Liga Europa

Os filhos dos deuses voltam ao Olimpo: Ajax suporta a pressão e vai à final da Liga Europa

A história, que parecia apenas relegada ao passado, se repete de maneira surpreendente no presente. Depois de 21 anos, o Ajax está de volta a uma decisão continental. Sobrou emoção, faltou ar. Os Godenzonen (filhos dos deuses, em holandês) podem não contar com os craques das outras seis campanhas que terminaram em títulos, mas têm à disposição uma geração talentosíssima. E que, diante da vocação ofensiva, maltratou o coração de seus torcedores nesta Liga Europa. No fim das contas, as partidas cardíacas só valorizam o épico que se vive em Amsterdã. Que se sonha ainda mais, com o avanço à final em Solna. O Lyon não se entregou em nenhum momento, mesmo goleado por 4 a 1 no primeiro jogo. Pressionou demais no reencontro em sua casa, foi empurrado pela torcida, ficou a um gol da classificação. A centímetros, a segundos. Mas o apito derradeiro premiou os Ajacieden, com o triunfo por 5 a 4 no placar agregado, apesar da derrota por 3 a 1.

Desde os primeiros instantes, já dava para esperar um jogaço no Parc OL. Precisando do resultado, o Lyon tomou a iniciativa e começou partindo para cima. Alexandre Lacazette, de volta ao time, fazia uma diferença imensa ao ataque. No entanto, o Ajax ameaçava nos contragolpes. Criou duas excelentes chances, parando no goleiro Anthony Lopes. E abriu o placar aos 25 minutos. Aproveitando a avenida no lado direito da defesa francesa, Amin Younes enfiou a bola para Kasper Dolberg, dando um toque cheio de categoria por cima do goleiro adversário.

Até parecia que o Lyon tinha perdido as esperanças. O Ajax passou a controlar mais a posse de bola e rondava a área dos oponentes. O jogo estava sob controle dos holandeses, até uma reviravolta imensa ao final do primeiro tempo. Os erros da defesa visitante pesaram muito e os Gones buscaram a virada. Primeiro, em pênalti bobo cometido sobre Lacazette. O artilheiro partiu para a cobrança e converteu. Já nos acréscimos, Nabil Fekir encontrou um clarão na defesa Ajacieden, para que Lacazette anotasse mais um.

Assim, o cenário se transformou no segundo tempo. O que se viu foi um bombardeio do Lyon, pressionando demais. A defesa do Ajax até conseguia conter as ameaças, mas o time mal conseguia sair ao campo de ataque. Entretanto, nas melhores chances, os Gones perdoaram. Fekir isolou uma bola limpa aos 20 e André Onana fechou o ângulo de Maciej Rybus, em lance cara a cara aos 30. Do outro lado, saindo um pouco mais, principalmente com Bertrand Traoré, os Godenzonen tiveram o segundo tento negado pela trave. Donny van de Beek bateu colocado, mas seu chute estalou a forquilha. Detalhes, que custaram os batimentos aceleradíssimos nos minutos finais.

Logo na sequência, aos 35, o Lyon anotou o terceiro. Rybus cruzou e Rachid Ghezzal completou de cabeça. A partir de então, o confronto se transformou em um sufoco só. O Lyon se mandava todo para o ataque e esperava uma mínima brecha para forçar a prorrogação. A situação piorou aos 39, quando Nick Viergever cometeu falta na entrada da área e recebeu o segundo cartão amarelo. Com um a menos, os Ajacieden precisariam se segurar com unhas e dentes. Tiveram um bocado de sorte, especialmente pelo erro de Maxwel Cornet. O ponta recebeu livre dentro da área e teve toda a liberdade para bater cruzado. A bola passou pela mão de Onana. Todavia, saiu a centímetros da trave. Não era a noite do Lyon. Era a do Ajax, a sonhadíssima por 21 anos.

Em questão de investimento ou badalação de seus jogadores, o Ajax está passos atrás do Manchester United na decisão. Porém, por tudo o que tem ocorrido nesta Liga Europa, não dá para duvidar em nenhum momento dos holandeses. Cometeram erros, é verdade, mas também jogaram muita bola para consertá-los. E, principalmente, suportaram as situações de pressão. Para um elenco bastante jovem, a maneira como lidaram com as dificuldades é representativa. Agora, os meninos chegam para viver seu grande momento na Friends Arena. Para honrar o passado riquíssimo e, quem sabe, levantar a sétima taça europeia dos Godenzonen. Os gigantes estarão em sua décima final.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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