Liga Europa

Em sete anos, Östersunds foi da quarta divisão sueca a eliminar o Galatasaray na Liga Europa

O Galatasaray protagonizou o maior vexame da Liga Europa nesta segunda fase preliminar. Se o Rangers naufragou na etapa anterior contra o nanico Progrès Niederkorn, de Luxemburgo, o Cim Bom não ficou tão para trás, ao sucumbir diante do Östersunds. Uma eliminação marcada pela soberba dos turcos, que, depois da derrota por 2 a 0 na Suécia, acharam que iriam reverter facilmente o placar no reencontro em Istambul – algo claro nas palavras do técnico Igor Tudor durante a coletiva anterior ao jogo. Nesta quinta, o desdém dos Aslanlar contrastou com a garra dos suecos para segurar a vantagem. O capitão Brwa Nouri ainda deixou os visitantes em vantagem na Türk Telekom Arena, enquanto o gol de Ahmet Çalik foi insuficiente. O empate por 1 a 1 ganhou ares de épico aos pequeninos, fazendo história logo em seu primeiro confronto eliminatório por competições continentais. Já nas arquibancadas, a revolta se resumiu em um torcedor do Galatasaray que queimou a própria carteirinha de sócio.

O fracasso dos turcos, porém, é uma história menor diante do sucesso do Östersunds. Afinal, imagine o tamanho do feito para um clube fundado há 20 anos, que chegou à primeira divisão do Campeonato Sueco apenas em 2015. Os rubro-negros já tinham protagonizado um milagre no último ano, quando conquistaram a Copa da Suécia, desbancando o tradicional Norrköping na final. Ganharam o passaporte para além das fronteiras. E, logo na estreia europeia, coparam o Galatasaray.

Sediado na cidade homônima de 50 mil habitantes, o Östersunds nasceu a partir da fusão de várias pequenas equipes locais. E a ascensão do clube ajudou a valorizar o futebol em uma região de fortes ligações com os esportes de inverno. A própria Östersund é conhecida como “a cidade invernal”, recebendo diversas competições internacionais de modalidades do esqui e da patinação. Localizado bem no centro da Suécia, o município até já se candidatou como sede dos Jogos Olímpicos de inverno, sem grande sucesso. Embora o inverno local seja relativamente “quente” para a latitude, a paisagem costuma ficar branca entre os últimos e os primeiros meses do ano.

O grande responsável pelo sucesso do Östersunds é o técnico Graham Potter, inglês rodado por equipes médias e pequenas de seu país nos tempos de jogador. Após pendurar as chuteiras e pegar o diploma do novo ofício, o comandante aportou na Vinterstaden em 2010, logo após os rubro-negros caírem para a quarta divisão do Campeonato Sueco. Conquistou três acessos em cinco temporadas e, no ano em que o clube fez sua estreia na Allsvenskan, acabando na oitava colocação, também faturou a Copa da Suécia.

O trabalho de Potter no dia a dia do Östersunds vai além dos meros treinamentos. Para promover a união dos jogadores, o treinador realiza atividades culturais. Os atletas precisam escrever livros, criar exposições ou até mesmo atuar. Uma maneira não apenas de desenvolver o conhecimento de cada um em cenário além do futebol, como também de melhorar a interação interna. E o que pode parecer maluquice vem dando certo, como a própria vitória sobre o Galatasaray ajuda a demonstrar. “Isso definitivamente tira você de sua zona de conforto, mas nos tem ajudado como time”, declara o meia Jamie Hopcutt, ao site da Uefa.

O grupo de jogadores é formado basicamente por suecos, com algumas peças estrangeiras, sobretudo ingleses e africanos. O capitão Brwa Nouri possui convocações pelo Iraque, enquanto o meio-campista Fouad Bachirou atua pela equipe nacional de Comores. Além disso, os meias Ken Sema e Saman Ghoddos chegaram a integrar a seleção sueca durante amistosos em janeiro, em elenco formado apenas por jogadores locais. O segundo já teve seu nome vinculado na imprensa ao interesse de clubes como Ajax, Celtic e Hertha Berlim.

E o mais legal de tudo é que a cidade de Östersunds realmente tem abraçado o clube. A média de público aumenta gradativamente, chegando a quase 6 mil presentes por partida no Campeonato Sueco de 2016 – equivalente a 12% da população total do município. Já nesta quinta, cerca de 10 mil pessoas se reuniram para acompanhar o duelo em um telão. Certamente os vencedores serão recebidos como heróis na volta para casa.

Quinto colocado no Campeonato Sueco de 2017, o Östersunds permite-se sonhar mais. Afinal, na terceira fase preliminar fará o grande confronto alternativo da Liga Europa, enfrentando o Fola Esch, de Luxemburgo. Um jogo no qual o futebol será apenas o pano de fundo para as outras histórias que surgirão.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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