Liga Europa

O título da Liga Europa sublinha a classe de Kostic, um camisa 10 excelente mesmo como ala

Kostic teve grandes momentos na campanha, em especial pelo recital no Camp Nou, e foi decisivo também na final

Alguns jogadores que arrebentam em ligas nacionais, muitas vezes, passam despercebidos por quem só observa Champions League. Filip Kostic se mantém por anos a fio entre os melhores alas do futebol europeu, mas olhares menos atentos à Bundesliga provavelmente esqueceriam seu nome. O futebol do sérvio desde que chegou ao Eintracht Frankfurt é gigante e ele até parecia fazer hora extra no clube, sem esconder o desejo também de experimentar novos ares. Restava ao camisa 10 trabalhar e fazer mais barulho através de sua bola. A Liga Europa, então, oferece a Kostic um grande palco. Não tem como ignorar a importância do jogador de 29 anos na campanha do campeão. É o craque do time e também um dos grandes responsáveis por uma conquista enorme às Águias. Fez a diferença na final, com mais uma assistência magistral.

Kostic começou sua carreira no Radnicki Kragujevac e por lá seria descoberto pelo Groningen. Seu destaque na Eredivisie é que proporcionou a mudança para a Alemanha. Atuando como ponta, o sérvio teve bons momentos em suas duas temporadas com o Stuttgart e também ganhou certo destaque em seus dois anos com o Hamburgo. Porém, eram dois times fracos que lutavam na rabeira da Bundesliga. Sua transferência, em ambos os casos, aconteceu por causa dos rebaixamentos sofridos. O potencial individual do camisa 10 acabava ofuscado pelos coletivos bagunçados em que precisava se encaixar. A primeira chance num time mais estruturado veio mesmo no Frankfurt, em 2018/19.

O Eintracht Frankfurt pagou €6 milhões pela transferência de Kostic, após emprestá-lo por uma temporada. Dá para chamar o negócio de uma grande pechincha, já que seus últimos meses com o Hamburgo foram os piores desde o desembarque na Alemanha. Porém, o sérvio se beneficiou com o crescimento do Frankfurt e também com a forma que acabava utilizado por Adi Hütter a partir de sua chegada. O camisa 10 geralmente aparecia como ponta nos Dinossauros e até como atacante centralizado atuou. Com as Águias, seria redefinido como ala esquerdo. Reinventou-se.

Kostic pôde aproveitar melhor suas virtudes na nova posição. Tinha o campo mais aberto para si e conseguia pensar melhor o jogo de trás. Não deixava de acelerar e de se mandar para o ataque nos contragolpes. Além disso, explorava suas características de dribles e passes. Poucos jogadores na Europa são tão precisos em seus cruzamentos do que o camisa 10. E isso ficou evidente em Frankfurt, com o time muitas vezes pendendo ao lado esquerdo para aproveitá-lo. Não foram poucos os atacantes que se esbaldaram com as assistências oferecidas por Kostic e renderam dinheiro às Águias.

A primeira temporada de Kostic foi aquela que o Frankfurt alcançou as semifinais da Liga Europa. Foi um dos destaques da campanha, especialmente decisivo contra o Benfica nas quartas de final. Já na Bundesliga, poucos jogadores foram tão produtivos ofensivamente quanto o sérvio – ainda mais entre os alas. Em suas três primeiras temporadas com o clube, registrou dois dígitos de assistências, chegando ao ápice com as 17 de 2020/21. Assim, levou as Águias para outra Liga Europa.

Quase que Kostic não fica para esta temporada. O Eintracht Frankfurt negociava a venda do ala para a Lazio e, em certo momento, a transferência parecia fadada a acontecer. Não deu certo por um insólito caso: segundo os alemães, os italianos erraram o e-mail na hora de oficializar a oferta. Mandaram para o “@eintrachtfranfurt.de”, faltando uma letra. O episódio gerou uma troca de acusações e os biancocelesti até afirmaram que os dirigentes germânicos agiram de má fé porque não queriam perder um dos seus melhores jogadores. Kostic sequer tinha treinado durante a semana final do mercado, em agosto, mas teria que permanecer no Deutsche Bank Park.

Com mais um ano garantido na Alemanha, Kostic reafirmou seu compromisso pelo clube com profissionalismo e novas partidaças. Não foi tão produtivo na Bundesliga quanto nas temporadas anteriores, mas também porque o Eintracht Frankfurt oscilou demais nessa campanha. Apesar disso, ele continuou como o melhor do time na competição e compensou também na Liga Europa. O camisa 10 teve noites mágicas desde a fase de grupos e arrebentou em diversos momentos dos mata-matas. Contra o Betis, a classificação teve sua participação nos dois jogos. Já diante do Barcelona, os históricos 3 a 2 no Camp Nou contaram com um recital do sérvio, o melhor em campo.

Kostic não apareceu tanto na semifinal contra o West Ham. Guardou o seu melhor para a decisão, contra o Rangers. Não foi a partida mais deslumbrante, mas o camisa 10 foi um dos jogadores mais efetivos. Criou chances, chamou o jogo, acelerou pelo lado esquerdo. E teve seu papel decisivo para garantir o empate, com mais um daqueles cruzamentos teleguiados, desta vez para a conclusão de Rafael Santos Borré. Na disputa por pênaltis, também assumiu a responsabilidade e guardou o seu. Não deveria ser diferente, como a grande referência técnica do time.

Em quatro anos de Eintracht Frankfurt, Kostic virou um dos principais símbolos da equipe atual e viraria rei se decidisse encerrar a carreira nas Águias. Com mais uma temporada no contrato, e aos 29 anos, talvez queria buscar uma experiência diferente da Alemanha. A idade pode pesar contra, mas qualidade não falta para se encaixar em diversas equipes, em especial aquelas que privilegiam o esquema com alas. E se alguém tinha dúvidas sobre o que o sérvio poderia fazer em grandes palcos, essa Liga Europa é a prova cabal de sua classe. Um dos camisas 10 que representam bem o número às costas, mesmo não jogando em uma posição clássica para a honraria.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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