Europa

Mais um falido

Não chega a ser uma grande a falência do Servette, anunciada na semana passada. O noticiário da imprensa suíça – especialmente de Genebra, a cidade do clube – já trazia a possibilidade há meses, por conta da crise financeira atravessada pela equipe. O próprio dono do Servette, o empresário iraniano Majid Pishyar, havia feito alertas para a grave situação.

O que chama realmente a atenção é o fato de que os Grenats são o segundo clube da primeira divisão suíça a falir numa mesma temporada. Embora por meios um pouco diferentes, o Servette acabou tomando o mesmo rumo do Neuchâtel Xamax: salários de jogadores e funcionários atrasados e dívidas com fornecedores. Tudo isso num país que está entre as maiores economias do mundo.

Coincidência ou não, tratam-se de duas equipes geridas por empresários que se transformaram em seus donos. Se o caso do Xamax é mais grave (pois Bulat Chagaev é acusado também de falsificar documentos para provar uma possível capacidade financeira), ninguém sabe ao certo até onde vai o buraco do Servette. Desde que anunciou a falência, via site oficial do clube, Majid Pishyar está sumido. Há indícios de que ele estaria fora do país, para evitar uma possível prisão.

Não é a primeira vez que os torcedores grenats veem seu time ir à falência. Algo semelhante ocorreu em 2005 e rebaixou a equipe a uma liga amadora. A recuperação completa só veio na temporada passada, com o vice-campeonato da segunda divisão e a classificação para a Super League no playoff contra o Bellinzona. Tudo muito diferente das conquistas, a última delas em 1999, que fazem do clube o segundo maior vencedor do Campeonato Suíço, com 17 títulos.

Há quatro anos no poder, Pishyar vinha alertando em entrevistas e comunicados sobre a grave crise financeira do clube. Numa das declarações mais fortes, no final do ano passado, disse que não colocaria mais dinheiro do próprio bolso e que, se os empresários e comerciantes de Genebra não apoiassem o time, a falência aconteceria. Vale lembrar que ele também é dono do Beira Mar, de Portugal e do Admira, da Áustria.

A dívida estimada dos Grenats é de 3 milhões de francos suíços (cerca de R$ 5,6 milhões). Entre os credores, está até a empresa que limpa o Stade de Genève, que é municipal.
Apesar de declarada pelo clube, a bancarrota ainda não está totalmente consolidada. Para isso, precisa ser analisada pela Justiça, o que deve ocorrer nos próximos dias. Caberá ao juiz decidir o que será feito, inclusive em termos desportivos, pois há possibilidade de o time seguir na disputa da Super League até o fim da temporada.

Assim, ainda é impossível saber se a derrota para o Thun por 1 a 0 no sábado foi a última da vida grená. O resultado, por sinal, derrubou o time do quarto para o quinto lugar no campeonato, um ponto atrás do próprio Thun, mas em plenas condições de seguir brigando por vaga na Liga Europa. Aliás, a boa campanha torna a falência ainda mais lamentável, já que o time vem conseguindo os resultados dentro de campo e, mesmo assim, não atrai investidores.

A história da partida, disputada fora de casa, vale muito mais pelos contornos dramáticos e melancólicos que tomou fora de campo do que pelo resultado em si. A iniciar pela chegada da delegação do Servette a Thun, ocorrida somente horas de jogo, evitando assim gastos com concentração. Passando pelas declarações do técnico português João Pereira, que antes do jogo via o confronto como chance de jogar bem e fazer um investidor apoiar o time e evitar a desistência do campeonato – e o desemprego geral. E culminando na declaração do zagueiro Christian Schlauri, que resumiu o dramático momento: “Falência é a pior coisa que poderia acontecer para nós. Devemos esperar e rezar por uma boa notícia”.

O futebol interno da Suíça vive um momento extremamente delicado em termos de administração e o caso Servette escancara isso. Seja ou não culpa dos empresários que tornam-se donos de clubes (e dos dirigentes que vendem as equipes para essas pessoas), o fato é que, em poucos meses, o país viu duas falências de clubes da primeira divisão e uma briga judicial que tornou proporções desnecessárias e tornou-se grotesca (o caso Sion).

Os dirigentes helvéticos não podem se iludir com as performances do Basel na Liga dos Campeões ou com o bom processo de renovação da seleção. Eles precisam olhar para dentro do próprio campeonato e ver que ainda há muita coisa a ser melhorada.

Quando o país dono da 19º maior Produto Interno Bruto do mundo tem clubes de futebol falindo a todo momento, é porque alguma coisa está errada na administração do seu futebol.

CURTAS

ÁUSTRIA

– O Rapid Viena conseguiu, enfim, marcar o primeiro gol e vencer a primeira partida do ano: 1 a 0 sobre o Ried, em casa. O time segue líder da Bundesliga austríaca, com 38 pontos – contra 35 do Áustria Viena, que ganhou fora de casa do Wacker Innsbruck, também por 1 a 0.

– A vitória por 2 a 0 sobre o Wiener Neustadt pôs fim ao jejum que durava desde outubro para o Admira. De lá para cá, o time havia acumulado sete derrotas e três empates.

– Depois das longas férias de inverno, a Erste Liga – segunda divisão do Austríaco – finalmente foi retomada. E o St. Andrä assumiu a liderança ao vencer o Blau-Weiss Linz por 2 a 0, em casa. O agora vice-líder Altach viajou para enfrentar o Lask Linz e perdeu por 3 a 2.

SUÍÇA

– O português Jorge Mendes, agente de José Mourinho e Cristiano Ronaldo, entre outras estrelas do futebol mundial, aparece como possível comprador e salvador da pátria do Servette.

– Outro nome que toma força no noticiário é o do italiano Giuseppe Luongo. Homem forte do Campeonato Mundial de Motocross e proprietário do Stade Nyonnais, da segunda divisão, ele chegou a flertar com o Servette anos atrás, mas na época o negócio não vingou.

– Segundo o advogado dos Grenats, se um investidor aparecer disposto a arcar com toda a dívida, o clube pode até ser vendido pelo preço simbólico de 1 franco suíço.

– Ao vencer o vice-líder Luzern por 3 a 1, o Basel abriu nove pontos de vantagem na ponta do Suição. O título, agora, é questão de tempo.

– Já na Challenge League, quem nada de braçada é o St. Gallen. Na rodada do final de semana, derrotou o Stade Nyonnais por 3 a 0 fora de casa e manteve os 12 pontos de vantagem sobre o Bellinzona, que recebeu o Etoile Carouge e ganhou por 2 a 0.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo