O Barcelona que rasgou seu manual em busca da classificação
O Barcelona estabeleceu um manual de futebol ao longo das últimas décadas. O time do toque de bola, do jogo coletivo. Durante a maior parte do tempo, foi assim que os blaugranes dominaram o Milan no Camp Nou. Entretanto, os catalães não tiveram pudores ao abrir mão de seus valores para buscar a classificação na Liga dos Campeões.
O time que reverteu a derrota no San Siro também foi de bico para a lateral, retranca e contra-ataque. Bem menos óbvio do que em suas últimas apresentações, muito mais competitivo. O Barcelona, que para muitos merece a classificação automática em todas as competições que participa apenas pelo jogo bonito, queimou seu manual. Foi em busca da eficiência, a mesma que tinha funcionado para os rossoneri no jogo de ida, e mostrou que tinha mais time.
A solução inicial encontrada por Jordi Roura foi resgatar alguns traços das temporadas passadas, marcantes sob o comando de Pep Guardiola. Nada do 4-3-3 estático visto durante os últimos meses. O Barça desta terça tinha uma formação tática mutante, com Daniel Alves, Iniesta e Jordi Alba livres para transitar por diferentes faixas do campo. O meio de campo voltou a ser povoado, enquanto a defesa era resguardada por três jogadores. Xavi recuperou a maestria e somou duas assistências. E a insistência nas finalizações prevaleceu sobre a falta de objetividade costumeira.
Elo entre meia-cancha e ataque, o próprio Messi relembrou os tempos em que caía um pouco mais pelo lado direito do campo, já que boa parte dos jogadores mais avançados se concentrava pela esquerda. Para ajudá-lo, David Villa resgatava o esquecido posto de centroavante mais típico. Não foi tão participativo, mas soube prender a marcação, abrir espaços para os companheiros e foi letal logo na primeira chance que teve para balançar as redes.
A partir do terceiro gol, a transformação do Barcelona do tiki-taka. O Milan pressionava em busca do gol da classificação, sem sucesso diante do ônibus estacionado pelos blaugranes nos minutos finais, com uma linha defensiva formado por cinco jogadores. Roura lançou mão de Pedro para reforçar a zaga com Adriano. Para evitar um ataque adversário, até Messi não se privou de um chutão rumo às arquibancadas. E, em mais um lance atípico, o golpe final veio em um contra-ataque arrematado por Jordi Alba.
Messi, obviamente, também merece elogios à parte em mais essa vitória. Buscou o jogo o tempo todo e arriscou a gol, longe de lembrar o atacante enclausurado em Milão. Se há algum tempo se questionava como Messi se sairia em um time menos talentoso que o Barcelona, a pergunta que ficou nas últimas semanas é como os blaugranes sobreviveriam sem o camisa 10. Ao menos nesta terça, a resposta foi que um gênio e uma equipe tão imprevisível quanto ele se completam.



