Quando ser campeão não basta

Com grande poder, vem grande responsabilidade. A frase é típica dos enlatados filmes estadunidenses, mas serve para explicar o pensamento da diretoria do não menos globalizado Red Bull Salzburg: muito perto de conquistar o segundo título em três anos, o clube da terra de Mozart não ficou satisfeito com o desempenho do time sob o comando do holandês Co Adriaanse e já anunciou que, para a próxima temporada, quem sentará no banco é o compatriota Huub Stevens.
Mas como explicar que um time que está a dez pontos do segundo colocado a seis rodadas do fim do campeonato, e que conta com o maior artilheiro de uma só edição nos últimos vinte anos, pode estar em crise? Simples: a solução que Adriaanse representava no ano passado, quando a equipe havia ido muito mal na liga devido à mentalidade defensiva de Giovanni Trappatoni, transformou-se em problema.
O futebol ofensivo e vistoso prometido pelo ex-técnico de Ajax e Porto serviu para ganhar o campeonato, mas não o suficiente para encantar como o prometido. Pior – foi apontado como o responsável pela eliminação precoce na Copa da Uefa (ainda que tenha caído logo de cara contra o Sevilla, muitos consideram que era preciso mais cautela e que o time se lançou muito ao ataque). Some-se a isso uma vexatória eliminação nas quartas-de-final da Copa da Áustria para o do Austria Viena B, que disputa a segunda divisão nacional, e você terá uma panela de pressão pronta para explodir.
É claro que não foram somente os resultados que pesaram na decisão de não renovar o contrato de um ano – contrato este que, quando assinado, foi oferecido a Adriaanse por um tempo maior, mas recusado pelo holandês. Os problemas que começaram com as desclassificações precoces se agravaram com o relacionamento nada amistoso com seus comandados. Não raro, o treinador minimizava as qualidades do time (após a eliminação na Copa da Áustria, disse que o time era “superestimado”) e de seus jogadores (“Janko é bom o bastante para jogar apenas na liga húngara”, menosprezou).
Tudo isso fez com que o diretor esportivo do clube, Heinz Hochhauser, abrisse um verdadeiro fogo cruzado contra o treinador. Nos últimos meses, quando o nome de Adriaanse começou a ser cogitado para assumir o PSV (que havia demitido Huub Stevens), o técnico passou a dar declarações que gostaria de ficar em Salzburg, mas que achava estranho não ter sido procurado para renovar o contrato – já que, segundo ele, o planejamento para a próxima temporada já devia ter começado. Hochhauser deu de ombros e respondeu com ações: anunciou a contratação exatamente de Stevens como se fosse um procedimento normal de final de temporada de um clube sem técnico, coisa que o Red Bull claramente não é. Fato é que a fogueira de vaidades foi tão intensa que até o diretor saiu chamuscado, tendo sido questionado por seus métodos e escolhas, já que nenhum técnico durou mais que uma temporada sob seu comando.
O anúncio da mudança vem exatamente quando o time abre uma vantagem confortável na tabela, o que garante que o clima péssimo não deverá interferir no restante da temporada. Jogadores como Kovac e Vonlanthen já até declararam publicamente que ficaram felizes com a troca, pois pouco tiveram chances com o holandês. Com Stevens, a expectativa é de uma sinergia maior entre o grupo, característica muito elogiada por Hochhauser ao citar o Rapid campeão do ano passado. Além disso, existe a promessa da contratação de um nome de ponta: Zé Roberto, Nedved e Figo são os preferidos.
Considerando o desejo antigo do clube de aparecer mais internacionalmente, as experiências recentes do novo técnico podem ser fundamentais para que os touros voem mais alto e mais longe em 2009/10, tentando acabar com a sequencia de quatro anos sem clubes austríacos na fase de grupos da Uefa Champions League.
Decisão no Photo-Finish
Já do outro lado da fronteira, a briga pelo título está completamente aberta e a emoção se concentra mais dentro do que fora de campo. Com os resultados do final de semana, o Basel reassumiu a liderança após duas rodadas e ficou um ponto à frente do Zürich, que apenas empatou em casa com o irregular Sion, tema da nossa coluna passada. Quem também aproveitou o tropeço foi o Young Boys, que venceu o Grasshoppers por 3 a 1 e se aproximou da dupla.
O grande responsável pela ascensão dos aurinegros é Seydou Doumbia, atacante marfinense de 21 anos que marcou nove gols nas últimas nove rodadas, levando o YB a sete vitórias no período e encostando na artilharia – com 14, tem três a menos que Almen Abdi, do Zürich e já é quase dado como certo no futebol francês a partir de agosto.
Mas a alegria durou pouco para o Basel, que novamente empatou com o Bellinzona nesta quarta e já foi ultrapassado de novo, já que o Zürich venceu o Aarau por 3 a 0. Se o YB confirmar o favoritismo e vencer o Xamax em casa nesta quinta, poderá ficar a apenas três pontos do líder e entrar de vez na briga.
As duas equipes, aliás, se enfrentam no final de semana, e uma vitória pode levar os atuais vice-campeões à liderança. Vale lembrar que Zürich e Basel ainda se enfrentam, na antepenúltima rodada, e o YB vai até a Basiléia na última. Com três confrontos diretos por acontecer, o páreo está totalmente aberto e meio pescoço já pode ser considerado como vantagem. A decisão deve ficar mesmo na fotografia.



