Review da temporada grega

Um abismo de cerca de dez pontos separa o “pelotão de frente” da Super League grega do bolo formado pelos seus adversários. E, também sem grandes surpresas, a tropa de elite da liga grega é formada justamente pelos três grandes times de Atenas, AEK, Olympiacos e Panathinaikos. Depois, vem o resto da turma – olhando a briga na frente de binóculos.
Assim sendo, parece claro que não será neste ano que um time do interior quebrará a série de 19 títulos consecutivos conquistados pelos clubes da região da capital grega. O último campeão do interior foi o pequeno AE Larisa, da cidade de mesmo nome, que vem da região central do país, que levou a taça na temporada 1987/8.
Mas… O que fizeram os três grandes até agora para chegarem ao patamar em que estão neste momento? Bem, não é preciso pensar muito. Os três são os mais ricos da península. Não que sejam potências econômicas continentais, mas, pelo menos, são bem superiores aos seus conterrâneos. E, mesmo rivais tradicionais, como são os de Tessalônica, não conseguem fazer frente aos grandes atenienses.
A “surpresa”
Se o campeonato não tem surpresas no tocante à diferença entre grandes e pequenos, talvez uma pequena surpresa resida no fato do atual tri-campeão Olympiacos não ter conseguido se impor perante aos seus adversários como vinha fazendo nas últimas temporadas.
Mas… É mesmo uma surpresa? Ou esta seria apenas uma análise superficial, já que os alvirrubros levaram dez dos últimos onze campeonatos para Pireu?
Está mais para o lado da análise superficial. O Olympiacos desmontou a base que conquistou o tri-campeonato, e se desfez de muitos jogadores no mercado de verão. Assim, no período inter-temporadas, jogadores como Babangida, Rivaldo e Nery Castillo deixaram Pireu.
Por outro lado, uma soma razoável de dinheiro recheou os cofres alvirrubros (advindos, principalmente, da venda do mexicano para o Shaktar Donetsk-Ucr). Isto permitiu que, no fim da mesma janela de transferências, e na que terminou nesta quinta (31), os Thrylos tivessem uma posição confortável. Sem dívidas anteriores, o time de Pireu só precisou se preocupar com as aquisições. E nomes como os dos experientes Lomana LuaLua, Raul Bravo e Darko Kovacevic (que faziam parte de ligas mais poderosas da Europa Ocidental) foram contratados para reforçar as linhas do Olympiacos.
Neste momento, os Thrylos estão com o “burro na sombra”. Nem tanto pelos resultados na Super League, que ainda não são totalmente satisfatórios. Só que esta instabilidade era esperada, já que se trata de um time ainda em formação – e que tem imensas dificuldades de furar times jogando defensivamente. E, com o passar do tempo, os alvirrubros esperam que o time ganhe conjunto, passe a jogar de forma mais consistente. O que trouxe a tranqüilidade ao clube de Pireu foi a campanha na Uefa Champions League. As vitórias fora de casa (fato inédito) e a classificação para a segunda fase (algo que não acontecia desde a temporada 1998/9) transformaram aquela que poderia ser considerada uma campanha ruim em uma temporada feliz para os seus torcedores.
Com tranqüilidade, analisaram o mercado, e reforçaram o seu elenco contratando o argentino Fernando Belluschi (ex-River Plate), o esloveno Mirnes Sisic (ex-Levadiakos) e o brasileiro Leonardo (ex-Portuguesa). Por sete milhões de Euros, o ex-meia ofensivo riverista se torna a maior contratação já feita por um clube grego – e é a aposta dos gregos para substituir Rivaldo como o meia criador de jogadas e capaz de fazer a diferença nos confrontos mais difíceis.
E, com essas aquisições – que ajudam na composição do elenco e tentam aumentar o poder de fogo do Olympiacos-, os Thrylos tentam manter a dominação interna e, quem sabem os deuses, provocar uma imensa surpresa sobrevivendo ao Chelsea na segunda fase da UCL.
Os rivais
Por outro lado, o clima não é tão tranqüilo para os seus rivais. Apesar da proximidade da liderança, tanto AEK quanto Panathinaikos vivem turbulências políticas que podem refletir dentro de campo. E, como têm acontecido nos últimos anos, transformando a missão anual de ambos –de tentar parar a máquina alvirrubra de ganhar títulos nacionais- mais parecidas com as missões de dominação do mundo de Pinky e Cérebro.
É sabido que a dominação do clube de Pireu não acontece à toa. Sokratis Kokkalis, o Presidente (e dono) do Olympiacos, tem investido muito dinheiro nos últimos anos para fazer com que os Thrylos pudessem dominar a Grécia desta forma. Por outro lado, tanto Panathinaikos quanto AEK se afundam em seus problemas e não conseguem fazer frente ao rival de Pireu.
Por exemplo, não faz nem três anos, e o AEK corria sério risco de sumir do mapa. Os Dikéfalos estavam afundados em dívidas. Uma grande geração de jogadores que haviam acabado de ser campeões da Euro 2004 teve que ser vendida para evitar que o clube quebrasse e fosse rebaixado para as divisões menores do futebol grego.
Pois bem. O craque Demis Nikolaidis resolveu trocar os campos pelo cargo de Presidente, liderando um grupo de investidores Enosis, que salvaram as finanças do clube. A intervenção deu certo, e o cenário de dificuldades ficou para trás. Os Dikéfalos sanearam o seu caixa, e, apesar de ainda não estar com o porquinho forrado – como acontece com o Olympiacos-, pelo menos voltaram a brigar pelos títulos e não precisam mais fugir dos cobradores.
Havia a expectativa de que tudo isso fosse acontecer. Mas a fanática torcida aurinegra não vê a hora de ser campeã (já que, desde 1993 não conquista a Alpha Ethniki/Super League). E esta ansiedade causa alguns problemas.
Mesmo com um time bem montado por Llorenç Sera Ferrer – o espanhol que é considerado o melhor técnico da Super League-, com bons destaques – como Rivaldo, por exemplo-, a torcida do AEK se mostra exigente, chegando a vaiar um time que -apesar de não encher os olhos- lidera o campeonato. Os investidores também estão impacientes, e cogitam a possibilidade de tirar a carta-branca dada para Nikolaidis.
Agora, o AEK tenta aplacar a impaciência da torcida fazendo uma aposta de risco. E traz Mohammed Kallon – eterna promessa de Serra Leoa, ex-Inter de Milão – por seis meses. O atacante é a aposta de Nikolaidis de achar um homem de área de peso, ponto fraco do elenco dos Enosis. Porém, a expectativa dos torcedores era ver algum reforço no setor defensivo, como um zagueiro (para substituir Dellas ou Papasthopoulos, que tem visitado o Departamento Médico com alguma freqüência nesta temporada), ou um volante do nível de Cristhian Ledesma (Olympiacos) ou Marcelo Mattos (Panathinaikos). Este reforço não veio…
No lado verde de Atenas, o problema é um pouco mais sério. Sem grandes investimentos, o único clube grego a chegar a uma final de Copa dos Campeões sofre um processo de decadência, que corrói o clube desde que Sokratis Kokkalis resolveu abrir o bolso para fazer do Olympiacos a potência que é hoje.
Há o desgaste de décadas de gestão da família Vardinoyannis, que mandam no clube desde 1979. Acostumados a não fazer grandes investimentos, se valendo da força de Paniana, o centro de desenvolvimento de craques dos Trifilis, os verdes viram seu sistema de trabalho ficar superado – tanto pelos Thrylos, como pela Lei Bosman, que permitiu um maior tráfego de jogadores pelo continente, e que deu maior liberdade para os seus jogadores.
Esta crise fica mais evidente num momento em que o clube comemora os seu centenário. E, justamente o esporte que deu origem ao clube, o futebol, que não vai bem. Num largo contraste, outras divisões do clube, como o basquete, experimentam um momento de raro sucesso.
Para tentar aplacar tal discrepância, os verdes resolveram investir. E contrataram Nikos Spiropoulos, lateral esquerdo do Panionios, pagando alto (2 mi de euros e mais metade dos lucros de uma futura negociação). Se por um lado aumenta a auto-estima dos torcedores, já que se trata de uma negociação em que o Olympiacos também estava interessado, por outro trata-se de uma aposta de risco de John Vardioyannis (o atual controlador do clube) pelo dinheiro investido.
As surpresas
Dois investidores que fizeram fortuna em Dubai resolvem comprar o pequeno time de sua cidade natal. Um time inexpressivo, duma cidade pequena, de uma região sem grande tradição no futebol nacional e que não consegue sucesso nem em campeonatos regionais.
Graças a estes investimentos, o time pequeno se desenvolve. Conquista títulos e chega à principal divisão do país conseguindo quatro acessos consecutivos. Como se não bastasse, faz um primeiro turno surpreendendo os grandes times do país. Consegue o vencer os quatro maiores times do país (além dos três citados acima, o PAOK, de Tessalônica) feito inédito para um estreante no campeonato grego, ganhando a alcunha de matador de gigantes. No fim do primeiro turno, fica com uma honrosa quarta colocação. Está é a história do Asteras Tripolis.
Tripoli, no Peloponeso (sul da Grécia), é uma cidade de 30 mil habitantes – uma das regiões mais pobres do país. Comandado desde o ano passado pelo brasileiro Paulo Campos (ex-Fluminense e Paraná), os auriazuis tem conseguido grandes resultados jogando no contra-ataque.
Resta saber se o time de Campos, que tem os argentinos Lucio Filomeno (ex-Jaguares-Mex e Nueva Chicago-Arg) e Horacio Ramon Cardozo (ex-Estudiantes LP – Arg) como seus destaques, conseguirá manter a sua grande campanha – que, neste momento, garantiria uma vaga na Copa Uefa da temporada que vem.
A outra surpresa é o Iraklis, de Tessalônica. Teria tudo para dar errado. Um clube tradicional, que escapou por muito pouco do rebaixamento, com seríssimos problemas de caixa e comprado por um cantor romântico.
Mas os Gireos (Anciões) conseguem fazer uma boa campanha no ano de seu centenário, no primeiro ano da administração de Antonis Remos. Muito em função de um acordo com o agente Manuel Ferrer, que também tem um acordo de colaboração com os rivais locais do Aris, e trouxe bons jogadores espanhóis para ambos os times.
A turma do binóculo
Mais em baixo na tabela, vemos o PAOK ressurgindo das cinzas – pelo menos das cinzas financeiras. Com Theo Zagorakis como seu Presidente, os Dikéfalos tou Vorrá vem na quinta colocação neste campeonato, uma colocação até surpreendente, pelo período de transição que o clube de Tessalônica vive.
Há a turma da Copa Uefa, que, dividiu as suas atenções entre a competição européia e a Super League, e acabou se complicando um pouco em território local. É o caso de Panionios, Aris Tessalônica e Larisa, que poderiam estar em situação melhor da que se encontram atualmente.
Panionios, de Atenas, e Aris têm um bom time e facilmente poderiam brigar por uma vaga na Copa Uefa. Já o Larisa não estaria tão próximo da zona de descenso como está neste momento do campeonato. Como todos estes clubes já acordaram do sonho europeu, é esperado que tenham uma significativa melhora na campanha local.
As grandes decepções do campeonato são os clubes de Heraklion, da Ilha de Creta. Tanto OFI quando Ergotelis estão muito mal no campeonato, e ocupam as últimas colocações da Super League. O OFI tem algum talento – o meia brasileiro Leozinho (ex-Vasco e Sport), emprestado pelo Olympiacos, e o nigeriano Joseph Nwafor, por exemplo, fazem um bom campeonato-, e pode conseguir escapar do descenso.
Veróia, Levadiakos, Apollon Kallamaris e Ergotelis são os grandes candidatos a disputar a Beta Ethiniki na próxima temporada.
Curtas
Turquia:
-O destaque da 20ª rodada fica com a vitória do Fenerbahçe sobre o Sivasspor.
– Com a goleada de 4 a 1, os Canários tiram os Bravos da liderança. E também ultrapassam o time do centro da Turquia, assumindo a vice-liderança do torneio.
– O líder? Galatasaray, que goleou o Ankaraspor por 4 a 0.
– Apesar da janela de mercado não ter fechado na Turquia –as negociações são permitidas até o dia 8-, parecem definidas as principais negociações do mercado.
– O Fener realmente trouxe o chileno Maldonado para substituir o lesionado Stepphen Appiah. O contrato é de um ano e meio, o que pode indicar que o ganês, que não é de hoje que anda insatisfeito, pode realmente estar deixando Kadikoy.
– Ou não, já que as regras foram mudadas novamente, e agora são permitidos oito estrangeiros por time –sendo que seis deles em campo. Antes, eram permitidos os mesmos seis em campo, porém, apenas sete poderiam ser inscritos por jogo.
– Obviamente, o grande beneficiado por esta mudança é o Fener, que tem dinheiro em caixa, e pode fazer alguma outra contratação no exterior.
– Entre os rivais, a novidade é do Besiktas, que trouxe o defensor croata Dino Drpic no último dia de mercado internacional.
– O Galatasaray sonhava com o goleiro Andreas Isaksson. Mas o sueco, que disputou a Copa, não chegou a um acordo com os Leões.



