Futebol francês

A vergonha de Blanc

O futebol francês entrou em choque com a polêmica revelada pelo Médiapart. O suposto plano de cotas para as seleções de base apenas escancarou algo que a sociedade francesa já conhece muito bem: a discriminação por cor e raça. O envolvimento de Laurent Blanc, em maior ou menor grau, apenas mostra como esta mancha está impregnada na alma do país e se tornou cada vez mais difícil de ser retirada.

Em tempo, antes de aprofundar o assunto, cabe um resumo dos acontecimentos. Uma reportagem do diário Médiapart revelou que, em uma reunião da Direção Técnica Nacional (DTN) no último mês de novembro, houve uma discussão em torno de um plano com o objetivo de reduzir o número de jogadores negros ou de origem árabe na seleção francesa. A ideia era simples: bastava estipular uma espécie de “cota racial” nas seleções de base. Seria permitida apenas uma taxa de 30% de jogadores negros ou de origem árabe nas equipes acima de 12 anos.

Blanc esteve em tal reunião. Embora o Ministério dos Esportes tenha livrado o treinador das acusações de racismo, também não dá para considerá-lo como um inocente na história. O técnico afirmou que houve, sim, uma discussão em torno da elevada presença de jogadores de dupla nacionalidade na seleção principal e que as declarações dele não poderiam ser analisadas fora deste contexto.

Ora, isso significa dizer que, de uma forma ou outra, Blanc sabia destas propostas e, no mínimo, calou-se por longos meses. Por mais que se mostrasse contra tais planos, o treinador não deveria ficar calado diante de assunto tão polêmico e absurdo. Afinal, ele assumiu o comando dos Bleus exatamente em um dos períodos mais complicados da história da equipe, quando se pedia uma limpeza moral depois do fiasco apresentado na Copa do Mundo-2010.

Quando iniciou seu trabalho à frente dos Bleus, Blanc fez um discurso de que faria tabula rasa na seleção, com o intuito de apagar todos os vexames ocorridos na lamentável passagem da equipe por Knysna. Exatamente por conta desta postura, surpreende a atitude do treinador por se omitir diante de algo tão absurdo. Era de se esperar ao menos alguma reação mais contundente, e não o mero silêncio diante dos fatos.

Em comunicado oficial, Blanc pediu desculpas por tudo o que aconteceu. O técnico disse que o objetivo da discussão “não era diminuir o número de jogadores negros ou de origem árabe” na seleção, mas sim tratar da “delicada questão da dupla nacionalidade” e “se preocupar com o futuro” dos Bleus. Por mais bem intencionado que fosse, Blanc errou. François Blaquart, diretor técnico da FFF, assumiu a culpa por usar o termo “cota” na fatídica reunião.

O dirigente foi suspenso de forma preventiva por sua atitude, bem pior do que a de Blanc. Também é um exagero pedir a demissão do treinador. Evidentemente, sua omissão foi uma falha, mas pelo que se apurou, em momento algum ele apareceu dizendo que era a favor de tal ideia, ou foi flagrado usando termos discriminatórios. Até onde se sabe, o técnico apenas manifestou sua preocupação com o tema da dupla nacionalidade.

Embora tenha sua culpa no cartório, Blanc se vê no meio do turbilhão formado em torno da seleção francesa. Desde a Copa-2010, os Bleus se tornaram objeto de acompanhamento nacional, digno de reality show, devido à intensa fiscalização em tudo o que acontece dentro do grupo. Quando todos imaginavam que a equipe se veria livre de escândalos e caminhava bem neste propósito, eis que seu comandante se envolve em uma polêmica gigantesca.

Com qual moral Blanc se apresentará agora para exigir uma postura íntegra dos jogadores, dirigentes e membros da comissão técnica? Seu trabalho de reconstrução, que mal havia dado os primeiros frutos, volta praticamente à estaca zero. Tanta pressão, ironicamente, vem de uma sociedade que não esconde seu lado xenófobo ao tratar africanos e árabes com desdém, como se vê na política do governo Sarkozy. Vale a máxima de “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”: é muito bonito posar de defensor das minorias, mas basta virar as costas para ver o desdém com o qual são tratados esses grupos.

Para se ter uma ideia da repercussão desta polêmica, até mesmo a aura de união do grupo campeão mundial em 1998 tornou-se questionada. Há uma nítida divisão entre os jogadores daquela época, em um elenco formado por negros, brancos e atletas de origem árabe. Lilian Thuram e Patrick Vieira, por exemplo, partiram para o ataque a Blanc. Já Christian Dugarry mostrou seu apoio ao treinador.

O curioso, para não dizer triste, fica por conta de se comprovar que aquela imagem de união passada pelos Bleus em 1998 na verdade era apenas uma fachada. Pelo tom adotado por alguns daqueles jogadores, resta uma marca de mágoa pelo comportamento de alguns colegas durante o Mundial. O que era para ser uma bomba se tornou mera formalidade, dada a imensa euforia trazida com a conquista inédita do título mundial.

Claro, seria ingenuidade demais achar que um time campeão se constrói com base na amizade, lealdade e espírito de equipe. No entanto, aquela bela imagem em todo início de partida, quando todos entoavam a Marselhesa a plenos pulmões, em comunhão com os torcedores, deveria ser encarada como um verdadeiro sacrifício para alguns.

Talvez o tal racha não fosse no mesmo nível do visto na seleção holandesa de anos atrás, quando havia uma nítida divisão entre negros e brancos na equipe. Só que a polêmica das cotas, se teve algum lado positivo, foi o de mostrar que o problema racial realmente fez parte do cotidiano dos Bleus – e não seria exagero pensar que ele perdura até hoje. Apenas um recado deveria ser mandado para quem sustenta tal pensamento ridículo: basta lembrar que o maior jogador francês de todos os tempos veio de uma família argelina. Sem Zinedine Zidane, a França certamente seria apenas mais uma seleção mediana no universo do futebol.
 

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Equipe Trivela

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