Liga Europa

O gol na final foi um merecido prêmio à temporada de Gerard Moreno, um dos responsáveis pelo sucesso do Villarreal

Moreno somou sete gols e quatro assistências nos nove jogos dos mata-matas da Liga Europa, balançando as redes na decisão

O 2021 de Gerard Moreno já era suficientemente especial. O atacante vinha empilhando gols com a camisa do Villarreal desde janeiro, além de deixar sua marca na seleção espanhola. A partir do segundo dia do ano, o camisa 7 balançou as redes 24 vezes, mais que dobrando seu número de tentos nos primeiros meses da temporada. E o último gol de um 2020/21 tão inspirado seria, de quebra, o mais importante de sua carreira. O oportunismo de Moreno esteve expresso na final da Liga Europa e foi dele o tento no empate por 1 a 1 contra o Manchester United em Gdansk, que permitiria a conquista do título nos pênaltis. Não foi a atuação melhor ou mais presente do artilheiro, mas pouco importava. Seria ele um dos merecidos heróis, coroando o maior momento da história do Submarino Amarelo.

Gerard Moreno chegou ao Villarreal em 2010. O atacante tinha apenas 18 anos e foi descoberto pelo Submarino Amarelo quando empilhava gols nas categorias de base. Após iniciar sua trajetória nas canteras do Espanyol, o garoto estourou pelo Badalona. Já a ascensão no Madrigal seria passo a passo. Jogou nos juniores amarelos, passou pelo time C e também esteve na equipe B. Sua estreia na equipe principal do Villarreal aconteceu em 2012/13, na única temporada em que o clube figurou na segunda divisão nas duas últimas décadas. Faria três gols na campanha do acesso, mas acabou sendo emprestado ao Mallorca na temporada seguinte. Quando voltou, somou sete tentos pelo Submarino Amarelo em La Liga 2014/15.

Apesar do espaço no Villarreal, Moreno ainda tinha uma ligação forte com a Catalunha. Pôde cumprir seu sonho de estrear com a camisa do Espanyol em 2015/16, negociado com os Pericos. E seriam bons momentos vestindo blanquiazul. O atacante fez uma temporada mais tímida em seu primeiro ano, mas brilharia como titular absoluto nas duas campanhas seguintes. Registrou dois dígitos de gols em duas edições consecutivas de La Liga e virou uma das referências no Cornellà-El Prat. Por vezes, até a braçadeira de capitão usou. Todavia, também existia uma história a continuar no Madrigal.

Em 2018, Moreno retornou ao Villarreal. O Submarino Amarelo tinha 50% dos direitos do atacante, mas ainda assim desembolsou €20 milhões por sua volta. Trazia uma estrela para liderar a equipe. Em seu primeiro ano, Moreno encarou dificuldades. Numa temporada em que também disputava a Liga Europa, o Villarreal sentiu o desgaste e esteve muito aquém de sua capacidade. Contra os prognósticos, flertou com o rebaixamento ao longo de La Liga. Foram oito gols do camisa 7, que não emplacou de cara e até frequentou o banco, mas anotou tentos importantes na reta final para evitar o pior. Estava claro que o Submarino Amarelo, de qualquer forma, tinha time para almejar mais. E foi o que aconteceu na temporada seguinte.

Moreno, de fato, virou o goleador que se esperava em seu segundo ano. O Villarreal correspondia às expectativas e decolava, rumo à parte de cima da tabela. E a temporada de 2019/20 seria particularmente espetacular ao atacante. O camisa 7 acumulou 18 gols e seis assistências por La Liga. Se os cinco gols anotados nas primeiras quatro rodadas guardavam uma fase avassaladora, seus tentos no segundo turno se tornaram até mais importantes, firmando o Villarreal na quinta posição e garantindo a volta à Liga Europa. Moreno foi o jogador espanhol que mais balançou as redes no campeonato, recebendo o Troféu Zarra, e também ganhou as primeiras convocações para a seleção espanhola. O Submarino Amarelo recuperava seu protagonista.

Mas, para quem achava que Moreno já vinha bem, teria que esperar a atual temporada. O atacante atravessa um ano fora do comum. Repetir o Troféu Zarra é só um detalhe, diante de sua efetividade. Virou ainda mais preponderante em La Liga, com 23 gols e sete assistências. Se o Villarreal brigou pela Champions em parte da atual campanha, o camisa 7 é uma enorme explicação. Esteve em estado de graça em vários momentos e garantiu pontos importantes. A partir de fevereiro, foram 13 gols e cinco assistências em 17 aparições pelo Espanhol, mesmo voltando de uma lesão muscular. O artilheiro atingia o ápice da carreira. E isso se tornou mais perceptível na Liga Europa.

A fase de grupos pouco veria Moreno. Ele perdeu as duas primeiras partidas por lesão e foi poupado na última rodada, com o time já classificado. Quando entrou, veio do banco e passou em branco. O Villarreal priorizou mesmo a Liga Europa a partir dos mata-matas, quando suas perspectivas em La Liga não eram mais de se classificar à Champions. E o atacante manteve um nível altíssimo. Deu uma assistência na ida contra o Red Bull Salzburg, pelos 16-avos de final, e anotou os dois gols na vitória por 2 a 1 em casa na volta. Depois, nas oitavas, mais duas assistências contra o Dinamo Kiev na Ucrânia e dois gols na Espanha. Balançaria as redes tanto no primeiro quanto no segundo jogo diante do Dinamo Zagreb, pelas quartas. E, se passou em branco contra o Arsenal na semifinal, seria dele a assistência para o gol da vitória por 2 a 1 no Estádio de la Cerámica, que valeu a classificação à decisão.

Gerard Moreno chegou à final da Liga Europa como homem a ser marcado pelo Manchester United. Seu time não teria uma atuação tão ofensiva e nem criaria chances muito claras. Porém, uma mínima oportunidade bastou ao camisa 7. A partir de uma falta perfeitamente cobrada por Dani Parejo, ele se lançou na área. Mesmo segurado, mandou a bola para as redes. Foi seu sétimo gol na competição continental, seu 30° gol na temporada. E também o gol mais importante da história do Villarreal. O United empataria e o 1 a 1 ficaria no placar até o fim da prorrogação. Até que viesse a disputa por pênaltis.

A responsabilidade de abrir a contagem na marca da cal recaía a Moreno. E existia um simbolismo ali naquela cobrança. Por mais que a mente devesse afastar os pensamentos ruins, certamente muitos torcedores do Villarreal pensaram no penal desperdiçado por Juan Román Riquelme nas semifinais da Champions League de 2005/06. Aquele erro tinha culminado no maior trauma do clube, nos pés do amado craque, impedindo a inédita final continental. Para Moreno, era esse o peso que vinha sobre seus ombros. Mas a um especialista nas penalidades, com 12 gols assim na temporada e nenhum erro, a precisão prevaleceria. Moreno converteu e viu todos os dez companheiros serem perfeitos nos 11 metros, até Géronimo Rulli pegar o tiro de David de Gea e garantir o troféu ao Villarreal.

Gerard Moreno não é o jogador mais talentoso que já passou pelo Villarreal, nem o mais idolatrado. Porém, fica difícil de questioná-lo como o mais decisivo. O camisa 7 terminou a Liga Europa como o grande condutor do Submarino Amarelo ao seu primeiro título. Conseguiu o que outros craques não foram capazes. E chega em alta para a Eurocopa, podendo mesmo ocupar a posição de titular na seleção espanhola, considerando que não há nenhuma unanimidade no ataque. Moreno é exatamente o homem de referência em melhor fase. Aos 29 anos, terá a chance de disputar a sua primeira competição internacional com a Roja e logo mais também estreará na Champions. Pode não ter passado por algum dos clubes midiáticos de La Liga. Mas, pelo que fez nesta temporada, se grava como um nome para ser lembrado no “Villarreal de Moreno”. E as portas se abrem para ainda mais nos próximos meses.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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