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Uefa põe fim aos gols fora de casa como critério de desempate a partir da temporada 2021/22

Gols fora de casa eram um critério de desempate usado desde 1965 pela Uefa; empates no saldo serão definidos com prorrogação e pênaltis, se necessário

A Uefa colocou fim ao uso da regra do gol fora de casa como critério de desempate a partir da próxima temporada, 2021/22. A regra era usada desde 1965 para confrontos em ida e volta que acabassem em empate no saldo de gols. A decisão valerá para todas as competições, masculinas, femininas e de categorias de base.

A regra foi aplicada pela primeira vez no mundo pela Uefa, na então Recopa (ou Copa dos Campeões de Copas) de 1965/66. Depois, foi introduzida na Copa das Feiras em 1966/67 e na então Copa Europeia, ou como também era conhecida no Brasil, a Copa dos Campeões, predecessora da Champions, na temporada 1968/69 para a sua segunda fase e a partir de 1970/71 para todas as fases. Antes, até ali, os jogos que terminaram empatados no placar agregado eram decididos em uma nova partida em campo neutro.

A regra dos gols fora de casa era usada como critério de desempate em caso de empate no saldo de gols depois de dois jogos. O maior número de gols fora de casa serviria para classificar um dos times, sem necessidade de prorrogação ou pênaltis. Ou seja: se um time perdia por 3 a 1 fora de casa e depois vencia em casa por 2 a 0, estaria classificado. Agora, um resultado assim terá prorrogação, com dois tempos de 15 minutos. Se continuarem empatados, a decisão será nos pênaltis.

A entidade fez o anúncio nesta quinta-feira, depois de reunião do Comitê Executivo, seguindo orientação do Comitê de Competições e do Comitê de Futebol Feminino. Os gols fora de casa também deixam de ser usados como critério de desempate no confronto direto entre dois clubes empatados na fase de grupos das competições. Contudo, o total de gols marcados fora de casa na fase de grupos continuará como um critério de desempate a mais, de forma a ter mais critérios esportivos para impedir que dois times permaneçam empatados.

A justificativa da Uefa

A justificativa da Uefa é que as vitórias em casa e fora de casa tiveram uma grande alteração na porcentagem desde meados dos anos 1970 até agora. Naquela época, segundo a Uefa, 61% das vitórias eram em casa, e 19% fora, em média. Atualmente, ainda segundo a entidade, o número foi reduzido a 47% em casa e 30% fora.

A média de gols marcados dentro e fora de casa também foi usada como critério para a mudança da Uefa. A entidade alega que nos anos 1970, a média de gols em casa e fora era 2,02 e 0,95 e atualmente o número está em 1,58 e 1,15 nas competições masculinas. Na Champions League feminina, desde a temporada 2009/10, a média de gols se manteve estável, com média de 1,92 em casa e 1,6 fora de casa.

Ainda segundo a Uefa, a mudança também considera que muitos fatores mudaram para essa redução da vantagem de jogar em casa. Entre elas, a maior qualidade dos gramados e a padronização dos seus tamanhos; infraestrutura melhor dos estádios; melhores condições de segurança; maior cuidado com arbitragem (além da introdução da tecnologia na linha do gol e o VAR); transmissões e cobertura de TV maiores e mais amplas; condições de viagens mais confortáveis; um calendário apertado que dita uma maior rotação dos elencos; e mudanças nos formatos das competições. Segundo a Uefa, tudo isso afetou como o futebol é jogado e tornou o critério do gol fora de casa menos relevante.

Ceferin: “Não é mais apropriado que um gol fora de casa tenha mais peso do que um marcado em casa

“A regra dos gols fora de casa tem sido uma parte intrínseca das competições da Uefa desde que foi introduzida, em 1965. Contudo, a questão da sua abolição foi debatida em várias reuniões da Uefa ao longo dos últimos anos. Apesar de não ter unanimidade nas visões, muitos técnicos, torcedores e outras partes interessadas questionaram sua justiça e expressaram sua preferência para que a regra fosse abolida”, afirmou Ceferin no comunicado divulgado pela Uefa.

“O impacto da regra agora vai contra a sua proposta original já que, de fato, agora ela inibe os times da casa, especialmente no primeiro jogo, de atacarem, por medo de levar um gol que daria aos seus adversários uma vantagem crucial. Há também críticas à sua justiça, especialmente na prorrogação, ao obrigar o time da casa a marcar duas vezes quando o time visitante faz um gol”, continuou o dirigente.

“É justo dizer que a vantagem de jogar em casa hoje em dia não é mais tão significativo quando já foi. Ao levar em consideração a consistência pela Europa em termos de estilos de jogos e muitos fatores diferentes que levaram a um declínio da vantagem de jogar em casa, o Comitê Executivo da Uefa tomou a decisão correta em adotar a visão que não é mais apropriado que um gol fora de casa tenha mais peso do que um marcado em casa”, concluiu o presidente da Uefa.

O impacto da mudança

Pelo que a Uefa justifica, a mudança não deve fazer grande diferença no atual sistema da Uefa. É verdade que o fator casa tem pesado menos especialmente na Champions League, mas ainda tem um peso um pouco maior em competições como a Liga Europa e certamente terá algum peso mais relevante na Conference League. Na América do Sul, o fator casa costuma pesar muito mais. Por aqui, a Conmebol continua adotando o gol fora de casa como critério.

Em 2012, mostramos que o critério de gols fora de casa tinha diminuído a loteria da Libertadores desde que foi adotado, em 2005. Antes da implantação da regra, 32,4% dos confrontos eliminatórios eram decididos por pênaltis. Depois da adoção dos gols fora de casa, de 2006 a 2012, quando foi feita a matéria, o número caiu para 19,8%.

Joseph Blatter, então presidente da Fifa, já era contra o uso de gols fora de casa como critério de desempate em 2014. O assunto era discutido pela Uefa ainda em 2014, quando a entidade era dirigida por Michel Platini. Em 2019, Ubiratan Leal também comentou a respeito do assunto no seu canal de Youtube, sobre como os gols fora de casa tinham um papel. A ideia de acabar com esse critério, porém, já vem de alguns anos. Em 2018, noticiamos que técnicos europeus já queriam o fim da regra.

O pedido de muitos técnicos foi atendido e a regra dos gols fora de casa caiu. A consequência imediata que podemos esperar é que mais jogos devem ir para a prorrogação e também sejam decididos nos pênaltis. Na última temporada, 2020/21, apenas dois confrontos do mata-mata foram definidos pelo gol fora de casa: Juventus x Porto, decidido por um gol fora de casa dos portugueses na prorrogação; e PSG x Bayern, em que os franceses avançaram graças aos gols fora de casa marcados no jogo de ida. Em comparação, na Libertadores 2020, vencida pelo Palmeiras, só um confronto eliminatório foi decidido pelos gols fora de casa: o Santos avançou diante da LDU por esse critério. Outros três confrontos foram decididos nos pênaltis.

É de se esperar que haja algum impacto na forma como o jogo é jogado. Afinal, perder nos pênaltis é sempre menos dolorido (e menos vergonhoso, em alguns casos) do que perder no tempo normal. Sem a regra do gol fora de casa, é possível que vejamos mais times satisfeitos com o resultado e tentando administrar o jogo. Isso só o campo irá nos mostrar a partir da próxima temporada.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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