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A história mais mal contada da Copa tem um fim… esperado? Benzema diz que se aposenta da seleção

Em uma mensagem nas redes sociais, o atacante afirmou que sua história com a seleção chegou ao fim, após ser cortado da Copa do Mundo, aparentemente sem necessidade

Um dia depois da final da Copa do Mundo, Karim Benzema anunciou que a sua história com a seleção francesa terminou, o que não chega exatamente como uma surpresa. Foi uma trajetória conturbada, frustrante para os dois lados e que se encerra após um corte muito mal explicado do Mundial do Catar que pairou sobre a campanha da França até a decisão do último domingo. Benzema marcou 37 gols em 97 jogos e conquistou apenas um título, a Liga das Nações de 2021.

Na véspera da abertura da Copa entre Catar e Equador, a Federação Francesa anunciou que Benzema havia sofrido uma lesão no quadríceps da coxa esquerda e estava cortado da delegação. A previsão inicial era de três semanas de recuperação. Em um comunicado próprio, o craque do Real Madrid deixou muito claro que havia concordado com o corte para abrir espaço a um atleta que pudesse ajudar mais a França. “Na minha vida, nunca desisti, mas tenho que pensar no time, como sempre fiz, então a lógica leva a deixar meu lugar para alguém que pode ajudar nosso grupo a fazer uma boa Copa do Mundo”, disse.

A lógica era perfeita. Faltou combinar com Deschamps, que decidiu não convocar ninguém para o lugar de Benzema e deixou a situação extremamente estranha. Por que, se não aproveitou o lugar vago para levar outra opção, como Wissam Ben Yedder, do Monaco, um atacante com excelentes números nas últimas temporadas da Ligue 1, qual o lado negativo de manter Benzema no elenco, se ele poderia se recuperar a tempo das últimas fases da Copa do Mundo? Foi o que aconteceu, aliás. Ele retornou aos treinos no Real Madrid no dia em que a França enfrentou a Inglaterra pelas quartas de final.

Abrir mão de uma possibilidade razoável de contar com o melhor jogador do mundo seria sempre difícil de entender, para não dizer um pouco arrogante, mas Deschamps poderia argumentar que preferia manter o grupo fechado entre os jogadores que levou e sem que o assunto Benzema fosse uma distração ao longo da campanha, caso ele permanecesse tentando se recuperar. Mas não foi o que Deschamps fez ao tentar driblar perguntas dos jornalistas em entrevistas coletivas em vez de esclarecer o assunto de uma vez.

Houve até o insano rumor de que Benzema poderia ser relacionado para a final contra a Argentina, o que finalmente levou Deschamps a ser mais contundente e negar essa hipótese, dizendo que estava focado nos 24 jogadores que tinha para gerir. Benzema recusou o convite para fazer parte de uma delegação de jogadores lesionados, como Paul Pogba, que viajaram ao Catar para a decisão no avião do presidente francês, Emmanuel Macron.

Segundo uma reportagem do jornal L’Equipe, o distanciamento de Benzema da seleção desde o seu corte gerou “constrangimento” entre jogadores e comissão técnica. A publicação também afirma que o craque gostaria de ter continuado com o grupo para tentar se recuperar, e uma relação com Deschamps que sempre foi frágil, com um afastamento de seis anos após Benzema se envolver no caso de chantagem contra Mathieu Valbuena, ficou ainda mais estremecida, o que torna o anúncio desta segunda-feira muito natural.

Com uma foto vestindo o uniforme da seleção francesa, Benzema publicou uma mensagem nas redes sociais: “O esforço que fiz e os erros que cometi me levaram para onde estou hoje e tenho orgulho disso. Escrevi a minha história a nossa está chegando ao fim”. Uma história de 15 anos que não foi tudo que poderia ser. Benzema acabou disputando apenas uma Copa pela seleção francesa, em 2014, no Brasil, e perdeu o período recente mais glorioso da França, enquanto se transformava em um dos melhores jogadores do mundo.

Benzema estreou em 2007, em um amistoso contra a Áustria. Marcou logo de cara. Foi convocado, ainda no Lyon, para a Eurocopa do ano seguinte. Titular em duas partidas, não conseguiu evitar a eliminação na fase de grupos. Raymond Domenech não o convocou para o Mundial da África do Sul, preferindo nomes como Djibril Cissé, André-Pierre Gignac, Thierry Henry e Nicolas Anelka. Retornou para a Euro 2012, outra campanha decepcionante sob o comando de Laurent Blanc, e finalmente conseguiu algum brilho na Copa do Mundo do Brasil, com três gols na fase de grupos, em uma participação bem honesta da França.

Benzema deixou de ser convocado em 2015, inicialmente suspenso por ter se envolvido no caso de chantagem de um vídeo de sexo de Valbuena, que também acabou definitivamente afastado, e depois descartado por opção de Didier Deschamps. Nessa época, Benzema, descendente de argelinos, disse que o técnico cedeu à pressão dos racistas da França, citando implicitamente o partido de extrema-direita Frente Nacional, liderado por Marine Le Pen. A sobrinha da política afirmou que Benzema “deveria ir jogar pelo seu país” se não estava contente com a situação. O partido o criticou no passado por não cantar a Marselhesa, e ele chegou a declarar que “quando marca é francês, quando não marca, é árabe”.

Durante o período de exílio, um excelente atacante que era o parceiro perfeito de Cristiano Ronaldo se transformou em uma máquina ao assumir o protagonismo do Real Madrid. Um desempenho tão fenomenal que era difícil de ser ignorado. Técnico e jogador apararam as arestas para que retornasse em 2021 para a Eurocopa. Ele conseguiu fazer mais 14 jogos pela seleção francesa e, individualmente, teve um ótimo desempenho, com 10 gols. Alguns muito importantes. Marcou duas vezes no empate com Portugal na fase de grupos da Euro e outras duas nas quartas de final contra a Suíça. O seu grande momento foi no final four da Liga das Nações, decisivo contra a Bélgica e na decisão com a Espanha, rumo ao seu único título pela França.

O retorno de Benzema parecia pacificado, embora exigisse ajustes naturais para Deschamps encaixá-lo em seu time. No entanto, você nunca pode contar com a calmaria na seleção francesa, e a história de Karim Benzema, salvo uma nova reviravolta, termina com um caso mal explicado que infelizmente parece um fim apropriado para uma trajetória tão conturbada e que deixa todo mundo pensando no que poderia ter acontecido se uma das melhores seleções dos últimos tempos pudesse ter contado com um atacante do calibre de Benzema.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.
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