A comemorada hora da folga

Há tempos uma pausa para os jogos de seleções não era tão aguardada na Ligue 1. As principais equipes que disputam o torneio já estavam pedindo água, tamanha a maratona à qual se submeteram nos últimos dias. Em alguns casos, as equipes disputaram nada menos do que sete partidas em 21 dias. Para quem precisa de um refresco, o momento se mostra ideal para recuperar as energias e, principalmente, recarregar as baterias para quem está envolvido na disputa de competições europeias.
Ao fim da 13ª rodada da Ligue 1, os treinadores pareciam ter ensaiado um discurso. De Antoine Kombouaré a Romain Danzé, todos constataram que seus jogadores estão prestes a estourar. Nem todos aproveitarão a pausa para descansar, como bem sabem os convocados por Laurent Blanc para a seleção francesa e outros a serviço de suas equipes nacionais. No entanto, não dá para ignorar a necessidade cada vez mais latente de um repouso maior em meio a jornadas estafantes.
O Lille surge como um dos exemplos de maior repercussão. Os atletas do LOSC mal disfarçavam o cansaço após o empate por 1 a 1 com o Évian. Pouco depois, o clube encaminhou um pedido à Ligue de Football Professionel (LFP) pedindo para que o jogo contra o Toulouse fosse adiantado do dia 19 para o dia 18. Tudo por conta de sua participação na LC, para que pudesse se preparar com um mínimo de qualidade para as partidas decisivas diante de CSKA Moscou e Trabzonspor.
O documento, cujo tom não disfarçava a irritação com a entidade, mostra como a LFP deixou de defender os interesses dos clubes e jogadores. Em um passado recente, ela remanejava os jogos dos times participantes de competições europeias com o intuito de não prejudicá-los ao longo da Ligue 1. Pelo jeito, a ordem mudou e para pior, já que Olympique de Marselha e Lyon, embora igualmente sofram consequências semelhantes, parecem ser mais iguais do que o restante dos clubes franceses.
Para o OL, os efeitos da maratona têm efeito ainda mais devastador. Mesmo que consigam um remanejamento aqui e outro acolá, o time sofre com uma enfermaria que permanece cheia mesmo com o passar dos dias. O treinador Rémi Garde se vê sem muitas saídas, com a obrigação de improvisar e extrair o máximo de um grupo repleto de jovens e que carece de maior experiência. Isso tudo com possibilidades remotas de fazer um rodízio entre os titulares – ou seja, quando alguém se recupera de lesão, logo vê outro ocupar a vaga recém aberta no departamento médico.
No Olympique de Marselha, Didier Deschamps até teria motivos para praguejar contra a pausa internacional. Afinal, o time encaixou uma série de três vitórias na Ligue 1 e dá sinais de recuperação após um início de temporada atribulado. O treinador, porém, reconhece a importância deste momento de baixar as portas e respirar mais fundo graças a um descanso salvador.
Laurent Blanc compreendeu a necessidade de seus compatriotas e prometeu que fará o possível para não complicar ainda mais o desgaste de alguns dos principais jogadores em ação na Ligue 1. Resta saber se outros treinadores também terão esta mesma sensibilidade, sob risco de perder grandes nomes. O Paris Saint-Germain, por exemplo, torce demais para que a Argentina não faça muita questão de escalar Javier Pastore, esgotado na partida diante do Bordeaux.
Lyon conformado, Lille desaprumado
No duelo no Santiago Bernabéu, já havia ficado claro que Real Madrid e Lyon pertencem a níveis diferentes. A derrota por 2 a 0 para os Merengues em Gerland, além de esperada, apenas comprova uma obviedade: o OL decide seu futuro na Liga dos Campeões contra Ajax e Dínamo Zagreb. Exatamente por isso, a equipe comandada por Rémi Garde não deve se desestruturar com base nos confrontos com o time madrileno.
Se no começo dos anos 2000 o Lyon se gabava por ostentar números de causar inveja nos duelos diretos contra o Real Madrid, os últimos jogos recolocaram o time francês em seu lugar. Nas três partidas mais recentes entre os dois clubes, os Merengues venceram todas, marcaram nove gols e não sofreram unzinho sequer. Agora, o OL tem pela frente uma final contra o Ajax, três pontos à frente e com ótimo saldo.
O time holandês obteve uma vantagem confortável com os 4 a 0 sobre o Dínamo Zagreb e vai para Gerland interessado em um empate. O Lyon torce para contar com Michel Bastos, Lisandro López e Aly Cissokho em condições para aumentar suas forças nas partidas finais da fase de grupos, caso queira se classificar pela nona temporada consecutiva para as oitavas de final da LC.
Em Gerland, o Real Madrid chegou a brincar diante dos donos da casa, atônitos e com sérias dificuldades para manter a bola sob seu domínio. A marcação eficiente dos Merengues impediu que o OL criasse muitas chances perigosas. Éderson, por exemplo, deveria suprir a ausência de Michel Bastos, mas pouco fez além de perder a bola em demasia. A lentidão da defesa lionesa também preocupou, mas mesmo se o setor estivesse em seus melhores dias não conseguiria atrapalhar um inspirado Cristiano Ronaldo.
Se a situação do Lyon não está tão calamitosa, a do Lille beira a desilusão. Os atuais campeões franceses ocupam a lanterna de sua chave com míseros dois pontos, conquistados em decepcionantes empates com CSKA Moscou e Trabzonspor. As derrotas lógicas para a Internazionale demonstram que os Dogues ainda não aprenderam as lições ensinadas ao longo destes dois últimos meses.
O LOSC está longe de encontrar o equilíbrio necessário para se dar bem na LC. Não basta apenas ter um time técnico, mas ele também precisa estar tinindo fisicamente e com moral suficiente para se recuperar dos trancos – coisa que o Lille ainda não conseguiu no torneio. Em San Siro, o time até teve bons números, como atestam os 13 escanteios a favor, os 18 chutes a gol e os 53% de posse de bola.
Falta ao Lille algo essencial: objetividade para concluir suas jogadas ofensivas. Parece um paradoxo levantar este ponto quando se fala de uma equipe que ficou conhecida como “Barcelona da Ligue 1” na temporada passada por sua qualidade no ataque, mas vários jogadores decisivos para o bom funcionamento deste esquema ainda não mostraram a que vieram nesta LC. O principal deles é Eden Hazard, de atuação discretíssima diante da Internazionale em Milão.
O esquema 4-2-3-1 montado por Rudi Garcia funcionou até certo ponto em Milão. O Lille se movimentou bem, mas esbarrou mais uma vez na hora de definir. De nada adiantou trocar peças, como na entrada de Túlio de Melo no lugar de Jelen, se o espírito permanece intacto. A Internazionale, dentro de seu minimalismo, deu uma lição de como se deve matar o adversário, uma lição que os Dogues teimam em ficar de recuperação.
Talvez o medo excessivo de rivais de maior tradição na LC e um certo complexo de vira-latas ajudem a compreender melhor porque o Lille esteja tão travado no torneio. Com a necessidade de ganhar em Moscou e superar o Trabzonspor em casa, o LOSC depende de um milagre para avançar às oitavas. Até mesmo a vaga para a Liga Europa está ameaçada, o que certamente será uma imensa frustração para os Dogues.



