O Queen’s Park é um bastião das tradições no futebol. O clube de Glasgow é o mais antigo da Escócia, fundado em 1867. Os alvinegros, acima disso, foram pioneiros no que se chama de “jogo de passes” – considerados, desta maneira, “criadores” do futebol-arte, em tempos nos quais a modalidade era praticada na base dos chutões e da correria. Além do mais, os Spiders são os donos originais do Hampden Park, o estádio da seleção escocesa. E tudo isso mantendo um estatuto amador, sem se render ao profissionalismo nem mesmo durante a expansão do esporte. Depois de 152 anos, porém, o Queen’s Park reviu os seus princípios. Numa decisão histórica tomada nesta quinta-feira por seus sócios, os escoceses irão se tornar profissionais.

Mesmo com caráter amador, o Queen’s Park integra a Football League da Escócia desde 1900. Disputa regularmente o Campeonato Escocês, atualmente variando entre a terceira e a quarta divisão. No entanto, as dificuldades para lidar com a realidade e os desafios futuros fizeram os membros dos Spiders votarem pela mudança. Ao todo, 91% dos sócios aceitaram a transformação. “É uma noite histórica. São 152 anos. Os sentimentos se misturam. Joguei pelo clube, sei quão grande esse momento é. Podemos agora focar no futuro, enquanto continuamos muito orgulhosos de nossa longa história no esporte””, afirmou o presidente Gerry Crawley. Fica para trás o lema trazido no próprio escudo, “jogar pela vontade de jogar”.

Um fator essencial à mudança no estatuto do Queen’s Park é o Hampden Park. O lendário estádio surgiu em 1873 e está em sua terceira versão, reconstruído em um local diferente em 1903 para ampliar as arquibancadas. Maior do mundo até a inauguração do Maracanã, o local é usado historicamente também pela seleção escocesa. Já em 1997, a federação realizou uma ampla reforma no local e se tornou administradora do estádio, custeando as obras e garantindo um aluguel aos alvinegros. Todavia, o contrato de concessão se encerrará em 2020 e a entidade não se mostrava disposta a renovar.

A principal queixa da federação se concentrava na falta de liberdade para realizar melhorias e investimentos mais constantes no Hampden Park, já que o Queen’s Park seguia como dono. Além disso, a entidade não aceitava o preço de venda estipulado pelo clube. Enquanto a oferta era de £2 milhões, os alvinegros exigiam £6 milhões pelo estádio – um valor baixo devido a um financiamento que precisaria ser reembolsado. A federação ameaçou até mesmo transferir os jogos da seleção para Edimburgo. O consenso só aconteceu depois que o filantropo Lord Willie Haughey aceitou pagar a diferença, num total de £5 milhões aos Spiders. O milionário já havia salvado a Copa da Escócia da quebra na década passada, com um aporte de £2 milhões quando o torneio perdeu seu patrocinador.

Por mais que o aluguel ajudasse o Queen’s Park a se sustentar, as incertezas sobre o futuro e a falta de condições próprias para manter o Hampden Park fizeram o clube evitar um prejuízo maior. A média de público não atinge os mil espectadores por jogo, num local com capacidade para 50 mil. Agora, os alvinegros precisarão de novas fontes de receita. Mesmo com patrocínios, o regime profissional surgiu como o caminho necessário para manter seus elencos e não provocar um apequenamento ainda mais drástico dos Spiders.

Após o acesso à terceirona em 2015/16, o Queen’s Park caiu duas temporadas depois e, desde então, faz campanhas de meio de tabela na quarta divisão. A partir de 2020, o clube passará a usar o Lesser Park, estádio anexo ao Hampden Park que possui capacidade para cerca de 800 pessoas e será ampliado. Até então, o local era utilizado para treinamentos e para jogos das categorias de base. O último evento dos Spiders como donos do Hampden Park será a Euro 2020. Acontecerão quatro partidas por lá, incluindo uma pelas oitavas de final.

A transição ao profissionalismo será gradual. O Queen’s Park poderá pagar salários, o que nunca havia acontecido nestes 152 anos. No máximo, assinava contratos mínimos de £1 para se adequar às leis trabalhistas. Além disso, o time poderá vender os seus atletas, o que também será inédito. Até então, a maior atratividade do clube para contratar jogadores era atuar em Hampden Park e representar a tradição. Sem salários, os atletas precisavam se contentar com ajudas de custo mínimas, incluindo o material esportivo. Outros também trabalhavam nas próprias estruturas da agremiação.

Mesmo com o abismo financeiro, o Queen’s Park mantém uma boa estrutura às suas categorias de base. É o que deixa o clube minimamente competitivo. O problema é a falta de capacidade para segurar os pratas da casa, atraídos por contratos profissionais de outras agremiações. Não à toa, o elenco é essencialmente jovem, com outros atletas um pouco mais velhos que podem conciliar vidas paralelas além dos gramados. O grande prodígio surgido com a camisa alvinegra nesta década foi o lateral Andy Robertson, do Liverpool. Ele chegou ao Hampden Park quando tinha 15 anos, após ser dispensado pelo Celtic. Pôde se dedicar aos estudos, antes de alcançar ao primeiro time e atrair a atenção do Dundee United em 2013.

“O comitê do clube traçou um caminho para tentar nos defender das ameaças de outros clubes ambiciosos ao nosso redor que desejavam chegar à liga profissional. Estamos ansiosos para enfrentar isso e progredir. O coração de muitos membros realmente não queria fazer isso, mas precisávamos”, contou Crawley, à BBC Escócia. A medida precisava de 75% dos votos dos membros para ser aprovada e a resistência à ideia de abandonar o amadorismo mantinha um percentual inferior a este até poucos anos atrás. A pressão da federação quanto ao Hampden Park é que alterou o cenário nos últimos meses.

Já nas redes sociais, o Queen’s Park apresentava justamente o gosto agridoce de transformar o seu maior princípio: “Reconhecemos a dificuldade em introduzir esta resolução. No entanto, acreditamos que isso nos permitirá planejar um futuro mais brilhante, enquanto enfrentamos o desafio de sair do estádio nacional e de manter nosso lugar na liga principal”. Os alvinegros também agradeceram o apoio de torcedores e de seus sócios nesta mudança dolorosa.

A história do pioneirismo

Quando surgiu no futebol, o Queen’s Park era um clube singular em sua essência. Mesmo filiado à Football Association a partir de 1870 e liderando a fundação da Scottish FA em 1873, a equipe mantinha regras próprias. E a importância dos alvinegros era tão grande que eles influenciariam mudanças vitais nas “Laws of the Game”. Dentro do clube, a lei do impedimento apontava que eram necessários apenas dois adversários à frente da linha da bola, e não três, como previa a FA até então. Foram os Spiders que sugeriram a divisão dos 90 minutos em dois tempos e as cobranças de falta. Além disso, eles também haviam adotado o travessão antes da maioria e ajudaram a implementar o aparato no restante do esporte em 1875. Isso apresentando um estilo de jogo marcante, cadenciado por seus passes.

O Queen’s Park ficou com a fama de pai do “futebol científico”. Graças à técnica apurada de seus jogadores e ao privilégio à troca de passes rápidos pelo chão, não dos chutões, os Spiders passaram a dominar o futebol escocês. Os dribles eram outro recurso sofisticado aprimorado pelos alvinegros, que apresentaram também inovações táticas, atuando no 2-2-6, bem mais organizado que o 1-1-8 vigente na época. Uma força tão grande que a primeira seleção da história do país seria formada apenas por jogadores do clube, numa época de freguesia da Inglaterra contra a Escócia.

A supremacia do Queen’s Park não se refletiu necessariamente em títulos na Football Association. Por causa dos altos custos da viagem ao sul da ilha na época, os Spiders não participavam regularmente da FA Cup em suas primeiras edições. Em compensação, costumavam golear os campeões vigentes em amistosos. Quando a Copa da Escócia surgiu, em 1873, os alvinegros faturaram suas três primeiras edições. E faziam até mesmo exibições por diferentes cidades, para consolidar o “estilo de jogo escocês”, rico em passes e dribles.

A ruína do Queen’s Park como um clube de elite começou a surgir na década de 1880, justamente com a ascensão do profissionalismo. Os times mais ao sul da Grã-Bretanha (principalmente na região industrial no norte da Inglaterra) passaram a oferecer empregos aos jogadores e iniciaram uma debandada de escoceses, os craques da época. Concorrentes na Copa da Inglaterra nas temporadas 1883/84 e 1884/85, os Spiders chegaram a duas finais da competição, mas acabaram derrotados em ambas por adversários que utilizavam este expediente. Já em 1885, o mercado se tornava aberto, com a adoção do regime profissional entre os ingleses, o que provocou de vez o êxodo de talentos na Escócia.

Os clubes escoceses se tornaram profissionais a partir de 1893. O Queen’s Park, fiel aos seus princípios, preferiu sustentar um estatuto amador. Permaneceu como um clube relevante, que competiu contra os profissionais no Campeonato Escocês a partir de 1900/01. Porém, se manteve regularmente na primeira divisão somente até o final dos anos 1940. Depois disso, o time teve uma rápida aparição na elite durante a década de 1950 e, nos últimos 30 anos, vagou entre a terceira e a quarta divisão do Campeonato Escocês. De seus dez títulos na Copa da Escócia, o mais recente foi erguido justamente em 1893, algo simbólico.

O Queen’s Park sofreu um natural sufocamento em Glasgow, com o crescimento de Celtic e Rangers por causa do profissionalismo – e do sectarismo. Não à toa, as médias de público dos Spiders despencaram junto com o time. Até a metade do século passado, o clube tinha uma média na casa dos 10 mil torcedores, mas o desaparecimento na primeira divisão reduziu drasticamente tal quantia. Desde os anos 1960, os alvinegros costumam levar cerca de mil torcedores por partida, muitos deles moradores da própria região onde fica o Hampden Park.

Além do mais, o crescimento econômico do futebol também fez estrago sobre o Queen’s Park. Se até meados da década de 1970 e da década de 1980 era possível manter bons jogadores que optavam por salários mais abastados em outras áreas, o aumento das cifras tornou isso impossível, com o boom das cotas televisivas. O sustentáculo dos Spiders era mesmo seu idealismo, o que mantinha certos ares heroicos ao redor da camisa alvinegra. Isso, entretanto, não vinha sendo suficiente para garantir a estabilidade. “Num mundo perfeito, continuaríamos amadores. Entretanto, nosso mundo mudou”, definiu bem um dos membros, ao The Scotsman.

Como leitura complementar, um texto recomendadíssimo é “Os últimos reis da Escócia”, que serviu de fonte a algumas das informações acima. O artigo se aprofunda mais no passado e no presente do Queen’s Park, a partir de uma visita ao Hampden Park. Publicada no Puntero Izquierdo, a reportagem é um dos capítulos do livro “À sombra de gigantes”, do jornalista Leandro Vignoli.