Futebol europeu

Raphinha e mais: Os esnobados da lista de concorrentes à Bola de Ouro

Apesar de temporadas com números, títulos e protagonismo suficientes para questionar a seleção, há quem tenha ficado de fora da disputa

A lista dos 30 concorrentes à Bola de Ouro costuma provocar duas discussões diferentes. A primeira é sobre quem merece ganhar; a segunda, muitas vezes mais calorosa, é sobre quem sequer deveria ter ficado de fora. Com nomes como Raphinha e Pedri “esnobados”, a edição de 2026 não seria diferente.

A France Football anunciou nesta terça-feira (8) os candidatos ao principal prêmio individual do futebol mundial, em uma lista que reúne estrelas como Lamine Yamal, Ousmane Dembélé, Kylian Mbappé, Vinícius Júnior e Lionel Messi. O PSG, bicampeão europeu, aparece com uma quantidade recorde de representantes, enquanto a Espanha campeã do mundo também domina a relação.

A cerimônia acontecerá em Londres, no dia 26 de outubro — mudando-se de Paris pela primeira vez como homenagem ao primeiro vencedor da história, o inglês Stanley Matthews. Por outro lado, a premiação terá ausências que chamam a atenção desde já.

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Raphinha já conhece as ‘injustiças’ da Bola de Ouro

Poucas ausências são tão difíceis de explicar quanto a de Raphinha. O brasileiro terminou a temporada 2025/26 com 19 gols e sete assistências em 32 partidas pelo Barcelona, somando todas as competições. Na Champions League, marcou três gols e deu duas assistências em sete jogos; em LaLiga, foram 13 gols e três assistências.

Mais importante do que a estatística bruta é o contexto. Raphinha não era apenas mais um atacante em um elenco recheado de talentos. Foi uma das principais referências ofensivas de Hansi Flick e um jogador que assumiu responsabilidades maiores dentro de uma equipe que voltou a disputar os principais títulos da Europa.

Ele também precisou dividir protagonismo com Lamine Yamal, que aparece na lista e é, naturalmente, um dos favoritos ao prêmio. Mas a existência de um candidato ainda mais forte no próprio Barcelona não deveria eliminar automaticamente o brasileiro da relação.

Raphinha em jogo do Barcelona
Raphinha em jogo do Barcelona (Foto: IMAGO / Pressinphoto)

O caso fica ainda mais curioso quando se olha para o começo da temporada 2026/27. Raphinha começou o novo campeonato como centroavante e marcou seis gols nas quatro primeiras rodadas de LaLiga, tornando-se o artilheiro da competição.

É verdade que a Copa do Mundo pesou contra ele. O brasileiro sofreu uma lesão durante o torneio e não participou das fases finais, enquanto outros candidatos ganharam protagonismo justamente na competição mais importante do ciclo. Mas a Bola de Ouro deveria avaliar a temporada inteira, e não apenas o mês de julho.

Mesmo com lesões ao longo da campanha, Raphinha entregou produção ofensiva, protagonismo em um dos maiores clubes do mundo e capacidade de adaptação tática. Começou como ponta, atuou por dentro e terminou sendo utilizado como centroavante.

Mesmo que não tenha repetido o nível do ano passado, quando era claro favorito ao prêmio, se há um brasileiro que poderia legitimamente estar entre os 30, é ele. E o fato de apenas Vinícius Júnior, Gabriel Magalhães e Marquinhos representarem o Brasil na lista torna a ausência ainda mais curiosa.

Désiré Doué: bicampeão europeu e decisivo na Champions League

Se a lista leva em consideração o desempenho na principal competição de clubes do mundo, a ausência de Désiré Doué é talvez a mais difícil de compreender. O francês foi campeão da Champions League pelo segundo ano consecutivo com o PSG. E não somente um jogador que apenas fez parte do elenco.

Em 2025, Doué marcou dois gols e deu uma assistência na final contra a Inter de Milão, sendo eleito o melhor jogador daquela decisão e o melhor jovem da competição pela Uefa. Em 2026, voltou a ser titular na final, disputada contra o Arsenal, e conquistou novamente o título. Também foi eleito pelo segundo ano consecutivo o melhor jovem da Ligue 1 pelos próprios jogadores do campeonato.

Désiré Doué celebra gol marcado pela seleção francesa contra a Colômbia
Désiré Doué celebra gol marcado pela seleção francesa contra a Colômbia (Foto: Daniel Derajinski/Icon Sport)

Na Champions 2025/26, seus números foram cinco gols e quatro assistências em 13 partidas. Foram 869 minutos em campo e participação direta em nove gols.

Isso relevante porque o PSG tem nove jogadores na lista de indicados. O clube que conquistou novamente a Champions está amplamente representado por Dembélé, Hakimi, Marquinhos, Kvaratskhelia, Nuno Mendes, João Neves, Vitinha, Pacho e Fabián Ruiz. A justificativa mais fácil seria dizer que ele ainda é jovem e que outros jogadores tiveram temporadas estatisticamente superiores.

Só que isso não explica tudo, e Doué já deixou de ser uma promessa. Aos 21 anos, é bicampeão europeu, titular de uma das melhores equipes do mundo, titular na Copa do Mundo com a França e dono de um histórico recente de decisões grandes.

Na Supercopa da Uefa de agosto, inclusive, voltou a ser decisivo: marcou o gol da vitória do PSG por 2 a 1 sobre o Aston Villa. Talvez seja cedo para colocá-lo entre os favoritos ao prêmio. Mas ficar fora dos 30? É uma discussão bastante mais difícil.

Pedri: o jogador que não aparece nas estatísticas, mas em todo o Barcelona

Pedri talvez seja o caso mais difícil de defender apenas olhando para gols e assistências. E justamente por isso sua ausência chama atenção. O meio-campista espanhol terminou a temporada 2025/26 com dois gols e 11 assistências em todas as competições. Foram 32 partidas, 2.805 minutos e participação direta em 13 gols.

Na Champions League, foram nove partidas como titular, 691 minutos e duas assistências. Segundo dados da “Opta”, quando esteve em campo, o Barcelona teve um saldo de +12 gols, equivalente a +1,56 gol por 90 minutos no recorte da competição.

Pedri em jogo do Barcelona
Pedri em jogo do Barcelona (Foto: IMAGO / Pressinphoto)

Os números, nesse caso, não contam tudo. Pedri é o jogador que dá sentido à circulação do Barcelona. É quem recebe sob pressão, encontra o terceiro homem, acelera quando aparece espaço e desacelera quando a equipe precisa reorganizar. Sua importância não é apenas produzir a última ação; é permitir que as ações anteriores aconteçam. E há um problema ainda maior para a justificativa de sua ausência: ele fez isso em uma equipe que terminou a temporada com quatro jogadores indicados à Bola de Ouro, mas sem ele.

Lamine Yamal está na lista. Pau Cubarsí, zagueiro, também. Ferran Torres, também pelo gol na final da Copa, é outro. Pedri, não – mesmo o meio-campista sendo campeão mundial com a Espanha. E embora não tenha sido um dos maiores protagonistas estatísticos da campanha, fez parte de uma seleção que conquistou a Copa do Mundo.

É possível argumentar que Pedri não teve uma temporada tão espetacular individualmente quanto em alguns anos anteriores. É possível dizer que seu protagonismo foi mais estrutural do que decisivo. Mas a Bola de Ouro não deveria ser exclusivamente uma premiação de gols e assistências.

Se a lista reconhece o impacto coletivo de Cubarsí e o talento de Yamal, é difícil explicar por que o cérebro do meio-campo do Barcelona não mereceu sequer uma vaga entre os 30.

David Raya: o goleiro de um Arsenal histórico e campeão 

A posição de goleiro sempre sofre na Bola de Ouro. O próprio histórico do prêmio mostra como é difícil para um arqueiro entrar na lista principal. Mas David Raya tem um argumento forte. O espanhol foi titular em 51 partidas pelo Arsenal em todas as competições na temporada 2025/26, acumulando 4.620 minutos. Sofreu 31 gols e terminou com 28 jogos sem sofrer gols, além de uma impressionante taxa de 75,6% de defesas no recorte geral.

Na Premier League, foram 37 partidas, 19 clean sheets e 69,8% de defesas. E há o contexto que torna os números ainda mais relevantes: Raya foi o goleiro titular de um Arsenal campeão inglês depois de 22 anos. A equipe de Mikel Arteta construiu seu título a partir de uma das melhores estruturas defensivas do futebol europeu, e Raya não era simplesmente um espectador atrás de William Saliba, Gabriel Magalhães e companhia.

David Raya, goleiro do Arsenal (Foto: IMAGO / Craig Mercer)
David Raya, goleiro do Arsenal (Foto: IMAGO / Craig Mercer)

Seu papel com a bola também é fundamental para a maneira como o Arsenal joga. Raya participa da construção desde trás, oferece uma linha de passe adicional contra a pressão, atrai adversários e encontra os zagueiros ou os laterais para iniciar ataques. Sem a bola, precisa atuar atrás de uma linha defensiva alta, o que aumenta a importância de sua leitura de profundidade.

Ainda assim, há uma objeção legítima: outros goleiros tiveram campanhas internacionais mais marcantes — Raya, inclusive, foi reserva de Unai Simón no título da Copa do Mundo pela Espanha. Mas é justamente por isso que a própria France Football abriu uma categoria específica para o prêmio Yashin. A existência de uma premiação para goleiros, porém, não deveria significar que o melhor arqueiro de um campeão nacional seja automaticamente excluído da discussão principal.

O caso de Raya é menos sobre dizer que ele deveria ganhar a Bola de Ouro e mais sobre questionar por que um jogador tão importante para o campeão inglês não está nem entre os 30 melhores da temporada.

Oyarzabal: campeão mundial e artilheiro da Espanha

Na Real Sociedad, Mikel Oyarzabal marcou 15 gols e deu quatro assistências em La Liga, além de terminar a temporada com 19 participações diretas em gols no campeonato.

Mas o principal argumento veio depois: Oyarzabal foi titular nos oito jogos da Espanha na Copa do Mundo de 2026, marcou cinco gols e deu uma assistência. Foi, portanto, o artilheiro da seleção campeã mundial no torneio. A Espanha venceu a Argentina por 1 a 0 na final, com gol de Ferran Torres na prorrogação. Oyarzabal não marcou na decisão, mas participou de toda a campanha como titular.

O detalhe é ainda mais estranho quando se olha para os espanhóis selecionados. Rodri está na lista por ter sido o melhor jogador da Copa. Lamine Yamal está, de forma justa. Também há Fabián Ruiz, Pau Cubarsí, Marc Cucurella e Ferran Torres. Oyarzabal, que marcou cinco vezes na campanha do título mundial, ficou fora.

Isso não significa que ele tenha sido o melhor jogador da Espanha. Rodri, Yamal e Ruiz têm argumentos muito fortes. Mas a diferença entre estar entre os 30 melhores e ser favorito ao prêmio é enorme. Oyarzabal parece ter argumentos suficientes para superar essa primeira barreira.

Foi campeão do mundo, foi artilheiro de sua seleção no torneio e teve uma boa temporada pelo clube. É difícil imaginar um currículo mais convincente para justificar ao menos uma indicação.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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