Liga Europa

United x Milan: As lembranças do clássico continental que eternizou histórias na Champions entre 2005 e 2010

Manchester United e Milan são gigantes europeus de orgulho ferido nos últimos anos. O coadjuvantismo atual é pouco à história dos dois clubes, especialmente à que construíram na virada do século, com títulos abundantes e escalações lendárias. Nesta temporada, os Red Devils e o Diavolo veem os rivais locais se tornarem favoritos a conquistar os títulos nacionais. A esperança neste momento se concentra na Liga Europa, onde os dois clubes se enfrentam para um duelo de muitas expectativas, mas aquém da grandiosidade que já teve anos atrás.

Os cinco confrontos anteriores entre United e Milan nas competições europeias valeram pela Champions. Os rossoneri se deram melhor em 1958 e 1969, ambas em semifinais contra os mancunianos. Já o período mais fresco na memória aconteceu na década de 2000, quando o embate de ingleses e italianos poderia até mesmo ser considerado um clássico continental. Os milanistas avançaram em 2005 e 2007, conduzidos por Kaká. O troco dos Red Devils viria em 2010, com Rooney faminto. Abaixo, relembramos um pouco dessas histórias:

Oitavas de 2004/05

Depois de mais de 30 anos sem se cruzarem nas copas europeias, Milan e Manchester United tiveram um reencontro nas oitavas de final da Champions 2004/05. Os Red Devils contavam com uma equipe bastante forte sob as ordens de Sir Alex Ferguson, mas num momento de transição em seu domínio na Inglaterra, eclipsados por Arsenal e Chelsea. Enquanto isso, os rossoneri tinham conquistado a Serie A na temporada anterior e a própria Champions menos de dois anos antes. Acabaram se mostrando mais preparados para a jornada europeia.

Carlo Ancelotti era o comandante de um Milan que contava com uma constelação em campo. Entre os titulares naqueles embates, apareceram Dida, Cafu, Stam, Nesta, Maldini, Pirlo, Gattuso, Seedorf, Kaká, Rui Costa e Crespo. E isso porque havia o desfalque de Andriy Shevchenko, ganhador da Bola de Ouro meses antes, além de Inzaghi. No United, o trunfo de Ferguson estava no ataque, onde conseguia montar um quarteto formado por Van Nistelrooy, Rooney, Giggs e Cristiano Ronaldo. Scholes, Roy Keane e Rio Ferdinand também recheavam a escalação, mas com uma defesa mais frágil.

O destaque daqueles confrontos foi Crespo, exatamente o responsável por substituir Shevchenko na linha de frente. Na primeira partida, em Old Trafford, o Manchester United poderia ter construído a vantagem durante o primeiro tempo. Scholes mandava chutes venenosos e Quinton Fortune perdeu uma chance incrível. No segundo tempo, o Milan cresceu e passou a buscar mais o gol. Garantiu a vitória por 1 a 0 aos 33 minutos, com uma falha do goleiro Roy Carroll. O norte-irlandês soltou o chute de Seedorf e Crespo estava à espreita para guardar.

Na volta, em San Siro, Ferguson até apostou num time mais ofensivo e deu espaço a Tim Howard no gol. Não teve jeito. Num primeiro tempo em que o Milan foi mais agressivo, Giggs e Kaká mandaram bolas na trave. A nova vitória rossonera por 1 a 0 se desenhou aos 16 do segundo tempo. Cafu realizou um cruzamento primoroso e Crespo foi ótimo na cabeçada, mandando a bola cruzada longe do alcance de Howard. A forte defesa milanista conteria a tentativa de pressão e Crespo ainda desperdiçaria a chance do segundo, travado por Rio Ferdinand. Kaká, aliás, já fazia um carnaval naquela noite. Aquele Milan alcançaria a final, quando Istambul guardaria outra história aos ingleses, representados pelo Liverpool.

Semifinal de 2006/07

Milan e Manchester United se reencontraram na Champions League duas temporadas depois, numa ocasião mais nobre, pelas semifinais de 2006/07. Ferguson aprimorou sua equipe naqueles anos e estava prestes a iniciar seu tricampeonato na Premier League. Enquanto isso, Carlo Ancelotti concentrava as forças no torneio continental, onde os rossoneri buscavam a redenção por Istambul e também a reafirmação de sua força, com campanhas dominantes naqueles anos. De novo, a tarimba milanista além das fronteiras preponderou, graças ao momento esplendoroso de Kaká.

O Milan tinha poucas novidades em relação ao encontro anterior. A espinha dorsal se mantinha, com Dida, Nesta, Maldini, Pirlo, Gattuso e Seedorf. O ataque contava com Inzaghi e Gilardino, bons matadores, mas abaixo de Crespo ou Shevchenko. O grande diferencial era mesmo Kaká, no melhor momento da carreira. Já o United repetia outros nomes. Rooney e Cristiano Ronaldo estavam mais tarimbados, embora Van Nistelrooy não figurasse mais no ataque. Giggs e Scholes mantinham a liderança de uma equipe que havia incorporado Evra e Carrick. Mais importante, agora tinham um goleiro, com Van der Sar na meta, além de Vidic ao lado de Ferdinand na zaga.

O Manchester United não pôde usar sua dupla de zaga titular na ida em Old Trafford, mas mostrou que conseguiria ser mais competitivo com a vitória por 3 a 2. Logo aos cinco minutos, Cristiano Ronaldo abriu o placar, aproveitando uma saída errada de Dida na cobrança de escanteio. O goleiro se redimiu com uma ótima defesa diante de Carrick. E o imparável Kaká logo faria estrago. O craque empatou aos 22, ao receber o passe de Seedorf e acelerar, antes de chutar no contrapé de Van der Sar. O United permanecia pressionando e Dida faria outra boa defesa em bomba de Ronaldo. Seria a deixa para o segundo de Kaká, virando aos 37. O camisa 22 ganhou a bola no meio de Heinze e Evra, que bateram cabeça. Com o caminho livre, bastou tirar do alcance de Van der Sar. E o terceiro só não veio porque o goleiro espalmou no canto outro arremate do brasileiro que tinha endereço.

Durante o segundo tempo, no entanto, o Manchester United conseguiu se impor e revirou o marcador a seu favor. O empate não demorou, aos 15. Scholes deu um lindo passe por elevação. Rooney se infiltrou na área, matou no peito e tocou na saída de Dida. O goleiro milanista voltou a aparecer, salvando uma pancada de Fletcher, e a missão se tornava mais árdua com as lesões de Maldini e Gattuso. O intenso bombardeio mancuniano se seguiu e teria resultado nos acréscimos, com mais um de Rooney, o da vitória. O atacante engatilhou o chute rápido na entrada da área e mandou no cantinho. Os ingleses iam com a vantagem para o San Siro.

Uma semana depois, o Manchester United voltava a contar com Vidic e tinha encaminhado a reconquista da Premier League. O Milan escalava Inzaghi no ataque, mas precisava lidar com a baixa de Maldini na defesa. A zaga, todavia, mal seria exigida. Aquela foi a noite de um grande nome, Kaká, na maior atuação de toda a sua carreira. O camisa 22 simplesmente esmerilhou os Red Devils, com um gol e uma atuação gravada na memória, ante a vitória por 3 a 0.

O Milan nem deu tempo para o United respirar. Logo nos primeiros minutos, já tentava reverter a situação, com Van der Sar salvando um petardo de Seedorf. Só não seria possível parar Kaká, com seu gol aos 11. A bola sobrou na entrada da área e o camisa 22 não perdoou, chutando no cantinho. Apesar da vantagem e da classificação momentânea, os rossoneri não aliviavam. Contavam com Kaká arrancando em máxima velocidade e destruindo as linhas de marcação. O segundo gol viria aos 30, com outro protagonista da noite, Seedorf. O veterano aproveitou a sobra de um cruzamento de Pirlo e acertou o canto de Van der Sar.

Do outro lado, Dida mal trabalhou no primeiro tempo. E a segunda etapa ficaria mais ao gosto do Milan, com espaço para contra-atacar e explorar a velocidade de Kaká. O camisa 22 estava tão inspirado que até Gattuso ele conseguiu acalmar naquela noite. Cristiano Ronaldo estava distante de se equiparar como o grande rival do brasileiro naquela partida. Errava bastante, enquanto os ataques milanistas eram bem mais contundentes. Assim, Gilardino matou o confronto aos 33, aproveitando o passe de Ambrosini e finalizando de frente com o goleiro. Antes do fim, daria tempo para Kaká sair de campo ovacionado pela torcida. Merecidamente, o Milan levaria a Orelhuda naquela temporada, com a revanche diante do Liverpool garantida por Inzaghi em Atenas.

Oitavas de 2009/10

O Manchester United, enfim, pôde conquistar sua inédita classificação contra o Milan três temporadas depois. Cristiano Ronaldo e Kaká tinham feito as malas meses antes, atraídos pelo novo projeto galáctico do Real Madrid, no qual teriam impactos bem distintos. De qualquer maneira, os dois oponentes das oitavas de final seguiam com equipes fortes. Tricampeão nacional e finalista nas duas Champions anteriores, com a taça em 2008, o United trazia o favoritismo para si. Enquanto isso, o Milan também já não tinha mais Carlo Ancelotti e lidava com o envelhecimento de sua base vitoriosa.

Os protagonistas de Sir Alex Ferguson não mudaram tanto. Rooney ganhava mais peso na hierarquia, com uma coluna vertebral estruturada com Van der Sar, Ferdinand, Vidic, Evra, Carrick, Fletcher e Scholes. Nomes como Nani, Park e Valencia ganhavam espaço. Giggs foi ausência naquelas oitavas. Já o Milan tinha Beckham e Ronaldinho sob as ordens do técnico Leonardo, assim como Thiago Silva e Alexandre Pato, mas os planos não saíram à risca. A influência da geração de Dida, Nesta, Pirlo, Gattuso, Seedorf e Inzaghi perdia forças. Maldini já tinha pendurado as chuteiras.

A história se provou diferente desde a ida no San Siro, onde o Manchester United venceu por 3 a 2. O Milan saiu na frente logo cedo, com um chute desviado de Ronaldinho. Apesar de boas chances perdidas pelos milanistas e das defesas de Van der Sar contra Ronaldinho, o United empatou aos 36, com Scholes aparecendo na área para concluir. Já na segunda etapa, de novo Rooney causou pesadelos aos rossoneri. Enquanto Van der Sar salvava atrás, o camisa 10 resolvia na frente. Virou aos 21, numa cabeçada longe do alcance de Dida, e anotou também o terceiro aos 29, em outra testada certeira após o cruzamento de Fletcher. Seedorf descontou a cinco minutos do fim, completando de letra o cruzamento de Ronaldinho, e Inzaghi quase empatou. Contudo, os italianos levariam o prejuízo na visita a Old Trafford.

E a verdade é que o Milan não teve chances de competir no reencontro com o Manchester United, tomando um chocolate em Old Trafford. De novo Rooney gastou a bola, agora para conduzir a goleada por 4 a 0. O camisa 10 era onipresente no ataque e abriu o placar aos 13 minutos, em nova cabeçada, agora para vencer Abbiati. O Milan teve boas chances de marcar no primeiro tempo, mas Rooney aumentou a contagem logo no primeiro minuto da segunda etapa. Nani enfiou a bola e o atacante deu um leve toque na saída de Abbiati. O terceiro seria de Park, aos 14, aproveitando um passe de Scholes. E com o United pressionando por mais, o baile foi concluído aos 42, com Fletcher. Os Red Devils chegariam à fase seguinte naquela Champions, mas sucumbiram ao chute mais famoso de Robben, nas quartas de final.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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