Luís buscou implementar jogadores mais novos ainda na época em que comandava o Rubro-negro. Em 2024, o Flamengo iniciou o Campeonato Brasileiro com uma média de 26,62, deixando o elenco como o 11º mais jovem da competição, segundo levantamento do “UOL”. Já no ano seguinte, a média caiu para 25,62, quando o treinador passou a dar oportunidades aos jogadores da base do clube.

— A gente sabe que o Flamengo tem um elenco de uma média de idade alta, um elenco muito talentoso, de muita qualidade, talvez o melhor elenco do futebol brasileiro, mas a gente também sabe que mudar comportamento de jogador mais velho é muito difícil para qualquer treinador. Então, você impactar jogador maduro sem a posse de bola é muito difícil — explicou.

O mandatário também afirmou que, apesar do receio com relação ao período de adaptação, tinha confiança no trabalho de Filipe Luís devido à sua experiência comandando as equipes sub-17 e sub-19 do Flamengo. Para o diretor, já é notável o impacto que o treinador tem nos jogadores.

Filipe Luís e elenco do Monaco durante treinamento (Foto: IMAGO / PsnewZ)
Filipe Luís e elenco do Monaco durante treinamento (Foto: IMAGO / PsnewZ)

— Ele conseguiu e vem conseguindo incorporar muito rápido essa veia de desenvolvimento de jogadores jovens e virando uma espécie de mentor também para que esses jovens possam construir o que ele construiu como jogador. Ele é obcecado por vencer, e isso faz com que ele tenha uma adaptabilidade de mudar a dinâmica de jogo — ressaltou.

Abordagem no Flamengo impactou na decisão final

Desde que assumiu o cargo em julho, o treinador brasileiro tem ressaltado que, por ter um elenco jovem (média de 23,9 anos), é preciso incentivar movimentos coordenados sem bola para limitar os espaços dos adversários, em todos os setores. E quando os monegascos não têm a posse, a marcação-pressão tem dado frutos.

— É um Monaco que joga um futebol ofensivo, que sem a bola pressiona, com a bola consegue ser vertical. O nosso objetivo nessa transição era melhorar a qualidade de posse e isso o Filipe conseguiu trazer um equilíbrio maior. Quando você olha para [a partida contra] o Paris Saint-Germain é impressionante o que [o time] consegue fazer com e sem a bola. É um time que consegue ter muita posse de bola e, ao mesmo tempo consegue estar organizado para ser agressivo e pressionar– explicou.

Para Thiago Scuro, a adaptação de Filipe Luís acontece devido ao perfil aplicado quando o treinador ainda comandava o Flamengo, resultado que fez com que o clube brasileiro conseguisse elevar o patamar do time em confrontos contra gigantes da Europa e que o Monaco buscava reforçar internamente.

— O Filipe conseguiu com esse grupo, com esse conceito, construir um Flamengo que se comportava muito bem sem bola. Um Flamengo que pressionava tanto faz contra quem jogava, conseguia fazer os jogadores da linha de ataque comprarem a ideia de que pressionar o adversário é o melhor caminho. O jogo de pressão é parte da ideia de um modelo que a gente tem dentro do Monaco — finalizou.

Foto de Carol Guerra

Carol GuerraRedatora de esportes

Jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com passagens pelo Globo Esporte, Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco. Apaixonada por futebol feminino e esportes olímpicos.

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