Futebol francês

Balanço do primeiro turno – II

Na semana passada, iniciamos a análise de como foi o desempenho de cada uma das equipes na disputa da Ligue 1 nesta temporada. Chegou a hora de vermos mais sete clubes. Entre eles, estão dois promovidos, mas com campanhas bastante diversas. Enquanto o Caen surpreendeu e aparece nas primeiras colocações da tabela, o Metz apenas deu vexame e parece condenado ao rebaixamento. O Strasbourg, por sua vez, cumpre seu objetivo de se manter na primeira divisão com uma atuação discreta.

Por falar em queda, o Sochaux também está ameaçado. Os Leões caíram de produção se comparada ao torneio passado e busca se recuperar. O Rennes também tenta se levantar. Depois de um bom começo, os bretões apresentaram uma queda acentuada e deixaram a luta por posições nobres. Aos poucos, quem sobe é o Toulouse, devido principalmente à volta de Elmander à boa forma. Por fim, o Saint-Etienne pretende melhorar fora de casa para brigar por uma melhor colocação.

Sochaux

Campanha: 19º
Destaque: Stéphane Dalmat
Decepção: Fabrice Pancrate

O rugido dos Leões passou praticamente imperceptível nesta primeira metade da temporada. O Sochaux só foi melhor do que o Metz, e isso já seria motivo suficiente para deixar o clube de Montbéliard preocupado. A equipe venceu apenas três vezes (duas como visitante e uma em seus domínios). O triunfo em casa ainda contou com uma ajuda do Olympique de Marselha, que marcou dois gols contra. Enfim, o time campeão da Copa da França em 2006 está irreconhecível. Ficou clara a queda de qualidade do elenco com as saídas de Leroy e Ziani. Para piorar, os reforços decepcionaram e até mesmo os jovens vindos do centro de formação, sempre uma esperança em momentos de alerta, frustraram as expectativas. A desordem era tanta que o treinador Frédéric Hantz foi demitido no meio do campeonato, algo raro no Sochaux.

Com Francis Gillot no comando da equipe para o segundo turno, a diretoria espera desanuviar o clima no elenco. Fabrice Pancrate, contratado para ajudar os mais jovens com sua experiência, azedou o ambiente com suas declarações polêmicas. Além disso, entrou em campo apenas com o nome; dono do maior salário do clube, ele foi o símbolo da displicência. Por outro lado, Stéphane Dalmat deu algumas alegrias à torcida com sua capacidade de organizar seus companheiros e distribuir jogadas com categoria. O jovem Melvut Erding também se sobressaiu no meio da mesmice. A saída de Pancrate seria decisiva para o futuro dos Leões; sem um desagregador, ficaria um pouco mais simples a tarefa de fechar o grupo em torno da luta pela manutenção na Ligue 1. No entanto, sem a contratação de um atacante e um meia, pouco adiantará.

Saint-Etienne

Campanha: 10º
Destaque: Bayal Sall
Decepção: Dimitri Payet

A mística do Geoffroy-Guichard continua forte. Os Verdes fizeram valer a força de seu caldeirão e obtiveram grande parte de seus pontos em casa. Em seu estádio, o ASSE tomou apenas dois gols. Entretanto, quando a equipe visitou seus adversários, mostrou-se muito inofensiva. Longe de seus domínios, o Saint-Etienne tomou 18 gols, transformando-se na pior defesa da Ligue 1 fora de casa. Em dez duelos, o Saint-Etienne perdeu sete, somando apenas cinco pontos (o terceiro pior aproveitamento do campeonato nesse quesito). Tal instabilidade se justifica em grande parte pelas novas características do clube nesta temporada. Em vez de apostar na experiência, a diretoria da equipe preferiu arriscar suas fichas em jogadores mais jovens.

A ausência de um líder com poder para orientar seus companheiros em momentos negativos prejudicou o time; além disso, em alguns confrontos houve a impressão de um relaxamento exagerado. Um desinteresse traduzido nas palavras do técnico Laurent Roussey como ‘paródia de futebol’. Payet, um dos poucos destaques do Nantes em 2006/07, ainda não justificou os € 4 milhões investidos nele. Com problemas de adaptação, o meia não marcou gols por seu novo clube nem acrescentou qualidade na criação de jogadas ofensivas. Seu desempenho apagado contrasta com a dedicação demonstrada por Mustapha Bayal Sall. O senegalês mantém uma impressionante regularidade em qualquer lado no qual atuou no meio-campo e conquistou a confiança de Roussey. Como os Verdes não devem se mexer quanto à contratação de reforços, deve-se esperar a manutenção desses períodos oscilatórios.

Metz

Campanha: 20º
Destaque: Miralem Pjanic
Decepção: Daniel Gygax

Quando se confirmou sua promoção para a Ligue 1 com cinco rodadas de antecedência na temporada passada, o Metz nem de longe imaginava o calvário vivido pelo clube em 2007/08. O clube corre o risco de selar sua volta para a segunda divisão com uma antecedência ainda maior, graças ao seu desempenho ridículo na primeira metade do torneio. Os grenás ganharam apenas uma partida até aqui e empataram outras quatro; 14 derrotas sofridas e somente cinco pontos conquistados. Para completar, o clube não somou pontos em casa, algo quase impossível de se conseguir. Sem dúvida, uma das piores campanhas de toda a história. A proposta da equipe para o restante da Ligue 1 é a de pelo menos recuperar um pouco sua imagem e cair com um mínimo de orgulho.

A postura titubeante da diretoria do Metz ajuda a explicar tão fraco desempenho. Sem dinheiro para contratar, o clube apostou na juventude. Com um dos elencos de menor média de idade do torneio, a equipe sentiu a inexperiência. O treinador Francis de Taddeo, considerado o melhor da última Ligue 2, já não tinha êxito na tarefa de motivar o elenco. Ele utilizou 34 jogadores em 19 partidas, sem encontrar uma formação ideal. Para complicar, ele perdeu diversos atletas importantes por contusão (casos de Gygax, Strasser, Barbosa, Cardy, Vivian, Renouard). Contudo, os dirigentes acharam melhor mantê-lo. A demora para demitir De Taddeo contribuiu para a manutenção do ‘círculo perdedor’. A chegada do substituto Yvon Pouliquen está mais ligada a um trabalho a médio prazo. Dos novos talentos, destaque para Miralem Pjanic, um dos poucos motivos para fazer a torcida sorrir. Ao Metz, resta apenas se preparar para uma despedida digna.

Caen

Campanha:
Destaque: Juan Eduardo Eluchans
Decepção: Issam Jemaa

Para quem acabou de voltar da segunda divisão, o Caen cumpre uma campanha acima de qualquer expectativa. No início da temporada, a equipe deu sinais de que não duraria muito tempo na elite, mas deu uma reviravolta e hoje está no topo da tabela. Após vencer o Nice na primeira rodada, o clube acumulou uma seqüência muito ruim – perdeu cinco vezes nas seis rodadas seguintes, embora tivesse o domínio das ações sobre seus adversários. o fundo do poço parecia a derrota em casa por 2 a 1 para o Metz. Nesse instante, soou o alarme; o elenco acordou e, a partir daí, parecia envolvido em uma aura de poder infinito. Montado em um esquema 4-1-4-1, o Caen finalmente encontrou seu equilíbrio e colecionou vítimas em seus confrontos seguintes.

O teste para o novo esquema tático foi o duelo com o Toulouse, em setembro. Franck Dumas até então se apoiava num 4-4-2 frágil, sem tanta fluidez. O triunfo por 2 a 1, além da melhoria do sistema de marcação, o fez manter essa mesma postura. Lille, Le Mans, Bordeaux, Strasbourg… até mesmo o Lyon sentiu a força do SMC. Com a fórmula do sucesso em mãos, o Caen conseguiu outra proeza: manter-se bem em campo em suas atuações tanto dentro como fora de casa. Com esses resultados, o clube realiza a melhor campanha dos últimos dez anos entre os clubes que subiram da Ligue 2 para a 1. Eluchans, um dos reforços contratados para 2007/08, traduz muito bem a trajetória da equipe. Acostumado com o 3-5-2 do Independiente, o argentino demorou para se adaptar à função de um lateral ‘tradicional’. Polivalente, dono de excelente forma física, ele logo se tornou artilheiro da equipe com cinco gols. O defensor até ofuscou o brilho de Gouffran, ainda decisivo para um time modesto mas muito bem organizado. Se mantiver o ritmo, o Caen pinta como candidato a uma vaga em torneios europeus, um sonho inimaginável até para o torcedor mais otimista.

Strasbourg

Campanha: 14º
Destaque: Eric Mouloungui
Decepção: Emil Gargorov

O Racing segue seu roteiro planejado para esta temporada. O time esteve longe de alcançar o brilho do Caen, mas também não deu vexame como o Metz, os outros clubes que vieram da segunda divisão. Apesar da campanha discreta na Ligue 1, o Strasbourg caminha com certa segurança para sua manutenção na elite. Uma ótima notícia para quem planeja um futuro mais promissor a médio prazo. Embora tenha conhecido dias melhores nas primeiras rodadas, o RCS viu sua situação se complicar em novembro, quando uma série de resultados ruins o empurrou para a parte de baixo da tabela. No mês seguinte, a equipe se recuperou e se livrou um pouco mais da ameaça de pertencer ao temido bloco que luta contra o rebaixamento. O treinador Jean-Marc Furlan chegou à equipe para ocupar o lugar de Jean-Pierre Papin e se entendeu bem com os jogadores, que se adaptaram de forma positiva ao seu modo de trabalho.

O principal destaque da equipe certamente fica com Eric Mouloungui. O atacante gabonense chamou a atenção por sua regularidade, além da velocidade pelo lado esquerdo do campo. Autor de três gols, ele foi ainda melhor em outra qualidade. De seus pés, saíram cinco assistências para seus companheiros. Tal número o deixa empatado na categoria de melhor ‘garçom’ da Ligue 1, ao lado de Gervinho e Leroy. Por outro lado, Emil Gargorov definitivamente não se adaptou à vida na Alsácia. O búlgaro, contratado em 2006, entrou em atrito com Furlan e foi emprestado ao CSKA Sofia. A diretoria do Racing considera o elenco suficiente para lutar pela permanência na primeira divisão – uma meta que deve ser atingida sem grandes sustos.

Rennes

Campanha: 13º
Destaque: Jérôme Leroy
Decepção: Emerson

Os bretões começaram a temporada 2007/08 dispostos a apagar a imagem deixada nos anos anteriores. Desta vez, a equipe teve uma boa arrancada na Ligue 1 e se candidatou até mesmo a brigar pela liderança da tabela. No entanto, após alcançar a terceira posição na 12ª rodada, o Rennes começou a cair. A cada novo jogo, um golpe; foram seis derrotas consecutivas que derrubaram a equipe e custaram a cabeça do treinador Pierre Dréossi. No total, o clube ficou quase dois meses sem conquistar um pontinho sequer. A chegada de Guy Lacombe promete reverter esse panorama negativo, mas o técnico precisará lidar com a forte personalidade de jogadores essenciais ao time como Mickaël Pagis, Jérôme Leroy e Sylvain Wiltord se quiser ser bem-sucedido. Pelo menos ele pode contar com a melhor estrutura das categorias de base da França, um prato cheio para quem tem um excelente faro para descobrir novos talentos.

Seu jeito mais autoritário pode colocar jogadores descontentes na linha, ou então tornar o ambiente mais pesado ainda. Com um limite tão tênue entre retomar a motivação do elenco e criar mais animosidades, Lacombe corre o risco de ver se repetir o fracasso visto em sua passagem pelo Paris Saint-Germain. Em campo, ao menos Leroy se esforça para levar o time à frente, mas tem oscilado demais nos últimos tempos. Se no ataque a situação parece mais ou menos tranqüila, na defesa estão as principais preocupações. M’Bia e Mensah participarão da Copa Africana de Nações, o que força o clube a procurar reforços para o setor. Apenas para lembrar, na série de seis derrotas o Rennes tomou 14 gols – ou seja, uma prova de que é preciso fazer algo para tapar esses buracos.

Toulouse

Campanha: 12º
Destaque: Johan Elmander
Decepção: André-Pierre Gignac

O TFC estava deslumbrado pela chance de participar pela primeira vez a Liga dos Campeões. Logo em sua estréia, o destino deixou os Violetas de lado e lhes reservou apenas o Liverpool, vice-campeão da edição passada do torneio, na fase preliminar. Como se não bastasse a inexperiência em lidar com a disputa de dois torneios ao mesmo tempo, o time ainda viu seu moral se reduzir a pó após ser goleado pelos Reds. De nada adiantou ganhar do Lyon na segunda rodada da Ligue 1; os 4 a 0 sofridos diante do clube inglês derrubaram a confiança da equipe. Para fechar o conjunto de fatores negativos, uma série de contusões, principalmente em seu setor defensivo (casos de Congré, Arribagé, Jonsson, Mathieu e Paulo César), além de suspensões de outros atletas, obrigou o treinador Elie Baup a promover diversas mudanças na equipe, o que dificultou a montagem e a manutenção de um sistema de jogo equilibrado.

O Toulouse só começou a se reencontrar no campeonato após Johan Elmander recuperar completamente sua melhor forma. Até dezembro, o atacante teve suas condições físicas atrapalhadas por problemas musculares. Contra o Bordeaux, ele foi fundamental. Apesar da derrota por 4 a 3, o sueco foi o responsável pelo resgate do ânimo de seus companheiros. Os Marine et Blanc terminaram o primeiro tempo com uma vitória parcial de 3 a 0. Na volta dos vestiários, Elmander marcou três gols, mas não impediu a derrota. No final, o resultado pouco importou, pois a partida serviu para resgatar a alma da equipe, perdida quando enfrentou o Liverpool em Anfield. Nos quatro duelos seguintes, ele ainda marcou outros sete gols.

A importância de Elmander contrasta com a frustração de André-Pierre Gignac. Contratado do Lorient como uma das maiores promessas do torneio, o atacante não superou as cobranças e comparações com seu companheiro de ataque. Baup considerou que os dois não podem jogar juntos, pois o time perde muito de sua força. O jovem ainda se envolveu em uma briga em um treino e manifestou seu descontentamento com sua situação no TFC, o que irritou o técnico. As vaias constantes da torcida mostram que sua passagem nos Violetas será bem mais curta do que o esperado.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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