Europa

Negócios à parte

Já se vão três semanas desde o estouro do escândalo no futebol turco. Além de Fenerbahçe e Trabzonspor, a sujeira se espalhou um pouco mais. Entre os novos afetados, o Besiktas, que devolveu até mesmo o troféu da Copa da Turquia. A Uefa afirmou que não suspenderá os clubes previamente classificados para as competições européias, o que alivia os temores em partes. De toda forma, a mancha na Süper Lig continua e a esperança é que as investigações cheguem a uma resposta conclusiva ao menos até o fim de agosto, quando está marcado o início da próxima temporada.

Mesmo sem uma luz sobre seu futuro, os clubes turcos vão às compras. Com muitos países europeus vivendo período de ressalvas financeiras, a economia da Turquia, pelo contrário, cresceu quase 9% no ano passado. E o futebol segue na mesma toada, subindo degraus em relação a outras ligas do continente. Até aqui, os times da Süper Lig estão na quinta posição quando o assunto é dinheiro gasto em contratações – inferior apenas à Itália, Inglaterra, Espanha, Alemanha e França. O país ainda tem o quarto maior déficit entre o quanto comprou e o quanto vendeu, na casa dos 35 milhões de euros.

O fluxo de dinheiro e a demagogia perante os torcedores fazem com que muitos dirigentes digam mundos e fundos durante a janela de transferências. Nas últimas semanas, a própria coluna de “Especulações” da Trivela trouxe diversos parágrafos com os devaneios turcos. Ainda que nomes como Luís Fabiano e Forlán estejam longe de serem confirmados, as transações feitas até aqui mostram que os times do país têm bala na agulha.

Quem mais esbanjou até aqui foi o Fenerbahçe, com quase 20 milhões de euros empregados em novidades. Todos eles vieram de outras equipes da Turquia e tiveram destaque na Süper Lig 2010/11, como Emmanuel Emenike e Serdar Kesimal. O grande porém da questão é que, conforme apontam as denúncias feitas sobre o caso de manipulação, é possível que alguns destes atletas tenham facilitado seus jogos contra os Sari Kanaryalar para ganharem um dinheiro extra em seus contratos.

Em segundo no campeonato 2010/11, o Trabzonspor também é o vice-campeão na hora de contratar. O mais conhecido dos recém-chegados é o marfinense Didier Zokora, ex-Sevilla, mas a equipe também abriu o bolso para trazer o atacante brasileiro Paulo Henrique e o meia polonês Adrian Mierzejewski – o selecionável Halil Altintop veio sem gastos. Em compensação, a Karadeniz Firtinasi perdeu Umut Bulut e Jajá, dois jogadores fundamentais na campanha da última temporada.

O Besiktas, apesar de não fazer contratações bombásticas, aplicou 12 milhões de euros em nove jogadores diferentes. O mais caro deles é o atacante Mustafa Pektemek, que veio do Gençlerbirligi por 4 milhões. De resto, os Kara Kartallar contrataram em definitivo o português Manuel Fernandes e vários jovens, como o zagueiro brasileiro Sidnei e o português Bebé, ambos emprestados.

Outro grande de Istambul, o Galatasaray espera que o dinheiro expendido nos novos jogadores dê resultados bem melhores que em suas últimas disputas. Os nomes de mais peso vieram para a defesa, com Muslera e Ujfalusi, nos quais os Aslanlar gastaram 8 milhões de euros. No meio, os reforços são Selçuk Inan e Johan Elmander, que ao menos chegaram de graça. E o ataque deve ganhar novas peças, especialmente após a saída do australiano Harry Kewell – seu compatriota Lucas Neill é outro que saiu e fará falta.

O Bursaspor, sem repetir a Champions como na última temporada, vem mais modesto. O promissor zagueiro francês N’Diyae e o goleiro Scott Carson foram as melhores investidas. O Gaziantepspor, que também está na Europa League, não perdeu ninguém de relevância, mas em compensação não buscou nada além do que promessas.

No restante dos times da Süper Lig, a fonte não jorra tão generosa assim. Além de trocas internas, a maior gastança foi do Eskisehispor, que trouxe o escocês Kris Boyd graças ao dinheiro obtido com a venda de Sezer Özturk ao Fener. Nem o Ankaragükü, tradicional reduto de medalhões, entrou com força no mercado. A única investida do clube foi para trazer o eslovaco Stanislav Sestak, que já estava em Ancara por empréstimo.

De uma maneira geral, a expectativa é de que a diferença entre compras e vendas aumente ainda mais até o fechamento da janela de transações. Pelo jeito, a crise organizacional não assusta os atletas cortejados pelo futebol turco. Enquanto o dinheiro continuar jorrando, pouco importa se eles vão jogar em um ambiente limpo ou não.

Contenção bem compreensível

Como era de se esperar nessas primeiras semanas de abertura de janela, os clubes gregos estão longe de esbanjar saúde financeira. Os únicos clubes que gastaram mais do que venderam foram Olympiacos, Ergotelis e PAS Giannina – os últimos dois, com déficit relativamente pequeno, inferior a 500 mil euros cada. De uma maneira geral, a maioria absoluta das contratações é baseada em atletas de transferência livre ou que retornam de empréstimo.

A situação faz coro à atual crise econômica da Grécia, que ameaça moratória. O horizonte nebuloso, somado a problemas de brigas entre torcidas e racismo nas arquibancadas, fez mesmo a federação local anunciar uma espécie de “lockout” no início de junho. A ideia era suspender as atividades do futebol no país ao fim da temporada e repensar a estrutura interna.

No último mês, ainda estouraram denúncias acusando dirigentes do país quanto à manipulação de resultados e ligações com máfias de apostas, entre eles Vangelis Marinakis, presidente do Olympiacos. As investigações, em fase de apuração, ainda não estão definidas, mas devem mexer um pouco mais as reformas previstas.

Ao menos as diretrizes financeiras tomadas pelos cartolas gregos têm se mostrado acertadas. O rebaixamento do Iraklis, que não fechou as contas na temporada passada e que, por esse motivo, não poderá jogar a Super League 2011/12, é um ótimo exemplo. A federação grega deu seu aviso de que os excessos não serão tolerados. Assim como nos outros setores da economia do país, o futebol também está em recessão.

O único clube que destoa em relação aos outros é o Olympiacos. Mesmo que sua administração esteja em xeque com as investigações, o time de Pireu é o único com um apadrinhamento forte – e, ao que parece, alheio às turbulências financeiras. Até o momento, foram gastos 7,7 milhões de euros para reforçar o time, sendo 2,5 destes aplicados na contratação definitiva de Kevin Mirallas. Entre os contratados estão Aleksandar Katai e Ljubomir Fejsa, promessas do Campeonato Sérvio. Já entre os que chegam de graça, os destaques ficam para o goleiro Costanzo e o meia Javito.

O vice-campeão Panathinaikos mostra que o fôlego que os cofres do clube tinham nos tempos de Nikos Pateras já não existem mais. Os Trifylli não gastaram um tostão sequer com jogadores até o momento e ainda receberam 7,25 milhões de euros com a venda de seus jogadores. O bolso cheio, contudo, não deve significar tantas benesses assim em campo, especialmente após a venda do ídolo Cissé à Lazio.

Outro clube que encheu os cofres e perdeu craques é o AEK Athenas. Por 2,8 milhões de dólares, Ignacio Scocco foi faturar no Catar, enquanto Ismael Blanco não aceitou a renovação contratual e está sem clube. Na via contrária, entre os trazidos pelos Dikefalos, um monte de apostas e o veterano Gudjohnsen, que saiu com passe livre do Stoke City. Em Tessalônica, os rivais Aris e PAOK não perderam muito, mas até agora não se reforçaram substancialmente.

E a ordem foi praticamente a mesma no restante dos clubes da primeira divisão: sem grandes perdas ou vendas, só que também sem grandes contratações. Com o fair play financeiro da própria federação causando vítimas, os dirigentes perceberam que o melhor a se fazer no momento é enxugar gastos. Se a crise não permite extravagâncias, a hora é de se apostar na velha fórmula do “bom e barato”.

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Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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