Liga Europa

Depois de uma dramática disputa nos pênaltis, o Villarreal supera o United e se coroa campeão da Liga Europa

O Submarino Amarelo encerrou sua campanha invicta com uma grande atuação coletiva na final em Gdansk

Uma cidade de 50 mil habitantes na Comunidade Valenciana está no mapa das competições continentais há quase duas décadas. Vila-Real ganhou fama graças ao seu clube de futebol, que ascendeu na pirâmide do Campeonato Espanhol e passou a frequentar os torneios da Uefa, muitas vezes com boas campanhas. Já nesta quarta-feira, o Villarreal coloca sua cidade de vez na história das copas europeias. O Submarino Amarelo é o novo campeão da Liga Europa. A campanha fantástica do time de Unai Emery desembocaria numa final dramática, contra um Manchester United mais badalado. Os espanhóis saíram na frente em Gdansk e tomaram o empate, mas a decisão travada ficaria mesmo no 1 a 1 e iria para os pênaltis. Então, na marca da cal, foram necessárias 22 batidas até que a taça fosse definida. Os cobradores eram perfeitos, até os goleiros partirem aos chutes. Géronimo Rulli marcou o seu e pegou o de David de Gea. O triunfo por 11 a 10 grava o maior feito do Villarreal, no primeiro título de sua história.

A conquista do Villarreal guarda ótimas histórias. É a saga de Fernando Roig, o presidente que conduziu um clube pouco conhecido da segundona espanhola à elite europeia. É a capacidade de Unai Emery, se redimindo das frustrações em outros clubes na competição que conhece tão bem. É a liderança de Raúl Albiol, a maestria de Dani Parejo, o faro de gol de Gerard Moreno. E também a estrela de Rulli, o goleiro reserva na liga nacional, mas titular na copa europeia, que bota o Submarino Amarelo no topo do pódio. De quebra, o time também pega um atalho e se garante na próxima Champions League.

Unai Emery escalou o Villarreal com boa parte da base que conduz a campanha nesta Liga Europa. Raúl Albiol, Pau Torres, Dani Parejo, Manu Trigueros e Gerard Moreno formam a espinha dorsal do Submarino Amarelo. A principal ausência era a de Samuel Chukwueze, lesionado, que deu lugar a Yéremi Pino. Já na frente, o treinador optou por Carlos Bacca e deixou Paco Alcácer na reserva. Ole Gunnar Solskjaer, por sua vez, mantinha David de Gea no gol para a competição continental e, sem que Harry Maguire esteja 100%, formou a dupla de zaga com Eric Bailly e Victor Lindelöf. Fred era outro com problemas físicos, permitindo que Paul Pogba e Scott McTominay aparecessem na cabeça de área. Já na frente o Manchester United contava com uma equipe leve. Mason Greenwood, Bruno Fernandes e Marcus Rashford formavam uma trinca, com Edinson Cavani na referência.

O primeiro tempo em Gdanski pendeu inicialmente ao Manchester United. Os Red Devils ficavam mais com a bola no campo de ataque e colocavam o Villarreal contra a parede, tentando abrir espaços. No entanto, o Submarino Amarelo cumpria muito bem seu papel na marcação, com linhas sólidas. A proteção não concedia chances claras aos ingleses e, aos poucos, os espanhóis passaram a se soltar. O combate se adiantou, enquanto o time de Unai Emery levava perigo a partir das bolas paradas. Seria o caminho para que o placar fosse aberto aos 29 minutos.

Gerard Moreno, implacável nesta temporada com o Villarreal, balançou as redes. A partir de uma bola roubada, Cavani cometeu falta na intermediária sobre Parejo. Foi a chance para o meio-campista cruzar a bola e conectar com Moreno. O atacante passou por trás da marcação e, mesmo com a camisa puxada por Lindelöf, conseguiu mandar para dentro. O tentou baqueou o United, que demorou a reagir. A capacidade criativa dos Red Devils era limitada, com Bruno Fernandes pouco aparecendo. Cavani brigava na frente, mas sem colaboração dos companheiros. A maior brecha aconteceu já aos 45, num bom lance de Greenwood pela direita. Albiol, porém, evitou que a bola chegasse a Cavani e Géronimo Rulli segurou em cima da linha.

Na volta ao segundo tempo, o Villarreal parecia até capaz de marcar o segundo. A defesa do United não transmitia confiança e uma série de rebatidas na área gerava temores. Contudo, Cavani estava do outro lado. O empate saiu logo aos dez minutos. Na sobra de um escanteio, Rashford chutou em cima da marcação. A bola respingou na área e ficou limpa para o uruguaio concluir. Havia dúvidas sobre seu posicionamento, mas o VAR indicou que as condições eram legais. Quase a virada veio dois minutos depois, numa batida cruzada de Bruno Fernandes que Cavani não conseguiu completar.

Unai Emery respondeu ao gol fechando seu time, com Etienne Capoue no lugar de Carlos Bacca. A decisão não foi boa, com o Manchester United intensificando sua blitz e pressionando a saída de bola. O abafa pela virada se tornava sufocante e as oportunidades se emendavam. Bruno Fernandes escapou pela direita e cruzou, mas Rashford errou o alvo quando estava sozinho com Rulli – o atacante, de qualquer forma, estava impedido. Logo depois, Luke Shaw fez uma jogadaça pela esquerda e Cavani cabeceou, mas Pau Torres evitou o tento quase em cima da linha. Só então Emery mudaria de novo, botando Alcácer e Moi Gómez.

O Villarreal celebra em Gdansk (Foto: Imago / One Football)

Os minutos finais caíram um pouco de ritmo. A partida seguia controlada pelo Manchester United, mas sem oportunidades tão claras. Luke Shaw ainda quase arrancou um cartão vermelho de Juan Foyth, que entrou com as travas na perna do inglês, mas recebeu apenas o amarelo. Enquanto isso, o Villarreal dependia de espasmos. Até pôde alçar a bola na área durante os acréscimos, mas Pau Torres não pegou em cheio e mandou o chute sem muita direção. Foi o último lance perigoso antes da prorrogação.

O jogo mudou de figura no tempo extra. O Manchester United não tinha gastado suas alterações, enquanto o Villarreal havia feito cinco trocas, mudando também seus laterais. Mais inteiro, o Submarino Amarelo tomou o controle e passou a atuar no ataque. Mas não que criasse tanto. Solskjaer só mexeu no time com 101 minutos de bola rolando, ao botar Fred na vaga de Greenwood. A prorrogação seria arrastada, ainda mais no segundo tempo. A tensão pairava no ar em Gdansk, com times cansados e muitas paralisações. No máximo, houve um pedido de pênalti por toque de mão de Fred na área que a arbitragem não marcou. Tudo se encaminhou até a disputa por pênaltis. Solskjaer até botou Juan Mata e Alex Telles para as cobranças.

O Villarreal começou batendo. Gerard Moreno venceu De Gea. Na sequência, os próximos nove batedores fizeram: Mata, Dani Raba, Alex Telles, Paco Alcácer, Bruno Fernandes, Alberto Moreno, Marcus Rashford, Dani Parejo e Edinson Cavani. Os goleiros chegavam perto de defender e até tocaram em algumas bolas, sem sucesso até então. Nas alternadas, Moi Gómez e Fred assinalaram na primeira série, enquanto Albiol e Daniel James marcaram na segunda. Coquelin fez no oitavo tiro dos espanhóis e Shaw marcou mesmo depois de Rulli tocar na bola. Mario Gaspar e Axel Tuanzebe seguiram acertando tudo, assim como Pau Torres e Lindelöf. Por fim, a responsabilidade coube aos goleiros. Rulli encheu o pé e mandou no ângulo. De Gea não teria a mesma competência e, num chute fraco, Rulli garantiu o triunfo por 11 a 10.

Apesar do favoritismo, o Manchester United não aproveitou seus momentos na final. A superioridade no papel não esteve expressa em campo, diante do excelente trabalho coletivo do Villarreal. E o drama dos pênaltis premia uma campanha impecável do Submarino Amarelo na Liga Europa. Foram 12 vitórias e três empates numa trajetória invicta. Se demorou para que a definição acontecesse em Gdansk, o time de Unai Emery soube encarar adversários mais badalados e exibir sua consistência. Depois de uma série de grandes campanhas nas copas europeias nas duas últimas décadas, o Villarreal eterniza seu nome história como campeão. E o treinador, especialista na competição continental, tem méritos expressos nisso.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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