Eliminatórias da CopaEuropa

Quero ver na Copa

“Tu vens, tu vens… eu já escuto os teus sinais”. No caso da Copa do Mundo de 2014, os sinais, apesar de barulhentos (tem até grito de greve nos canteiros de obras), não são dos mais positivos. Mas ela já está a caminho. Recomenda-se até que diminua o passo, sob o risco de chegar aqui antes de ter estádios onde se instalar.

Um ufanista negaria até a morte, mas é uma Copa com gosto estranho. Ganhamos a sede de lambuja, para começar. Um presente dado pelo rodízio de continentes da Fifa, que deixou de existir, assim que acabaram os interesses que o fizeram surgir. Veio também com cartãozinho assinado pelos demais filiados à Conmebol, que preferiram não contrariar o primo rico da América do Sul. Aos olhos do mundo, somos o Brandão Filho. Aos dos vizinhos, o Paulo Gracindo (se você for jovem, pergunte sobre a referência ao Tio Google).

E, desde então, tivemos lá os nossos desgostos. Escolha das sub-sedes movida por política e não pelos méritos dos projetos apresentados, arenas enormes brotando em desertos futebolísticos, reformas intermináveis nos poucos estádios já existentes e isenção fiscal para a construção de um particular, em uma cidade onde ele não seria necessário (embora o clube beneficiado merecesse ter um, há tempos). O logo da Copa também desagradou à maioria, porque parece ter sido feita por uma criança de quatro anos de idade. Uma criança de quatro anos de idade fazendo algo bem feio, só de sacanagem para irritar a professora. Nem o nome da bola fez sucesso. O que dizer da organização de uma competição que não acerta nem na escolha do nome de uma simples bola? É capaz até de fazerem ela quadrada.

O grande legado (palavra da moda) da Copa até agora é a expressão jocosa que serve de título a este post (aqui empregada sem jocosidade, por mais jocoso que pareça). Ou seria, caso não fosse utilizada de forma equivocada por brasileiros que, enquanto enfrentam situações caóticas em um aeroporto ou no trânsito, reclamam da vergonha que o país fará diante dos visitantes estrangeiros, quando deveriam era zelar pela melhor qualidade dos serviços que eles próprios utilizam no cotidiano. Mas isso é assunto para outra teleaula.

À espera da cavalaria

A salvação da lavoura reside na razão de ser de uma Copa do Mundo: o futebol. Ele, felizmente, não será providenciado pela organização, mas sim pelos astros do espetáculo. Por isso, lanço um apelo: que os jogadores que vierem para cá em 2014 tratem a tal da Brazuca com respeito e carinho, até por ela não ter culpa do nome babaca que recebeu. Que o tratamento a ela destinado seja, portanto, bem diferente daquele que a organização do torneio vem dedicando ao brasileiro, a quem só sobram dívidas e vergonha alheia. A briga pelas vagas já está rolando em praticamente todos os continentes. Faltavam começar as prévias europeias, que iniciam os trabalhos nesta sexta-feira. Curiosamente, um sete de setembro.

Se nos outros continentes a disputa começa do zero, as seleções do velho continente têm de lidar com os reflexos da Euro, cujo peso para elas já é quase o mesmo de uma Copa do Mundo. Está dada a largada para uma nova “era dos descobrimentos”. Mas antes de embarcar nas caravelas (onde viajarão de classe executiva, é claro), essa turma ainda tem de remar muito pelos seus rios e mares. Feita a longa introdução (o post não era sobre a organização da Copa… não a princípio), vamos aos pitacos:

Grupo A
Hazard é o camisa 10 da Bélgica

Você já deve ter lido e ouvido bastante sobre a invasão belga na Premier League. De fato, os jogadores nascidos em Bruxelas e adjacências têm sido muito badalados, e com razão. Capitaneados por Hazard, de impacto imediato no Chelsea, os diabos vermelhos têm a “obrigação” de usar a sua qualidade para levar o país de volta a uma Copa, onde não aparecem desde 2002. A tarefa não será fácil, pois no mesmo grupo estão as sempre perigosas Croácia e Sérvia. A primeira fez uma Euro interessante. Por detalhes não foi às quartas, mesmo enfrentando Espanha e Itália.

Croatas e belgas largam com favoritismo às duas vagas (o primeiro de cada grupo se classifica direto, os oito melhores segundos colocados jogam uma repescagem). País de Gales, Escócia e Macedônia completam a chave. Desses, só a turma de Gareth Bale parece ter chance de “fazer lá uma graça” (BUENO, Galvão).

Grupo B
Balotelli, estrela da Itália

Se alguma seleção saiu de ânimo renovado da Euro 2012, essa é a Squadra Azzurra. Os comandados de Prandelli fizeram excelente participação, descontado o baile sofrido na final. De quebra, Prandelli ainda deu uma nova cara à seleção italiana, finalmente mais preocupada em ter a bola do que impedir que os adversários tirem algum proveito dela.

A segunda vaga deve ficar entre a sólida, mas limitada, Dinamarca e uma envelhecida República Tcheca, que só foi às quartas da Euro porque seus adversários ajudaram. Boto mais fé nos escandinavos (e torço pela presença das dinamarquesas em nossas arquibancadas, embora as tchecas também mandem muito bem). Bulgária, Armênia e Malta são figurantes. Volta, Stoichkov!

Grupo C
Alemanha é favorita novamente

Quem voltou da Polônia e da Ucrânia com uma pulga atrás da orelha foi a Alemanha. A seleção tedesca continua sendo uma das mais fortes do mundo, mas segue batendo na trave nas grandes competições. A geração de ouro pode virar a geração do quase. Mesmo que Löw insista em não dar o devido espaço aos prodígios Götze e Reus, a Mannschaft não deve ter problemas para se classificar em primeiro da chave, como tem acontecido normalmente.

A briga pela segunda vaga denuncia a primeira grande perda da Copa de 2014: ou a torcida mais legal do mundo não pisará aqui, ou as suecas não darão as lindas caras nos estádios brasileiro. O duelo será entre o ferrolho irlandês e uma Suécia mais ofensiva (e, por consequência, mais exposta) liderada por Ibrahimovic. Façam as suas apostas. Mas não me percam dinheiro com Áustria, Cazaquistão e Ilhas Faroe, por favor.

Grupo D
Sneijder segue sendo o melhor nome da Holanda

Louis Van Gaal carrega no currículo a mancha de não ter levado a Holanda à Copa de 2002. Voltou ao cargo de treinador da Oranje para corrigir isso, mas encontrou uma seleção duramente devastada pelo grupo da morte da Euro 2012, mas principalmente pelo péssimo ambiente entre os jogadores. A boa notícia é que a maior parte da geração que levou o país ao vice da Copa passada continua firme e forte. A má notícia é que eles ja não parecem mais tão firmes e têm se mostrado bem menos fortes. O que pode revitalizar a equipe é a aposentadoria de alguns jogadores do setor defensivo, mas as peças de reposição não são muitas.

A sorte é que a única ameaça é a sempre aguerrida seleção turca, que deverá ficar com a outra vaga. Romênia e Hungria, vivendo do passado, ainda correm o risco de ficar atrás da Estônia, enquanto Andorra somará mais brancas nuvens ao seu retrospecto.

Grupo E
Shaqiri é uma das promessas da nova geração suíça

Teoricamente, a favorita aqui é a Suíça, que faz um trabalho bem sucedido nas categorias de base, tem um esquema de jogo que irrita os adversários, e marcou presença nas duas últimas Copas. Ainda assim, o país mais neutro do mundo não tem lá um time que possa dar a batalha por vencida, mesmo que seus rivais mais próximos, Noruega e Eslovênia, também não assustem ninguém.

Islândia, Chipre e Albânia são as outras opções. Só nos resta torcer para que o segundo colocado do grupo não passe pela repescagem. A não ser que ele seja a Islândia, que é um país legal. Apesar da Björk. Ou justamente por causa dela, sei lá, escolha aí a sua corrente. Dos gêiseres, todo mundo gosta, né?

Grupo F
Cristiano Ronaldo fez ótima Eurocopa

As duas seleções mais fortes desta chave vivem momentos bem distintos. Portugal saiu fortalecido da Euro, onde apresentou um time bem montado por Paulo Bento e um Cristiano Ronaldo decisivo como poucas vezes havia sido com a camisa da equipa das quinas. Resta saber se os lusitanos não vão se enrolar nas eliminatórias, como tem ocorrido com alguma frequência.

Aos russos, não falta qualidade, mas sobra apatia. Com a Copa de 2018 se aproximando, a esperança é que o trabalho do consagrado Fabio Capello recoloque a equipe nos trilhos. A julgar pela insossa passagem do italiano pelo English Team, a escolha não me parece muito animadora. Numa dessas, Israel, que vem melhorando, pode beliscar um lugar na repescagem, mas é difícil. Irlanda do Norte, Azerbaijão e Luxemburgo talvez nem saiam na foto da confraternização.

Grupo G
O eterno Karagounis vai para a sua segunda Copa?

Grécia, Eslováquia, Bósnia, Lituânia, Letônia e Liechtenstein. É tanta falta de carisma, que eu vou aproveitar para abreviar um pouco este post, que já está muito longo. Pela garra e pelo pragmatismo, favoritismo grego. Os bósnios têm mais talento, mas decepcionam tanto na hora de decidir, que devem perder o segundo posto para os eslovacos.

Grupo H
Apesar da idade, Gerrard continua com chances na Inglaterra

Poloneses e ucranianos dividiram a organização da última Euro e voltam a se encontrar, agora sorteados para a mesma chave das eliminatórias. São duas equipes apenas esforçadas, que normalmente não teriam a chance de ganhar a vaga direta, não fosse o cabeça-de-chave tão afeito a encrencas internas. Da mesma forma que Di Matteo não vai poder se contentar com um Chelsea jogando no erro do adversário para manter o prestígio adquirido com a conquista da Champions League, Roy Hodgson não vai poder seguir fazendo uso da mesma estratégia da digna campanha na Euro se quiser ter vida longa no selecionado nacional.

A boa surpresa pode vir de Montenegro. Se Jovetic estiver inspirado e seus coadjuvantes ajudarem, o jovem país pode se credenciar ao posto de novidade europeia na Copa de 2014. Ah, esse grupo tem também as invisíveis seleções de Moldávia e San Marino.

Grupo I
Iniesta, o melhor da Euro 2012

Poucos apostariam que a atual bicampeã europeia não esteja presente no Brasil para defender a mais valiosa de suas coroas. E não, não me refiro à que repousa sobre o rei Juan Carlos. Tampouco à própria rainha Sofia. Entre um amistoso caça-níqueis e outro, a melhor geração do futebol espanhol só precisa tratar a França com o devido respeito para manter seus excelentes números nas eliminatórias recentes.

Les Bleus trocaram Blanc por Deschamps, mas devem continuar convivendo com os mesmos problemas internos, provocados por jogadores que até têm um bom nível, mas não assimilam o redimensionamento natural pelo qual a sua seleção passou depois da aposentadoria de Zidane. Se tudo correr bem e não vierem tropeços contra Belarus, Finlândia e Geórgia, o que importa aos franceses é saber quem a repescagem colocará em seu caminho. Ou quando a Super Nanny vai aparecer para dar um jeito nesses moleques.

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Ricardo Henriques

Jornalista agnóstico formado pela Universidade Católica de Pernambuco, Ricardo Henriques nasceu, foi criado e se deteriorou no Recife, cidade com a qual vive uma relação de amor (mentira) e ódio. Não seguiu adiante com seus sonhos de ser repórter esportivo, nem deu continuidade à carreira como centroavante trombador e oportunista nas areias de Boa Viagem, mas encontrou no Twitter a plataforma ideal para palpitar sobre todos os assuntos onde não foi chamado. Viciado em esportes, cinema, seriados de TV e escolas de samba, tem mania de fazer listas que só interessam a si próprio, chegando ao ponto de eleger suas musas como se selecionasse o onze inicial de um time de futebol. Esse blog não trará informações quentes de bastidores, análises táticas abalizadas ou reflexões ponderadas. O que talvez, por consequência, não traga leitores. No cardápio: ranzinzices bem humoradas, cornetadas debochadas e fartas doses de cretinice e cultura pop, temperando o que há de mais ridículo e pernóstico no mundo do futebol. PS: ele tirará uma onda com o seu time ou os seus ídolos, mais cedo ou mais tarde. Não vai adiantar você fazer careta e espernear que nem o Mourinho faz quando é contrariado. Contato: [email protected]

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