Aleluia!

Há algum tempo, parecia tudo encaminhado para a Ligue 1 ver enfim o Lyon despejado de seu trono quase vitalício. De forma capenga, os lioneses se mantinham na liderança do torneio com uma certa dose de sorte, um ou outro lampejo em uma partida e tropeços de seus rivais. Desta vez, porém, o OL viu outro concorrente lhe ultrapassar, uma sensação nova e amarga a tão poucos metros da linha de chegada. O Olympique de Marselha se aproveitou de mais uma apresentação pouco inspirada dos heptacampeões, goleou o Grenoble e terminou o fim de semana no topo. Se os marselheses conseguirão se manter ali, só a rodada seguinte definirá.
Como Bordeaux e Olympique de Marselha venceram seus compromissos, o Lyon entrou em campo diante do Monaco na terceira posição. A incômoda colocação, aliada à necessidade de um desempenho convincente diante de sua torcida, jogou uma responsabilidade extra sobre os ombros dos jogadores do OL. Em Gerland, a falsa impressão de um bom resultado antes do pontapé inicial maquiou os problemas do time. Afinal, não era de se esperar que o clube do principado, discreto no campeonato, pudesse atrapalhar os lioneses, que vinham de duas vitórias seguidas.
Logo quando a partida começou, o Lyon parecia estar anestesiado. A falsa tranquilidade seria confundida facilmente com confiança plena em suas capacidades, mas o OL sentia mesmo grande dificuldade em articular algo de útil. Com um Éderson totalmente apagado pelo meio, os donos da casa repetiram a mesma ladainha dos últimos tempos. Um time sem imaginação, lento e extremamente dependente das jogadas de bola parada. Muito pouco para quem estava acostumado a pegar seus adversários pela jugular em Gerland, sufocá-lo nos primeiros minutos e garantir a vitória sem grandes sustos.
Como Keita, pela direita, também se escondeu atrás da marcação dos monegascos, Benzema se viu sozinho para resolver os problemas ofensivos do OL. Com o desequilíbrio entre meio-campo e ataque, sobraram apenas as cobranças de falta, escanteios e os chuveirinhos para a área como alternativas. O Monaco ainda se beneficiou da defesa lionesa viver péssima fase para ficar em vantagem duas vezes no placar. No primeiro gol, na etapa inicial, Grosso deu total liberdade para Leko sair na cara de Lloris. Depois do intervalo, pouco depois do Lyon igualar, outra falha de posicionamento permitiu a Pino fazer o segundo.
O empate obtido por Piquionne forçou os lioneses a buscar a virada, mas ela jamais sairia sem um pingo de suor. O Lyon se acostumou ao estilo burocrático de jogo, de pouco brilho. Agora, paga pela sua apatia e corre o risco de ver a coroa escapar de sua cabeça. Em um momento tão difícil, a tabela também lhe foi ingrata. Logo no fim de semana seguinte, o OL encara o Bordeaux, terceiro colocado e apenas um ponto atrás. Um novo tropeço diante dos Marine et Blanc e as pretensões do octocampeonato vão para o vinagre. Pela bolinha que vem jogando, já estava mais do que na hora de o Lyon deixar a primeira colocação para quem apresenta um futebol mais vistoso.
Para o OM, a recepção do Grenoble tinha um objetivo muito claro: apagar o fracasso de sua viagem para a Ucrânia, após perder por 2 a 0 para o Shakhtar Donetsk pela Copa Uefa. Com as atenções agora voltadas para a Ligue 1, era chegada a hora de os marselheses conquistarem sua quarta vitória consecutiva no torneio. Nada melhor do que encarar um rival na luta para escapar do rebaixamento e com duas derrotas seguidas para recuperar o moral.
Ao contrário do OL, o Olympique soube como se desvencilhar do rival. O Grenoble começou o jogo com uma marcação eficiente, com seguidos desarmes em seu campo de defesa e alguns contra-ataques perigosos. O OM sentia um pouco a mudança promovida pelo técnico Eric Gerets em seu setor ofensivo. Sem Zenden, ele escalou Ben Arfa como titular (algo que não ocorria desde 12 de março). O ex-lionês levou um tempo para se adaptar ao lado direito. Os donos da casa só deslanchariam mesmo no segundo tempo. Gerets mais uma vez teve grande participação na mudança de atitude de sua equipe, ao colocar Wiltord e Kaboré nos lugares de Mears e Niang, respectivamente.
Foi o suficiente para Brandão aparecer mais na partida e ser o principal responsável por quebrar a resistência da defesa do GF 38. A goleada por 4 a 1 se construiu de forma natural. O OM enfim foi recompensado por seus esforços, condensados na figura de Gerets. O treinador sabe como fazer seu time render mais de acordo com as necessidades e não hesita quando precisa fazer mudanças. Na maioria das vezes, colhe os frutos de seus acertos e reverte estes resultados em motivação para seu elenco. Exatamente o que falta para o Lyon.
Bordeaux, o próximo?
Se a perda da liderança para o Olympique de Marselha causou traumas, o Lyon mal pode esperar a 32ª rodada da Ligue 1. Uma semana depois de deixar a ponta, o OL encara o Bordeaux no Chaban-Delmas sob o risco de cair para a terceira colocação em caso de derrota. Uma situação inimaginável até para o torcedor mais pessimista. Tal choque, acompanhado pelo OM com direito a pipocas e uma torcida imensa por um empate, servirá para os Marine et Blanc definirem, enfim, qual é a deles nesta temporada.
Desde o início, a postura dos girondinos sempre foi a mesma: somos um time modesto e já nos contentamos em ficar entre os três primeiros colocados. Sem se expor muito, o Bordeaux comeu pelas beiradas, sempre ficou à espreita dos líderes e, apesar de seus momentos de queda de rendimento, conseguiu se segurar sem perder tanto contato. Um triunfo diante de um OL com problemas existenciais o credenciaria de vez à luta pelo título, ainda mais se considerarmos seus duelos futuros.
Nos jogos restantes, o Bordeaux tem apenas um confronto mais complicado, quando enfrenta o Rennes fora de casa. No mais, seus adversários diretos pela taça estão em caminhos bem íngremes. Há ainda o duelo direto entre Olympique de Marselha e Lyon, cujo resultado será essencial para as ambições girondinas. Por outro lado, o OL tem reservada uma tabela nada animadora. Além da partida contra os marselheses, haverá outros jogos bem casca grossa contra Paris Saint-Germain e Toulouse.
Se o Lyon recuperar seu instinto decisivo, superar seus defeitos e mostrar seu poder de decisão, assim como fez nas temporadas anteriores, ganhará força mais do que suficiente para partir em busca do seu oitavo título consecutivo. Do contrário, bastará um simples empate contra algum destes adversários para todo o plano ir para o brejo. Como o Bordeaux não parece disposto a abandonar sua característica assumida de azarão, o OL deve se preparar para a cerimônia de entrega da faixa.
Por outro lado, esta mesma postura de correr por fora pode limitar os girondinos com uma espécie de “espírito conformista”. Neste caso, uma derrota para o Lyon seria algo normal e não causaria grandes efeitos nos ânimos do elenco, até porque haveria tempo para reconquistar os pontos perdidos. Não se deve confundir, porém, com “entrar para perder”, pois o Bordeaux passa longe disto.
Escondidos na sombra, os Marine et Blanc colocam nos ombros de seus rivais a responsabilidade da briga pelo título. Assim, seguem tranquilos e rumam sem despertar grandes atenções. Resta saber até quando a equipe continuará desta forma; se demorar demais para sair da penumbra e se lançar aos holofotes, o Bordeaux corre o risco de ser cegado pela luz e fracassar.



