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Mais do mesmo

Mais do que um bom começo de temporada, o Sporting que encerrou 2011 dava a sensação de viver um novo momento. Havia ali um projeto, para o qual foram trazidos reforços importantes para as posições mais carentes do grupo e um dos treinadores mais promissores da Europa. Parecia também existir a ciência de que a briga da equipe para 2011/12 era mesmo pelo terceiro lugar da Liga, que ratificaria o retorno à Liga dos Campeões e permitira aos Leões darem voos mais ousados nas épocas posteriores. Era passada a sensação de que a diretoria de Godinho Lopes – eleito presidente do clube após José Eduardo Bettencourt “pedir para sair” no meio da última temporada – de fato trazia uma aura nova para Alvalade. Mas já na primeira má fase, vê-se mais do mesmo que se acostumou a ver no lado verde de Lisboa no passado recente. Cerca de sete meses depois do início do projeto, o técnico Domingos Paciência foi mandado embora.

Antes de tudo, é preciso concordar que o trabalho de Domingos caíra bastante de produção de 2011 para cá. Os números, ainda que frios, não enganam. Até o último jogo do ano passado (vitória por 3 a 0 sobre o Marítimo), eram 24 jogos, com 17 vitórias, três empates e só quatro derrotas (sendo apenas duas com a equipe titular completa, já que nas partidas de volta ante Vaslui e Lazio o Sporting foi a campo com time misto), com um excelente aproveitamento de 75%. Já em 2012, foram 12 jogos e somente duas vitórias, com sete empates e três derrotas (36% de aproveitamento, portanto). Além disso, o treinador que tanto soube tirar leite de pedra com o elenco do Braga em 2010/11, foi perdendo a mão à medida que seus titulares começaram a ser suspensos ou se lesionarem — o que, diga-se, nem ocorreu com tanta frequência assim como Domingos costumou reclamar. O técnico, por exemplo, não encontrou um substituto à altura de Fito Rinaudo (lesionado entre novembro e janeiro) e insistiu várias vezes no limitado Pereirinha.

Claro que uma queda de produção tão vertiginosa deve ser mais bem avaliada. Mas o momento não era o mais apropriado para que Domingos fosse mandado embora — especialmente tendo em vista a justificativa dada pelos Leões, de que a eliminação na fase de grupos da Taça da Liga e o quinto lugar na tabela estavam abaixo dos objetivos do Sporting. E aí, não se ponderaram quatro fatores: o clube tinha acabado de chegar à final da Taça de Portugal; a Taça da Liga é um torneio inútil e gera falsa sensação de sucesso (aos grandes, no caso); ainda restam 12 jogos para o fim da Liga Portuguesa e é muito improvável que Braga e Marítimo não percam pontos nesse percurso; e a demissão veio restando menos de uma semana para a estreia leonina na fase final da Liga Europa. Havia tempo hábil para se trabalhar em grupo (comissão técnica e diretoria) o que vinha dando errado — até porque o Sporting teria uma sequência acessível de jogos pelo menos até abril.

A escolha de Ricardo Sá Pinto para o lugar de Domingos foi elogiada, mas deixa lá suas dúvidas. Não que o ex-jogador do Sporting não tenha capacidade para o trabalho — pelo contrário: é alguém ligado e identificado com os Leões, que poderá dar mais empolgação ao elenco e não é inferior a nenhum nome disponível hoje no mercado. Contudo, ou Sá Pinto (que comandava a equipe de juniores dos Leões) foi promovido às pressas por se temer uma demora a se encontrar alguém para a vaga — o que demonstraria falta total de planejamento — ou a saída de Domingos vinha sendo arquitetada antes do final de semana (o que é meio cruel de se imaginar). Pode até ser que o novo técnico vingue e repita Paulo Bento, que passou por transição semelhante em 2006 e acabou se firmando por quase quatro temporadas no clube, ganhando duas Taças de Portugal e levando os alviverdes a seguidas edições da Liga dos Campeões. Mas é uma aposta. E apostas são passíveis de sorte. Ou azar.

A demissão dessa semana é fato corriqueiro. Desde que Paulo Bento deixou o Sporting, em 2009, e até a confirmação de Sá Pinto, outros quatro comandantes já sentaram no banco leonino: Carlos Carvalhal, Paulo Sérgio, José Couceiro e Domingos. Em uma conta rápida: com Sá Pinto, são seis os técnicos que assumiram o Sporting em três temporadas — dois por época, portanto. E quase todos os que saíram sucumbiram à pressão por resultados imediatos. A exceção aí é o próprio Paulo Bento, que enquanto levantou duas Taças de Portugal e conseguia manter os Leões ao menos em segundo na tabela e a frente do Benfica, vinha se sustentando até se constatar que ficara mais tempo do que deveria. O problema é que os quatro vices nacionais (entre 2006 e 2009) e as duas Taças, embora relevantes, “camuflaram” a dependência de certos atletas (Liedson e João Moutinho, por exemplo) e a falta de mão na contratação de reforços, trazidos à rodo.

Mais do que títulos, o Sporting necessita é de um projeto que torne a conquista de torneios algo rotineiro, e não mais pontual. Precisa aceitar que, hoje, é o terceiro clube do país e trabalhar para tirar a diferença para Porto e Benfica — que não só aumenta como diminui para times menores mas bem estruturados, como o Braga. Reduzir essa elevada média de troca de técnicos — já que com tantas mentes e padrões de jogo diferentes refletidos em campo, não há trabalho ou projeto que se sustente — já é um passo básico. Para agora, os Leões ainda estão vivos na briga pelo terceiro passaporte português à LC (apesar dos oito pontos atrás dos Bracarenses, hoje os favoritos à vaga) e têm totais condições de despachar o polonês Legia na Liga Europa e de conquistar a Taça de Portugal ante a Acadêmica. Mas os resultados, por mais que sejam positivos, não podem esconder a necessidade de se rever os conceitos do que é planejamento em Alvalade.

Vivo e “morto”

Benfica e Braga sofreram derrotas diferentes em suas estreias nas fases finais, respectivamente, de Liga dos Campeões e Liga Europa. Debaixo de muito frio, as Águias tiveram uma atuação aquém do que vêm mostrando na temporada. Ainda assim, viveram alguns bons momentos contra o Zenit e, até o fim do jogo, arrancavam um proveitoso empate. Contudo, uma falha do lateral Maxi Pereira culminou no gol da vitória dos russos por 3 a 2, em São Petesburgo. Ainda assim, trata-se um resultado perfeitamente acessível aos Encarnados, já que um triunfo simples (1 a 0) ou até por 2 a 1 serão suficientes para classificar os portugueses às quartas de final. Já os Arsenalistas estão em maus lençóis. O time até equilibrava as ações com o Besiktas na etapa inicial, mas a expulsão de Helder Barbosa complicou a situação bracarense. A derrota por 2 a 0, em casa, foi pesada e deixou a fatura quase definida para o time turco. Ao Braga, resta focar de vez a Liga Portuguesa, na qual está em terceiro e com boas possibilidades de chegar à próxima Liga dos Campeões.

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Equipe Trivela

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