A chance do Olympique

O Lyon agradeceu ao Olympique de Marselha pela ajuda. Se o OL cumpriu sua parte na 23ª rodada da Ligue 1 ao bater o Nice fora de casa por 3 a 1, os heptacampeões franceses terminaram o fim de semana com um sorriso ainda maior quando viram a vitória do OM sobre o Bordeaux por 1 a 0 no Vélodrome. O time de Claude Puel respira com mais folga na ponta da tabela, algo que não conseguia há algum tempo, e além disso torna a briga pelo segundo lugar ainda mais acirrada. Agora, os girondinos precisam se concentrar primeiro em não deixar seus adversários os ultrapassarem, deixando o duelo pela ponta para outra hora.
O Olympique jogava sua vida em casa. Em um momento decisivo, no qual o Vélodrome costuma agir mais como um vilão do que uma força, o OM enfrentaria o Bordeaux, rival direto na luta por uma vaga na Liga dos Campeões e, também, pelo título. Uma derrota arrefeceria o clima nos marselheses, que ficariam para trás em uma disputa cada vez mais ferrenha e com um número maior de pretendentes. Nada como uma dose de sorte para auxiliar os donos da casa – e um azar danado atingir em cheio a jugular dos Marine et Blanc e deixá-los um pouco mais distantes da liderança.
No começo da partida, o Olympique dominou o rival, mas o Bordeaux se mostrava vivo em contra-ataques e na qualidade individual de seus jogadores de frente. Sem contar com seus principais homens de frente, o OM recorreu à dupla ofensiva formada por Wiltord e Brandão, com Ziani e Valbuena no apoio. Se o quarteto não apresentou uma excelente exibição, também ficou longe de protagonizar uma decepção completa. Já a defesa, com apenas M’Bami no combate no meio-campo, quase fez água.
Por incrível que pareça, Taiwo foi o destaque positivo. O nigeriano, conhecido por deixar amplos espaços em suas costas, desta vez teve papel fundamental ao marcar Jussiê com correção. Isolada uma das principais armas do Bordeaux, ainda era necessário parar Chamakh, Gourcuff, Cavenaghi… Embora Hilton e Rodriguez tenham passado sufoco no miolo da zaga, os girondinos esbarraram em uma noite nada boa de seus artilheiros.
Tanto o argentino como o meia estiveram irreconhecíveis na hora da finalização. Eles até faziam tudo direitinho na preparação, mas os arremates saíram um horror completo. O ambiente pavoroso teve a participação especial do marroquino. Além das chances perdidas na frente, Chamakh ainda completou seu desempenho infeliz ao marcar o gol contra que garantiu a vitória dos marselheses. Um castigo para a dupla de zaga Henrique e Diawara, soberana nas bolas altas.
Melhor para o Lyon, que apesar de há tempos não exibir aquele estilo de jogo vistoso e letal de outros tempos apresentou alguns flashes de bom futebol diante do Nice. Na Cote d’Azur, o OL se aproveitou da eliminação do OGC pelo modesto Vannes, nas semifinais da Copa da Liga, para fazer seu nome. A passividade da defesa anfitriã surpreendeu, pois o goleiro Ospina se desdobrou para evitar o pior. Mesmo assim, o colombiano levou dois gols em menos de meia hora, mais por conta da incrível abulia rubro-negra do que pela pressão exercida pelos visitantes.
Quando o Nice resolveu jogar, já no segundo tempo, Sablé estragou tudo ao ser expulso. Com um gramado em péssimo estado e com um a menos, o OGC ainda perdeu mais um homem com o cartão vermelho recebido por Adeílson, ex-Ipatinga e cotado para ser “um novo Ederson”. Por falar nele, o brasileiro não teve um pingo de dó contra seu ex-clube, deu duas assistências e foi fundamental para a construção da vitória lionesa por 3 a 1. Para se ter idéia da facilidade, até Fábio Santos achou que poderia subir ao ataque para tentar tirar uma casquinha.
Rennes em colapso
Em todo início de temporada, era mais ou menos simples fazer um prognóstico sobre o desempenho do Rennes: o clube começaria patinando, mas em seguida teria uma recuperação incrível no segundo turno e por pouco não beliscava uma vaga na Liga dos Campeões. Em 2008/09, a história teve um início bastante diferente. Os bretões vieram com tudo, cumpriram uma primeira metade de Ligue 1 exemplar e carregaram uma longa invencibilidade. No entanto, bastou a retomada do torneio para a equipe degringolar de vez e decepcionar a torcida.
Parece que o Rennes decidiu inovar desta vez e inverter o nível de suas atuações. Seu início de segundo turno está longe de despertar suspiros. Em quatro partidas realizadas em 2009 na Ligue 1, o clube venceu apenas uma delas, com um empate e duas derrotas – em todo o primeiro turno, a equipe havia sido derrotada uma única vez. Nestes quatro confrontos, os bretões marcaram somente um gol. De repente, a máquina rubro-negra começou a engasgar e perdeu rendimento.
Há de se relevar a derrota de 1 a 0 para o Lille, forte concorrente na disputa por uma vaga em competições continentais. Contudo, não dá para deixar passar o revés diante do lanterna Le Havre (1 a 0), que só havia ganhado outras três vezes, possui um dos piores ataques da Ligue 1 e a defesa mais vazada do campeonato! O HAC ainda vinha de uma sequência de sete derrotas, bem longe de sair da zona de rebaixamento. Todos os grandes (Olympique de Marselha, Lyon, Paris Saint-Germain…) saíram do estádio Jules-Deschaseaux com três pontos no bolso, o que seria absolutamente esperado para o Rennes.
Só que os bretões parecem padecer de uma ‘maldição’ quando visitam o Le Havre. Em novembro, o time foi eliminado nas oitavas-de-final da Copa da Liga na casa do adversário. A nova derrota para a pior equipe da Ligue 1 (e provável rebaixada) deve fazer os bretões voltarem de novo à terra firme. O time não se transformou em abóbora sem mais nem menos. Devido ao seu grande desempenho no primeiro turno, e à invencibilidade de 18 partidas, não demorou muito para a equipe receber elogios.
A estabilidade e segurança defensiva, a qualidade do meio-campo e as atuações regulares e em alto nível de Pagis, por exemplo, serviram de combustível para inflamar o ego do elenco. Não haveria nenhum problema nisso, se os jogadores não deixassem de cumprir sua parte. Críticas positivas se conseguem à custa de muito suor, mas se transformam rapidamente em punhais quando se deixa o sucesso subir. Não há vitórias quando se joga o destino apenas no nome.
O Rennes despontou até como potencial candidato a incomodar o Lyon na luta pelo título. Se mantivesse sua concentração, realmente o time estaria em situação bem melhor, ainda mais com os constantes tropeços dos líderes. Os bretões somaram apenas um ponto em seus três jogos mais recentes, e o treinador Guy Lacombe acertou na mosca ao analisar a situação da equipe. “É preciso voltar para a terra”, disse logo após a derrota para o Le Havre. Nada mais correto. Simplicidade e solidariedade costumam funcionar muito mais do que toquinhos estilosos e discursos repletos de marra.



