França

Aposta arriscada

Eis que Laurent Blanc anunciou sua pré-lista de convocados da seleção francesa para a Eurocopa-2012. Se o treinador não havia surpreendido na primeira parte da história, quando chamou os jogadores que atuam no exterior, ele guardou o burburinho para depois. Além da presença do novato Mapou Yanga-Mbiwa entre os 26 eleitos, Blanc resolveu dar uma chance a Yoann Gourcuff. Uma aposta bastante arriscada.

Ok, o meia do Lyon jogou bem em suas últimas partidas pelo clube e dá a impressão de que, enfim, recuperou seu bom futebol. No entanto, não bastam apenas dois jogos para comprovar que Gourcuff tem totais condições de exercer o papel de maestro de uma seleção que precisa convencer em sua primeira grande competição após o fracasso/vexame do Mundial-2010. Ele ainda não desperta esta confiança toda para um papel de tamanha importância – nem mesmo quando estava 100%, o meia conseguiu se dar bem com a camisa dos Bleus.

Nesta temporada, Gourcuff atuou em apenas dez partidas como titular do OL. Ele estava ausente da seleção desde março de 2011, quando foi chamado para o amistoso contra a Croácia. Blanc parece ter uma dívida de gratidão com ele, já que o comandou no Bordeaux na campanha do título francês de 2008/09. O técnico, porém, parece se esquecer que o jogador deixa muitas dúvidas no ar.

Deixemos a condição física de lado, já que Gourcuff pode muito bem conseguir uma sequência de jogos sem se machucar. A questão fica por conta de seu relacionamento com o grupo. Já na Copa de 2010 ele foi deixado para escanteio pelos demais companheiros. Seu prestígio atual não é lá muito diferente, pois passa longe de ser uma unanimidade até mesmo entre os jogadores da seleção. Seria o estopim para um racha no elenco? Foi aberta a caixa de Pandora com as lembranças nefastas da época de Raymond Domenech.

Polêmica em torno de Gourcuff à parte, também chamou a atenção a presença de Mapou Yanga-Mbiwa. A grave lesão de Younès Kaboul apenas fortalecia a ideia de que Mamadou Sakho seria chamado, mas o defensor do PSG ficou fora da pré-lista. Melhor para o jogador do Montpellier, cuja convocação foi justificada por Blanc por seu bom desempenho na temporada. Para o técnico, Sakho “passa por um momento delicado” no clube da capital.

Entre os jogadores franceses que atuam no exterior, nada de surpresas. Exatamente por não ter perfil parecido com o de seu antecessor Raymond Domenech, Blanc divulgou uma lista sem nomes inesperados. O treinador confirmou as expectativas gerais e chamou Hatem Ben Arfa, tendo como base seu desempenho nos últimos meses pelo Newcastle. Não haveria melhor opção no exterior do que ele para figurar ao lado dos assíduos Karim Benzema e Franck Ribéry.

No meio-campo, Florent Malouda conservou seu lugar embora não viva um de seus melhores períodos no Chelsea. No entanto, ele possui crédito de sobra nos Bleus e conta com a confiança de Blanc. O técnico o vê atuando em uma posição mais recuada, até por conta de sua idade e da concorrência com Ribéry pelo lado esquerdo do ataque. Em um primeiro momento, porém, ele deve ficar na reserva. Nos outros postos, a presença de Samir Nasri e de Yohan Cabaye se justifica por suas atuações destacadas na Premier League. A dupla tem condições de até figurar entre os onze eleitos pelo técnico para a estréia.

Talvez a única discussão mais acalorada seja em torno da convocação de Gaël Clichy. Blanc tinha Jérémy Mathieu como opção na lateral esquerda, com o destaque para sua qualidade no apoio e seus bons cruzamentos, mas o treinador preferiu privilegiar o maior equilíbrio defensivo do primeiro. Clichy, porém, tem a dura concorrência com Patrice Evra por uma vaga de titular. Philippe Mexès, Adil Rami e Laurent Koscielny formam um miolo de zaga consistente e de boas alternativas.

Blanc primou pela conservação de seu trabalho, sobretudo na defesa – setor problemático nos últimos anos, mas que tem apresentado alguma evolução. Mexès e Rami, por exemplo, são os mais cotados para formar a dupla de zaga titular, conforme discurso repetido por Blanc sobre a necessidade de ambos atuarem juntos para dar maior proteção à defesa. Blanc terá três amistosos para ajeitar a equipe antes da estreia contra a Inglaterra. Até lá, pode ainda sofrer outra baixa, com a lesão de Loïc Rémy. Resta saber se o técnico prepara mais surpresas ou se agirá com a razão.

Vacas magras

Didier Deschamps costuma reclamar por não ter os meios de que gostaria para fortalecer o Olympique de Marseille. Em outras palavras, o treinador deseja que o clube contrate bons reforços para montar um elenco competitivo e, assim, ter mais condições de brigar por títulos e disputar uma vaga para a Liga dos Campeões (algo que não foi possível nesta temporada). No entanto, os desejos de DD ficarão apenas no plano dos sonhos. Tudo por conta das intenções de quem tem a grana.

Margarita Louis-Dreyfus, acionista majoritária do OM, deu a entender que não injetará mais tanto dinheiro assim no clube. “Quero encontrar uma solução adequada para a estabilidade do clube a longo prazo. Após a janela de transferências de 2010, a situação do OM já era difícil. A temporada 2011 foi decepcionante e os trabalhos no estádio Vélodrome complicaram as coisas. Ainda não tenho certeza do que farei”, disse.

Falando em números: o Olympique de Marseille deixou de faturar em torno de € 35 milhões nesta temporada e Margarita não parece lá muito disposta a colocar a mão no bolso para cobrir este valor elevado. Ela mesma disse que não vai usar dinheiro das empresas da família para investir no clube, o que reforça a ideia de tempos bastante difíceis para a equipe – e principalmente Deschamps.

O treinador será obrigado a conviver com uma espécie de medidas de austeridade para evitar um rombo ainda maior. Se ele sonhava com reforços de peso, terá que se acostumar com a ideia de apertar os cintos e conter gastos. O clube já se preparava para enxugar sua já alta folha salarial, e a delicada situação financeira funcionará como um catalisador para este processo – seja com a redução dos ganhos dos jogadores ou mesmo a saída de quem recebe um valor elevado.

Embora Margarita faça questão de dizer que conta com Deschamps, o treinador está cada vez mais contra a parede. Além da frustração por não conseguir desenvolver direito seus planos, ele ainda carrega outros problemas em suas costas. A problemática relação com o diretor esportivo José Anigo já o desgastou demais. Dentro de campo, os resultados são pouco animadores – há algumas rodadas, o time apenas cumpre tabela (ocupa um modesto 10º lugar) e espera a chegada das férias. Nem o título da Copa da Liga Francesa serve para acalmar a torcida, impaciente com a forma como o time se arrasta.

Fora da Liga dos Campeões, que poderia render um bom dinheiro aos combalidos cofres do clube, o OM já prevê tempos complicados para 2012/13. Deschamps, com contrato até 2014, precisará engolir mais este sapo para continuar seu trabalho na equipe. Se bem que, com tantos problemas enfrentados nos últimos tempos e sem uma solução aparente a curto prazo, não seria uma surpresa vê-lo abandonar o barco.

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