Futebol europeu

Trivela Explica: Mesmo com PSG, Ligue 1 vê vaga na Champions League em risco

Portugueses encurtam a distância no coeficiente da Uefa, enquanto disputa revela os limites financeiros e esportivos da Ligue 1

O bicampeonato da Champions League do Paris Saint-Germain deveria ser a melhor propaganda possível do futebol francês. Na disputa entre as ligas nacionais, porém, o sucesso do PSG não foi suficiente para afastar uma ameaça cada vez mais concreta: Portugal está se aproximando do quinto lugar do ranking de coeficientes da Uefa, posição ocupada pela França há anos.

A vitória do Sporting por 2 a 0 sobre o Lens, fora de casa, na terça-feira (13), reforçou essa tendência. Na atualização do ranking após a partida, Portugal chegou a 66,150 pontos, contra 69,153 da França. A diferença caiu para apenas 3,003 pontos, uma distância que pode ser superada até o encerramento da temporada 2026/27. O quinto lugar garante quatro vagas na Champions League, uma a mais que o sexto.

A França vem de um período de enorme visibilidade internacional. Além dos títulos do PSG, a Ligue 1 continua sendo uma das principais formadoras de talentos do futebol europeu. O curioso é que Portugal, por outro lado, não tem um clube com o mesmo poder econômico dos parisienses, mas vem acumulando resultados expressivos com um conjunto de equipes que se tornou mais competitivo nas competições continentais.

Por que o PSG pode ter uma temporada mais difícil na França do que os últimos anos indicam

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O que o coeficiente da Uefa mede e por que o quinto lugar importa tanto

O ranking da Uefa considera os resultados dos clubes nas competições europeias ao longo de cinco temporadas. As federações acumulam pontos por vitórias, empates e avanços nas competições, além de bonificações relacionadas às campanhas. O total é dividido pelo número de clubes que representam cada país nas provas continentais.

A classificação determina a distribuição de vagas para as temporadas seguintes, o que transforma cada resultado europeu em algo que vai além do prestígio de uma partida. Então não basta somar vitórias — a quantidade de representantes também influencia o cálculo.

Na temporada 2026/27, Portugal tem cinco clubes nas competições europeias, enquanto a França conta com sete. Isso significa que os portugueses precisam dividir os pontos obtidos por um número menor de participantes, o que pode favorecer sua média quando os principais representantes fazem campanhas longas.

Ferran Torres cumprimenta Dembélé durante jogo do PSG
Ferran Torres cumprimenta Dembélé durante jogo do PSG (Foto: Baptiste Fernandez/Icon Sport)

Portugal não precisa somar mais pontos absolutos do que a França para ultrapassá-la no coeficiente, precisa obter uma média superior ao longo do período considerado. Em contrapartida, ter menos representantes também significa contar com uma base menor de clubes capazes de compensar eventuais eliminações precoces dos principais candidatos.

O momento atual é favorável aos portugueses. Na temporada 2025/26, Portugal terminou com coeficiente de 20,500, o quarto melhor desempenho anual. Foi uma evolução considerável em relação aos 16,250 pontos de 2024/25. A França, por sua vez, registrou 18,321 na última temporada, mesmo com o título europeu do PSG.

A diferença de desempenho em uma temporada não garante uma mudança de posição no ranking de cinco anos, que é mais lento por natureza, mas mostra que Portugal não depende de uma única campanha excepcional. O país vem acumulando resultados fortes em temporadas consecutivas, enquanto a França precisa defender a vantagem construída nos anos anteriores.

Para campeonatos que não possuem o poder financeiro da Premier League ou a força comercial dos principais clubes espanhóis, disputar mais vagas na competição mais importante do continente pode ajudar a criar um ciclo virtuoso: mais participantes, mais receitas, maior capacidade de investimento e melhores condições para competir novamente.

Portugal cresce com um grupo competitivo, mas França tem mais do que o PSG

O resultado do Sporting em Lens é um símbolo da disputa porque se encaixa em uma sequência favorável aos portugueses nos confrontos diretos. Desde a introdução da fase de liga da Champions, em 2024/25, clubes dos dois países se enfrentaram sete vezes na competição, excluídas as fases preliminares. Foram seis vitórias portuguesas e um empate.

O crescimento português, entretanto, não se resume ao Sporting e ao Benfica. O Porto continua sendo um participante frequente nas fases decisivas das competições europeias, enquanto o Braga se tornou uma presença recorrente em campanhas relevantes fora da Champions League. Na temporada 2025/26, o Braga foi o maior contribuinte para o coeficiente português, com 32,250 pontos.

Geny Catamo, Sporting
Geny Catamo, atacante do Sporting. Foto: Imago / Sandro Alemao / PRESSINPHOTO

A França também não pode ser reduzida ao PSG. Na temporada 2025/26, o clube parisiense contribuiu com 40,500 pontos, equivalentes a 31,5% do total francês. Foi a maior contribuição individual, mas não representou a maioria da pontuação. Strasbourg e Lyon somaram 23 e 22 pontos, respectivamente; Monaco fez 16; Lille, 12,750; e Marseille, 12.

Os números enfraquecem a tese de que a França só se mantém entre as cinco melhores federações porque o PSG carrega todo o país. A campanha parisiense foi decisiva, mas os outros clubes responderam, juntos, por mais de dois terços da pontuação francesa na temporada. O Strasbourg chegou à semifinal da Conference League, enquanto o Lyon terminou na primeira posição da fase de liga da Europa League.

Existe, portanto, uma base competitiva francesa. O problema é que ela nem sempre produz resultados consistentes o suficiente para ampliar a distância em relação aos perseguidores. A França tem clubes capazes de avançar nas competições europeias, mas suas campanhas variam, e a diferença de recursos entre o PSG e boa parte dos concorrentes domésticos torna mais difícil construir uma sequência de resultados que afaste Portugal.

O limite francês e a oportunidade portuguesa

A aproximação entre os dois países também precisa ser observada em um contexto econômico diferente. O futebol francês atravessa uma crise relevante em torno dos direitos de transmissão. Em 2025, a disputa entre a liga e a DAZN sobre o contrato de TV expôs a dificuldade de garantir receitas estáveis para os clubes.

A criação da plataforma Ligue 1+ para 2025/26 foi uma tentativa de reorganizar esse cenário, mas a instabilidade dos direitos já havia levado diversas equipes a rever seus orçamentos.

A situação ajuda a explicar por que a França, apesar de sua capacidade de formar talentos e exportar jogadores para as principais ligas, não converte automaticamente essa vantagem em resultados europeus. A Ligue 1 tem tradição de desenvolver atletas de alto nível, mas muitos deles deixam o país cedo, e os clubes que não contam com proprietários de grande poder financeiro.

William Gomes pelo Porto
William Gomes pelo Porto (Foto: IMAGO / Action Plus)

O PSG é uma exceção nesse cenário. Seu investimento, e capacidade de manter a continuidade do projeto esportivo deram ao clube condições de conquistar a Champions League em temporadas consecutivas. Mas o sucesso parisiense não resolve os problemas estruturais dos concorrentes. Um campeão europeu eleva o prestígio da liga, mas não garante que os outros representantes avancem com regularidade nas competições continentais.

Portugal também tem limitações econômicas importantes, mas construiu um modelo de inserção internacional que favorece seus principais clubes. Sporting, Benfica e Porto combinam presença frequente na Europa com experiência em negociações internacionais, capacidade de identificar jogadores e uma estrutura competitiva que lhes permite disputar fases decisivas.

Esse modelo não elimina a distância financeira entre os países. A Ligue 1 continua tendo uma base maior de clubes e um mercado de formação de jogadores de enorme relevância. O campeonato francês também possui equipes com capacidade de investimento e de atração de talentos que muitos clubes portugueses não conseguem.

A disputa pelo coeficiente, portanto, não significa que Portugal esteja prestes a superar a França em todos os aspectos do futebol. O que ela revela é que o tamanho de uma liga e a qualidade individual de seus jogadores não são suficientes para determinar o desempenho. O coeficiente depende da capacidade de transformar recursos em resultados ao longo de várias temporadas. E Portugal vem fazendo isso com eficiência.

A conquista do quinto lugar teria consequências que vão além de uma posição simbólica. Uma quarta vaga na Champions League ampliaria o acesso português às receitas e à visibilidade da competição, além de oferecer a mais um clube a oportunidade de enfrentar adversários de alto nível. Para a França, perder a posição significaria reduzir sua presença na principal competição europeia justamente quando o PSG vive o período mais vitorioso de sua história.

No fim, o coeficiente não responde sozinho qual liga é melhor. Ele responde a uma pergunta mais objetiva: quais países estão conseguindo transformar suas equipes em resultados europeus ao longo do tempo? Neste momento, Portugal tem motivos para acreditar que pode ultrapassar a França.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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