Europa

Sérvia ajudar o Kosovo, mais uma ideia sem noção de Blatter

A Fifa gosta de bradar que tem mais membros que a ONU. Isso não significa que ela seja mais poderosa que a ONU, mas alguns de seus dirigentes são acometidos desse delírio. Até (ou seria “a começar por”?) Joseph Blatter. O presidente da entidade, em um arroubo de alienação ou de megalomania, achou que pudesse fazer algo para que a Sérvia participasse dos esforços para o desenvolvimento do futebol no Kosovo. Sim, o território que foi centro de uma guerra civil no final dos anos 1990 e declarou sua independência de maneira unilateral em 2008, o que até hoje não é reconhecido pelos sérvios.

Veja só: “Vindo à Sérvia por convite do Primeiro Ministro, pedi a ele solidariedade e uma solução à situação dos vizinhos de Kosovo para deixar seus jovens praticarem  futebol. Um problema delicado como esse não pode ser resolvido em duas horas, mas passo a passo. Porém, temos a abertura para resolver isso no futuro”.

Nem demorou para ele ouvir o “não” dos sérvios. O primeiro ministro Tomislav Karadzic fechou as portas para Blatter (sério, será que o suíço esperava algo diferente?): “A decisão da Fifa é compreensível, porque todas as crianças têm o direito de jogar futebol, mas é claro que seus clubes e seleções não podem ser permitidos a jogar sem serem reconhecidos pela ONU. As soluções estão sendo buscadas sem afetar a integridade de nosso país, assim como o esporte vai de mãos dadas com a política”.

Em maio de 2012, Blatter já tinha se colocado ao lado da causa kosovar, ao permitir a realização de amistosos oficiais da seleção. Contudo, voltou atrás três dias depois, após sofrer pressão. Acabou levantando algumas condições para que os jogos fossem permitidos, incluindo a permissão da Sérvia. Já a Uefa é mais intransigente e afirma que só países filiados à ONU podem ser confederados.

Um jogo de interesses que, porventura, poderia facilitar a abertura é a chance de que os sérvios sejam aceitos pela União Europeia. Ao todo, 25 dos 27 membros da organização reconhecem a independência de Kosovo e há uma pressão para que a Sérvia tome a mesma posição. A possibilidade de diálogo existe dentro desta perspectiva, como no reconhecimento recente da identificação linguística dos kosovares, e talvez nela Blatter deva se agarrar para que suas pretensões sejam realizadas.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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