Liga Europa

O que mudou desde a última vez que Manchester United e Sevilla se enfrentaram, dois anos atrás?

Wissam Ben-Yedder saiu do banco de reservas dois minutos antes de fazer o primeiro dos dois gols que deram ao Sevilla a vitória por 2 a 1 sobre o Manchester United, nas oitavas de final da Champions League. Foi em março de 2018, pouco mais de dois anos atrás, e no único confronto oficial da história entre os dois clubes, que os espanhóis eliminaram os ingleses. Período suficiente para que muita coisa mude no acelerado mundo do futebol.

Como chegam ambos à semifinal da Liga Europa, neste domingo, em relação àquelas duas partidas? Bom, para começar, Ben-Yedder agora joga no Monaco.

Sevilla

Monchi retorna ao Sevilla (Foto: reprodução)

As mudanças não demoraram. Logo depois de eliminar o Manchester United, o Sevilla entrou em uma sequência de nove jogos sem vitória que se espalharam por todas as competições. Em La Liga, contando o jogo anterior àquela eliminatória, foram quatro derrotas e três empates. O sonho de avançar à semifinal da Champions League esbarrou no Bayern de Munique. Perdeu por 2 a 1 no Ramón Sánchez e apenas empatou em Munique. O revés mais pesado foi na final da Copa do Rei. Iniesta fez seu último gol com a camisa do Barcelona na goleada por 5 a 0.

Vincenzo Montella, que havia assumido o time no lugar de Eduardo Berizzo, substituto de Jorge Sampaoli, foi demitido. Joaquin Caparrós, ex-treinador do clube entre 2000 e 2005, assumiu interinamente para terminar a temporada, sem cobrar salário, e conseguiu estancar a sangria. O próximo comandante foi Pablo Machín, que havia subido para a elite com o Girona e o deixara em uma respeitável décima posição.

Machín também não chegou longe. Cometeu o maior pecado possível no Sevilla: perdeu um mata-mata de Liga Europa. Foi à prorrogação contra o Slavia Praga, nas oitavas de final, chegou a abrir 3 a 2, mas levou a virada, sofrendo o último gol aos 14 minutos do segundo tempo. Caparrós, que havia sido nomeado diretor de futebol, tocou o barco até o fim. Embora tenha conseguido alguns bons resultados novamente, perdeu três vezes, empatou outra, e acabou a dois pontos de vaga na Champions League.

A correção de rota mais importante chegou no começo desta temporada, com o retorno de Monchi, diretor de futebol que estava na Roma e é creditado por montar os últimos times fortes do Sevilla. É um fã do conceito de comprar barato e vender caro, e principalmente, de aplicá-lo o máximo de vezes possível.

Dezesseis jogadores enfrentaram o Manchester United naquelas duas partidas: Sergio Rico, Gabriel Mercado, Clément Lenglet, Simon Kjaer, Sergio Escudero, Éver Banega, Franco Vázquez, Pablo Sarabia, Luis Muriel, Joaquín Correa, Ben Yedder, Johannes Geis, Guido Pizarro, Jesús Navas e Sandro Ramírez. Apenas quatro deles continuam no clube. Banega e Navas foram titulares contra o Wolverhampton nas quartas de final. Vázquez entrou no segundo tempo, e Escudero nem saiu do banco.

Isso significa que, em apenas dois anos, o Sevilla tem um time completamente diferente para enfrentar o Manchester United. E a maioria dos jogadores acabou de chegar. Monchi emprestou, vendeu ou deixou sair mais de 20 jogadores e contratou 17 – um deles, Chicharito, ficou apenas seis meses antes de se mudar para Los Angeles. Saldo negativo de aproximadamente € 50 milhões entre entradas e saídas.

O Sevilla enfrentou o Wolverhampton com Yassine Bounou, o Bono que não canta, no lugar de Tomas Vaclik, machucado, Navas, Jules Koundé, Diego Carlos, Sergio Reguillón, Banega, Fernando, Joan Jordán, Suso,  En-Nesyri e Lucas Ocampos entre os titulares. Vázquez, Munir e Luuk de Jong entraram no decorrer da partida. Com exceção de Navas, Banega e Vázquez, todos foram contratados nesta temporada.

O trabalho do treinador também é novo. Monchi entregou um equipa montada quase do zero a Julian Lopetegui, ex-treinador da seleção espanhola demitido às vésperas da Copa do Mundo porque havia aceitado comandar o Real Madrid  – e foi demitido rapidinho. Conseguiu o quarto lugar no Campeonato Espanhol, com vaga à próxima Champions League, e agora tem a missão de manter a tradição do Sevilla na Liga Europa.

Manchester United

Marcus Rashford e Ole Gunnar Solskjaer, do Manchester United (Divulgação/manutd.com)

A derrota para o Sevilla foi pesada, especialmente pelas circunstâncias. Havia arrancado um empate por 0 a 0 na Espanha, bem ao estilo que Mourinho pratica nesse tipo de jogo: travado, físico, sem fluência no ataque, com De Gea fazendo uma série de defesas importantes. Bastava vencer em Old Trafford e o placar seguia zerado até Wissam Ben Yedder sair do banco de reservas para marcar duas vezes e colocar os espanhóis na próxima fase.

A eliminação precoce e em casa por um time com condições financeiras muito menores não doeu tanto quanto ela ter sido consequência dos velhos problemas do United de Mourinho. Porque temporada teve resultados aceitáveis. O segundo lugar na Premier League, apesar dos 19 pontos para o Manchester City, ainda é a melhor colocação dos Red Devils na era pós-Ferguson. Ainda houve uma final de Copa da Inglaterra, com derrota para o Chelsea.

A pré-temporada foi difícil. Com a Copa do Mundo, os jogadores chegaram tarde e cansados. Mourinho reclamou disso, de Anthony Martial ter ficado tempo demais afastado quando teve um filho, dos amistosos que disputou nos EUA e principalmente da falta de apoio no mercado de transferências. Recebeu apenas Fred e Diogo Dalot da diretoria vermelha. Queria pelo menos mais dois jogadores. Afirmou que se contentaria com mais um. Nenhum foi contratado.

O desgaste tão comum na terceira temporada dos trabalhos de Mourinho se acentuou, o clima no clube foi ficando pior, as vitórias rarearam e uma derrota para o Liverpool, em que o Manchester United não teve a menor chance, foi a gota d’água para sua demissão. E aí o United decidiu seguir um outro caminho, meio que por acaso.

Após a aposentadoria de Ferguson, e do fracasso do sucessor escolhido a dedo, David Moyes, o clube apostava em grandes nomes para conduzir um clube agora estruturado às grandes glórias. Tentou Louis van Gaal antes de Mourinho. Na ausência de outro disponível, nomeou Ole Gunnar Solskjaer interinamente para terminar a temporada. Rosto famoso em Old Trafford, identificado com a torcida, um dos guardiões do legado de Ferguson. A surpresa é que deu mais certo do que inicialmente esperado.

O Manchester United de Solskjaer emendou uma sequência de vitórias e, principalmente, conseguiu uma virada espetacular contra o Paris Saint-Germain, vencendo no Parque dos Príncipes por 3 a 1, após derrota por 2 a 0 em Old Trafford. Embriagados de emoção, os diretores efetivaram Solskjaer. O rendimento caiu quase que imediatamente depois do anúncio e, com apenas duas vitórias nas últimas sete rodadas da Premier League, a vaga na próxima Champions League escapou.

O United ficou em uma situação desconfortável em que não poderia voltar atrás, mesmo se achasse que era o caso, para não admitir o erro, se considerasse um erro, especialmente porque Solskjaer é adorado pela torcida. Ao mesmo tempo, apostava no escuro porque o mesmo homem havia supervisionado uma grande reação e um grande declínio. Qual dos dois era o verdadeiro Solskjaer?

O júri ainda delibera. Confirmado, o norueguês começou a colocar em prática um projeto com jogadores mais jovens, um estilo mais rápido, ofensivo e dinâmico. Recebeu reforços importantes para a defesa (Maguire e Wan-Bissaka) e deixou Lukaku e Sánchez se juntarem à Internazionale. Os resultados na primeira metade da temporada talvez derrubassem um nome menos importante da história do Manchester United, com apenas oito vitórias até o Ano Novo e uma crônica dificuldade para enfrentar equipes mais fechadas – a maioria que enfrenta o maior campeão da Inglaterra.

Tudo mudou a partir de janeiro. A principal novidade do Manchester United foi a chegada de Bruno Fernandes, não apenas pela sua qualidade e suas características, mas pela maneira como ele se tornou um catalizador para que todos ao seu redor melhorassem. Principalmente depois da paralisação, com as recuperações físicas de Marcus Rashford e Paul Pogba, o United encaixou seu quinteto ofensivo, que também conta com Mason Greenwood e Anthony Martial, e arrancou ao quarto lugar do Campeonato Inglês.

A sequência boa de resultados deu moral para Solskjaer, aparentemente sem nenhum risco de demissão neste momento, mas há alguns pontos preocupantes. Por ter rodado muito pouco os titulares, o time parece chegar à semifinal da Liga Europa cansado e De Gea, o grande herói daquele 0 a 0 de dois anos atrás, passou por uma temporada de muita insegurança e algumas falhas, o que levou Sergio Romero a ser titular nas quartas de final.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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