Europa

Mistérios (e o drama) do Neuchâtel Xamax

Termina o jogo. O Neuchâtel Xamax, penúltimo colocado do Campeonato Suíço, apenas empata em casa com o lanterna Lausanne por 2 a 2. Eis que surge no vestiário o dono do clube, o checheno Bulat Chagaev. Acompanhado de seguranças armados, ele ofende os jogadores. O técnico Joaquín Caparrós sai em defesa dos atletas. Como resposta, recebe de Chagaev o gesto do dedo indicador passando pela garganta, numa clara ameaça. No dia seguinte, um jogador que pede para não ter a identidade revelada conta à imprensa que os atletas temem pela própria vida. “Se você erra um passe ou comete um erro qualquer, fica sempre com medo de que algo possa lhe acontecer.” Alguns dias depois, Caparrós deixa o clube.

Os fatos relatados acima aconteceram na última semana e ilustram bem o momento terrível pelo qual vem passando o time de Neuchâtel, uma milenar cidade que tem 32 mil habitantes e é capital do cantão de mesmo nome. Fundado em 1970 (numa fusão do FC Cantonal e do FC Xamax), o Neuchâtel Xamax Football Club foi bicampeão nacional em 1986/87 e 1987/88. Na temporada passada, flertou com o rebaixamento o tempo todo e só escapou nas rodadas finais. Nesta, ganha destaque na mídia internacional por ações nada ortodoxas do seu dono.

Bulat Chagaev é um homem misterioso. Sabe-se que mantém duas empresas em Genebra, na Suíça, ligadas a negócios envolvendo petróleo e gás. É milionário, mas nunca revela de onde vem todo o dinheiro. Quando questionado, limita-se a dizer que não sabe o que é dinheiro sujo ou dinheiro limpo. “O que sei é que quando vou comprar sapatos, ninguém o recusa”, é uma de suas frases preferidas.

Também é político, ligado ao ex-rebelde e atual presidente da Chechênia, Ramzan Kadyrov. Dirigente do Terek Grozny (clube que é presidido por Kadyrov), Chagaev foi listado pelo site especializado Sports.ru como uma das 33 pessoas mais influentes no futebol russo. Segundo a publicação, ele é “a mais enigmática entre todas as figuras importantes” do futebol do país.

Em tempo: Kadyrov foi quem organizou um amistoso envolvendo veteranos da seleção brasileira, em março deste ano. A presença de ídolos nacionais no evento gerou protestos de algumas ONGs, já que o presidente é acusado de desrespeito aos direitos humanos. O ex-meia Raí declarou posteriormente te se arrependido de ter participado do jogo.

A chegada do magnata

Mas voltemos ao drama do Xamax. O clube, que tinha a maioria de suas ações nas mãos do empresário Sylvio Bernasconi, foi vendido a Chagaev em maio, numa assembleia que durou apenas 24 minutos e que não teve nem mesmo a presença do checheno. Ele foi representado por Andrei Rudakov, um ex-jogador e agora cartola russo, que seria seu braço direito durante os primeiros meses na Suíça. Os valores não foram revelados.

Na época, apenas um conselheiro, Michel Reymond, votou contrário à venda. “Estou preocupado com tudo o que ouvi sobre Chagaev”, justificou. Além dele, havia outras pessoas que também não eram totalmente favoráveis à transferência das ações da equipe para o checheno. Mas a crise financeira do clube e as recentes más campanhas pesaram na balança e a venda foi aprovada sem dificuldades.

Curiosamente – ou sarcasticamente, até – uma das principais promessas de Chagaev aos conselheiros do Xamax foi desmentida pelo seu assessor instantes depois da aprovação da venda. O milionário dizia que iria fazer do clube um dos grandes da Suíça, com condições de ser campeão nacional e disputar a Liga dos Campeões da Europa. Rudakov, porém, tratou de pôr panos frios: o objetivo, disse, é não ser rebaixado e brigar pela Copa da Suíça (torneio eliminatório no qual o Xamax foi vice-campeão da temporada passada).

Se a aprovação por parte dos conselheiros foi feita sem ressalvas, a resistência da torcida também não aconteceu de maneira intensa. Uma manifestação organizada por Vincent Patrick, um professor da universidade local, reuniu apenas 50 pessoas e ainda valeu a ele uma queixa formal de difamação, feita pelos novos administradores do clube.

O assunto também chegou ao governo, despertado por um artigo do senador Dick Marty no jornal Le Matin, no qual ele se mostrava preocupado com o dinheiro que entra no país oriundo de ditaduras. A resposta coube ao ministro do Interior, Didier Burkhalter, que mostrou-se um autêntico suíço: “Não tenho opinião a respeito.”

Tesoura afiada

Com a compra concretizada, Chagaev começou a mostrar trabalho. Do seu jeito. Logo de cara, ainda em maio, demitiu o técnico francês Didier Ollé-Nicolle, que foi substituído pelo suíço Bernard Challandes. Que foi demitido em junho e deu lugar a François Ciccolini, outro francês. Que caiu em julho, trocado pelo espanhol Joaquín Caparrós. Que pegou o boné no começo de setembro, sendo substituído pelo compatriota Victor Muñoz.

As constantes demissões dão o tom da impaciência do checheno – certamente, a mesma que o levou a invadir o vestiário para a conversa nada agradável com os jogadores. Além dos técnicos, ele também dispensou o brasileiro Sonny Anderson (que trabalhava como gerente de futebol), o goleiro brasileiro Galatto (que tomou três gols logo na estreia e não teve outra chance) e até mesmo o então braço direito Andrei Rudakov.

Para se ter uma ideia da proporção disso, vale um dado curioso: Chagaev assinou mais dispensas do que vibrou com gols do seu time até agora (foram apenas quatro na Super League).

E o futuro?

O somatório das polêmicas atitudes de Chagaev e da má campanha do Xamax já reflete na torcida, que se movimenta. Houve manifestações de apoio aos jogadores e cobrança por melhores resultados na frente do centro de treinamento.

O movimento é, por enquanto, pacífico e tem sua base num fórum de discussões na internet. Além dos maus resultados, os torcedores reclamam que o magnata checheno vem manchando o nome do clube. E ainda há o agravante de uma ameaça de boicote por parte dos jogadores, descontentes com a queda de Caparrós.

Chagaev, claro, não está gostando disso. Em entrevista a jornais locais, ele chegou a dizer que está “pronto para deixar o clube sem gastos adicionais para a cidade”. Mas não é simples assim.

Sem ele, o clube precisará se reconstruir pagando uma dívida estimada em 30,5 milhões de francos (cerca de R$ 63,3 milhões). Com ele, o Xamax seguirá por dias incertos, com seus jogadores tendo medo de entrar em campo, técnicos sabendo que a demissão pode estar perto e a torcida temendo por maus resultados.

A única coisa certa em Neuchâtel neste momento é que o futuro do time da cidade é incerto.

CURTAS

Áustria

– A derrota para a Alemanha era previsível, mas o placar de 6 a 2 não estava nos planos dos torcedores austríacos. A goleada em Gelserkirchen escancarou ainda mais a crise vivida pelo time de Didi Constantini, que ao que tudo indica deve deixar o cargo em 11 de outubro, após o jogo contra o Cazaquistão, pela última rodada das eliminatórias da Euro.

– Nesta terça, o contestado treinador terá uma chance de se redimir, já que a Áustria recebe a Turquia.

– A crise bateu na porta do Mattersburg. Lanterna da Bundesliga, o time não conquista uma vitória há dez partidas, ou seja, desde a temporada passada. No campeonato atual, foram três empates e três derrotas.

– Nenad Bjelica, técnico do St. Andrä, líder da segunda divisão, foi multado em 1,5 mil euros por ter ofendido o árbitro num jogo contra o Lask Linz pela Copa da Áustria.

– Tanto a Bundesliga quanto a Erste Liga não tiveram jogos neste final de semana devido aos compromissos da seleção.

Suíça

– A vitória do País de Gales sobre Montenegro deu ânimo novo à Suíça na tentativa de chegar à repescagem das eliminatórias da Euro. A Nati está seis pontos atrás dos montenegrinos e tem três jogos a disputar, sendo um confronto direto.

– O primeiro deles é amanhã, na Basileia, contra a Bulgária. Apesar da necessidade da vitória, a torcida parece não estar muito empolgada. Menos da metade dos 37,5 mil ingressos disponíveis foi vendida antecipadamente.

– O jogo poderá marcar a estreia de Fabian Frei na Nati. Aos 22 anos de idade, ele foi convocado pela primeira vez.

– Michel Pont, assistente de Ottmar Hitzfeld na seleção suíça, renovou seu contrato até o final da Copa do Mundo de 2014.

– O que os torcedores do Sion temiam, aconteceu. O clube foi punido pela Uefa e não poderá jogar a fase de grupos da Liga Europa, abrindo vaga para o Celtic, a quem derrotou nos play-offs.

– Isso porque o Sion utilizou contra os escoceses jogadores contratados na pré-temporada, descumprindo uma punição que já havia recebido da Uefa. A entidade havia punido o Sion por ter aliciado o goleiro egípcio Essam El-Hadary, que rompeu contrato com o Al-Ahly em 2008.

– Por conta da presença da Nati em campo, tanto a Super League quanto a Challenge League tiveram bola parada no final de semana.

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Equipe Trivela

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