Planejamento? Apenas um detalhe

No Brasil, a palavra da moda neste momento é “planejamento”. Não é raro ouvir de jornalistas, dirigentes, jogadores e torcedores que o elixir para o sucesso é este ente invisível, porém muito importante. E, não raro, nas entrevistas, durante as partidas, além de ouvirmos agradecimentos aos entes superiores, aos familiares, aos companheiros de equipe, também ouvimos referencias elogiosas ao tal do planejamento -quando tudo sai conforme o planejamento, ou seja, quando há a vitória.
Pois bem. Mas estamos na coluna que trata sobre o futebol grego (e turco), certo? E, como não é raro dizer nestas linhas, este termo, com o perdão do trocadilho infame, deve parecer grego para os dirigentes daquela região. E, mais uma vez, temos um exemplo de como são tomadas as decisões diretivas naquela parte do globo. Afinal, como o caro leitor já deve ter percebido, trocas de treinadores -a não ser que tenham uma grande importância- não são um assunto frequente nesta coluna.
O presidente do Olympiacos, Sokkratis Lemonis, tomando como base o “fracasso” na Uefa Champions League e o “mau” desempenho no campeonato local, decidiu dar o bilhete azul para o treinador Takis Lemonis.
Como todos sabemos, a campanha européia do Olympiacos foi um fracasso retumbante. Afinal, não conseguir se classificar para a fase de quartas de final da Champions League é uma verdadeira catástrofe para um time de tantas glórias e tradição na competição… Hein? Não, não estamos falando do Real Madrid.
Acredite ou não, o alvi-rubro é o mesmo time que, em outubro passado, estava nas nuvens ao conseguir vencer o Werder Bremen na Alemanha por 3 a 1. Ali, na 31ª tentativa, para ser mais exato, os Thrylos acabavam com um incomodo tabu e finalmente alcançavam uma vitória fora de casa numa fase de grupo da Champions League. E é o mesmo time que, depois de oito fracassos consecutivos, conseguiu se classificar para outra fase da competição européia.
Além disso, poucos eram os torcedores otimistas depois do sorteio das chaves das oitavas de final da competição. Afinal, o Olympiacos enfrentaria nesta fase o poderoso Chelsea de Michael Ballack e Frank Lampard, que, se não é mais o bicho papão que ameaçou ser com o técnico José Mourinho, também não parece ser dos times mais frágeis.
E até que o Olympiacos deu algum trabalho para os Blues. Em Pireu, os Thrylos seguraram a equipe inglesa e ficaram com um empate sem gols. Porém, em Stanford Bridge os gregos sucumbiram, e acabaram derrotados por 3 a 0 pelo Chelsea.
Enquanto isso, na Super League grega, o Olympiacos vem numa campanha abaixo da média tradicional, estando “apenas” na segunda colocação, um ponto abaixo dos eternos rivais Panathinaikos.
Claro que Takis Lemonis está longe de ser um técnico perfeito. E mostrou algumas de suas limitações em Londres, quando, por exemplo, teve receio em colocar o meia ofensivo Fernando Belluschi em campo. E, muito provavelmente, Belluschi não conseguiria fazer com que o pequeno Olympiacos conseguisse derrubar o gigante Chelsea.
Porém, sem o atacante Lomana LuaLua, machucado, o Olympiacos foi montado de forma defensiva, com Darko Kovacevic isolado. Não foi surpresa que os Thrylos apenas tiveram melhor rendimento no momento em que o argentino entrou em campo -no lugar do volante Christian Ledesma. Porém, com um 3 a 0 contra, ficou extremamente complicado.
De toda a forma, Lemonis, contratado no intervalo de inverno da temporada passada, atingiu aquele que parecia o principal dos seus objetivos na direção do clube. Naquele momento, o alvi-rubro havia acabado de ser desclassificado da Champions League passada. Era um momento em que a torcida, cansada de vencer localmente, queria desempenhar um melhor papel na Europa.
O melhor papel foi desempenhado, e, mesmo assim, Lemonis acaba sendo defenestrado do cargo, num momento crítico da temporada. Afinal, neste momento, a direção do Olympiacos coloca em risco uma campanha que não vinha sendo das piores na Super League, faltando seis rodadas para o fim.
De vez em quando, o melhor a fazer é esperar. Talvez fosse a atitude a ser tomada neste momento.
Heróis!
Até o começo da temporada, poucos conseguiam dissociar o Fenerbahçe de seus costumeiros fracassos nas competições continentais. Apesar de ser um time poderoso nacionalmente e ter uma situação financeira confortável, os Canários nunca haviam conseguido realizar uma campanha continental decente.
Isto causava algumas dores de cabeça em seus fanáticos torcedores, ainda mais quando confrontados com torcedores do rival Galatasaray –que exibiam orgulhosos as conquistas da era de ouro do clube, vivida no final do século passado. Apesar da época de vacas mais magras vivida pelo Gala, as conquistas da Copa Uefa e da Super Copa da Uefa em 2000, entre outras boas campanhas na Champions League e Copa dos Campeões sempre desequilibravam as conversas a favor dos torcedores dos Leões.
Essa falta de tradição em campanhas internacionais se tornou prioridade em Kadikoy. Porém, mais uma vez, havia o temor de que ocorresse um vexame em campos europeus. Por “vexame”, entenda o que ocorrera na temporada passada, quando o Fener acabou eliminado da Champions League ainda na fase preliminar, derrotado pelo Dínamo de Kiev (UCR).
Este resultado –somado a um começo reticente na Süper Lig- quase causou a queda de Zico na temporada passada. Porém, o posterior equilíbrio e a conquista da liga local assegurou mais uma temporada de trabalho ao treinador.
Novamente, para garantir as condições de trabalho para Zico, o presidente Aziz Yildrim não economizou investimentos, e trouxe reforços notáveis, que incrementaram o elenco auri-azul. Assim, não haviam desculpas. Na pior das hipóteses, o brasileiro teria que fazer uma boa temporada internacional nesta temporada.
Com a classificação heróica para as quartas de final, este objetivo foi alcançado com méritos. A partida contra o Sevilha, atual bi-campeão da Copa Uefa, no Sanchez Pizjuan acendeu o orgulho de um clube que desconhecia o que era fazer uma campanha honrosa em competições européias. E, mesmo com as duas falhas no começo do jogo -quando aceitou duas bolas defensáveis-, Volkan Demirel se tornou o herói improvável de uma classificação sonhada no momento em que pegou três cobranças.
Mesmo que o Fener não passe pelo Chelsea -o adversário nas quartas de final-, os canários já igualaram a melhor campanha turca da história moderna da Champions League -igualando 2000/1, quando o Galatasaray foi eliminado pelo Real Madrid na mesma fase. E agora os seus torcedores tem mais um motivo para se orgulhar.
E, é impossível apostar que esta campanha possa não ser o despertar de um gigante também em gramados europeus. Com dinheiro e sequência de trabalho, não será surpresa que as boas campanhas européia sigam acontecendo para o Fener.
Justamente por este fator, este colunista faz o seu mea culpa. Em nenhum momento, eu acreditei que os canários chegariam tão longe. No máximo, em uma campanha na Copa Uefa -muito por causa da presença de Inter e PSV no Grupo G da fase de grupos. Mas, com a exceção do jornalista Paulo Vinícius Coelho, da Espn Brasil, ninguém acreditava que o Fener poderia chegar tão longe.
Nem mesmo depois que a imprensa brasileira “descobriu” o clube turco, por causa da boa campanha de um clube cheio de brasileiros em seu elenco e comissão técnica, e também pela coincidência de datas do confronto final entre Sevilha e Fener, justamente no dia seguinte ao do aniversário de 55 anos de Zico.
Mas, eis que o retrospecto não valeu, e o Fenerbahçe chegou longe. Classificando ou não para a fase seguinte, esta já é uma campanha que será lembrada para sempre pelos torcedores do clube de Kadikoy.



