Liga Europa
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Confronto a confronto, um mini-guia dos 16-avos de final da Liga Europa

Com o início dos mata-matas da Liga Europa nesta quinta-feira, preparamos um mini-guia com destaques de cada time

De todas as mudanças feitas pela Uefa na temporada passada em suas competições continentais, o maior acerto talvez tenha acontecido na Liga Europa. O torneio se tornou muito mais interessante com as alterações de regulamento. Há uma fase de grupos mais enxuta, mais equilibrada e mais aberta a surpresas. Além disso, o nível dos times que já estão no torneio é alto o suficiente para bater de frente com quem vem repescado da Champions. Resultado: em termos de imprevisibilidade nos mata-matas, a Liga Europa supera a competição principal. E possui sua dose de alternatividade, não tão grande quanto a Conference, mas em doses suficientes para promover ótimas histórias.

A primeira fase dos mata-matas da Liga Europa, equivalente aos 16-avos de final, já reforça essa sensação de qualidade aliada à imprevisibilidade. Serão ótimos jogos entre os times que vieram repescados da Champions e os vice-líderes das chaves da LE. O grande atrativo fica para o Barcelona x Manchester United, que, pelo momento dos times, faria ambos fortes candidatos inclusive se estivessem na LC. No mais, há muitos confrontos abertos e times aptos a sonhar, tal qual aconteceu com o Eintracht Frankfurt no último ano. Num cenário mais resguardado em relação ao poderio financeiro dos superclubes, as chances de variar os campeões são maiores que na Champions. E muita gente parece disposta a surpreender nesta edição.

Vale lembrar que os líderes dos oito grupos da Liga Europa avançaram direto às oitavas de final e aguardam os vencedores dos 16-avos. Os classificados por antecipação são: Arsenal, Fenerbahçe, Betis, Union St. Gilloise, Real Sociedad, Feyenoord, Freiburg e Ferencváros. Abaixo, preparamos um mini-guia para detalhar a temporada dos times dos 16-avos e também seus destaques.

Barcelona x Manchester United

(Alex Caparros/Getty Images/One Football)

Barcelona

A Champions League representou um fiasco numa temporada em que o Barcelona ganha consistência. Foi um ponto fora da curva, entre a custosa derrota para o Bayern em Munique na segunda rodada e a incapacidade de competir com a Internazionale depois. Porém, desde então, a impressão é de que o Barcelona amadureceu. Ainda não é um time pronto, pois há uma clara margem de evolução em seu jogo. O ataque nem sempre flui como deveria e os placares andam bastante magros. No entanto, Xavi conseguiu montar uma das melhores defesas da Europa e isso contribui bastante para os sucessos recentes dos blaugranas. A campanha em La Liga é excelente, com 18 vitórias em 21 rodadas. Impressionam os míseros sete gols sofridos pelo time, que ganhou seus últimos seis compromissos pela competição. O Barça também avançou à semifinal da Copa do Rei e, de quebra, conquistou a Supercopa da Espanha na decisão contra o Real Madrid. A Liga Europa pode oferecer uma ambição a mais, e não um estorvo, como na temporada anterior.

Já dentro de campo, sobra qualidade à disposição do Barcelona. Robert Lewandowski faz uma ótima temporada de estreia, como se esperava, e o time tantas vezes sentiu a ausência de seu artilheiro quando ele não esteve presente. Quem também vem entregando bastante são Gavi e principalmente Pedri, responsáveis diretos pela ótima sequência dos blaugranas. Isso sem negar a capacidade defensiva, com Ronald Araujo e Andreas Christensen formando uma dupla segura, com o apoio de Jules Koundé como solução na lateral direita. Já no gol, Marc-André ter Stegen voltou ao melhor de sua carreira e permite tamanha imposição do Barça. O grande lamento fica para a ausência de Ousmane Dembélé, outro protagonista da temporada, lesionado. E vai ser interessante ver o encontro de Frenkie de Jong com o Manchester United após tantas especulações sobre sua transferência em agosto.

Marcus Rashford e Casemiro comemoram (reprodução)

Manchester United

O Manchester United conseguiu deixar para trás o início de temporada instável, de derrotas acachapantes e temores de um novo tiro n’água na escolha de seu treinador. Erik ten Hag não começou bem, mas teve a capacidade de transformar as perspectivas da equipe – auxiliado também pela chegada de Casemiro e pela forma como diversos jogadores elevaram seu rendimento. Ainda existiram períodos mais incertos, mas a sequência recente na Premier League é ótima. A única derrota aconteceu mesmo para o Arsenal, em circunstâncias totalmente compreensíveis, enquanto a Copa da Liga pode render inclusive taça em breve. Os Red Devils se consolidaram no G-4 do Campeonato Inglês e uma reviravolta em busca do título nem está fora de cogitação. Ainda há água para passar sob a ponte. Por isso mesmo, no caso do United, a Liga Europa parece mais supérflua. Não deve ser tratada como prioridade quando há outros objetivos mais abertos.

Ainda assim, mesmo sem tratar a Liga Europa no centro das atenções, o Manchester United já fez uma fase de grupos bem tranquila. Ganhou cinco partidas e só não passou em primeiro por causa da derrota para a Real Sociedad na estreia. E o elenco ganhou alternativas para lidar com as diferentes frentes. Nomes como Alejandro Garnacho e Jadon Sancho podem aproveitar o torneio secundário, por exemplo. Os holofotes, de qualquer maneira, não podem sair de Marcus Rashford e sua fase exuberante. É o jogador que demanda mais cuidados. Bruno Fernandes, Casemiro, Raphaël Varane e David de Gea formam uma espinha dorsal importante, enquanto o jogo pelas laterais ganha força com Tyrell Malacia e Diogo Dalot. Para o primeiro encontro com o Barcelona, o United lamenta um pouco mais a quantidade de desfalques. O departamento médico anda cheio, incluindo Antony e Christian Eriksen. Além disso, Lisandro Martínez e Marcel Sabitzer estarão suspensos.

Union Berlim x Ajax

(Maja Hitij/Getty Images/One Football)

Union Berlim

A temporada fantástica do Union Berlim possui um extra com a campanha firme na Liga Europa. Até parecia que os Eisernen não teriam fôlego para o torneio continental, com duas derrotas nas duas primeiras rodadas. Porém, a equipe emendou quatro vitórias por 1 a 0 depois disso e, mesmo rodando peças, reforçou a identidade como um time combativo e fatal. Assim, os berlinenses seguem vivos em todas as frentes de disputa. Também estão nas quartas de final da Copa da Alemanha, enquanto se apresentam como a principal ameaça ao Bayern de Munique na Bundesliga. O Union passou seis rodadas na liderança e acumulou tropeços antes da pausa para a Copa do Mundo, mas os meses de trabalho na virada do ano auxiliaram Urs Fischer a recolocar a equipe nos trilhos. É o que se nota pelas cinco vitórias consecutivas na liga desde janeiro, com ótimas reações e ideias de jogo preservadas.

O Union Berlim garantiu mais profundidade ao seu elenco na janela de inverno. A equipe fez bons negócios, especialmente ao trazer o lateral Josip Juranovic e o volante Aïssa Laïdouni, em alta após a Copa do Mundo. Ambos já fazem a diferença na Bundesliga. O protagonismo na temporada é do atacante Sheraldo Becker, mas outros destaques aparecem bem nas últimas vitórias. O goleiro Fredrik Rönnow, o zagueiro Danilho Doekhi e o atacante Kevin Behrens também foram decisivos. Conseguir um equilíbrio nem sempre é das missões mais simples, mas o Union consegue conciliar seus objetivos e possui um time que, por sua identidade, vai ser indigesto para a maioria dos oponentes nos mata-matas continentais. Para o primeiro encontro com o Ajax, dois desfalques importantes são o volante Janik Haberer e o lateral Christopher Trimmel, essenciais no sucesso, mas com reposições dignas.

(GERRIT VAN KEULEN/ANP/AFP via Getty Images/One Football)

Ajax

O Ajax sabia que esta seria uma temporada difícil. A quantidade de perdas no mercado de transferências desmontou a equipe titular e o trabalho de reconstrução pedia calma. Mesmo assim, os resultados da equipe ficaram aquém do esperado. A campanha na fase de grupos da Champions foi fraquíssima. Os Ajacieden até ganharam as duas do Rangers, em momento pior, mas foram presas fáceis para Napoli e Liverpool. Já na Eredivisie, só o início foi bom. Mais recentemente, a equipe chegou a ficar sete rodadas sem vencer, com seis empates, em sua pior sequência em jejum na história da competição. Alfred Schreuder não resistiu no comando técnico. John Heitinga assumiu de forma interina até o fim da temporada e, além da recuperação imediata na liga, conquistou a classificação na copa. Ao menos o clima é mais estável para tratar a Liga Europa como prioridade agora.

Um nome essencial na recuperação recente, e na temporada como um todo, é Mohammed Kudus. O atacante oferece sua versatilidade a serviço do time e tem sido muito efetivo nos últimos compromissos. Outras lideranças do ataque passam por momentos mais instáveis, como Dusan Tadic e Brian Brobbey, mas conseguem corresponder mais recentemente. Já na Champions, Steven Berghuis tinha se salvado um pouco no meio, como nome importante nos triunfos que renderam a vaga na Liga Europa. E se os Ajacieden contam com uma nova dupla de zaga, com o recuo de Edson Álvarez para auxiliar Jurrien Timber, também ganharam um goleiro mais confiável no mercado de inverno. Gerónimo Rulli, afinal, possui como principal feito em seu currículo a conquista da Liga Europa pelo Villarreal.

Roma x Red Bull Salzburg

Paulo Dybala comemora (Paolo Bruno/Getty Images)

Roma

José Mourinho surfou muito bem na conquista da Conference League, por tudo o que o título representou ao jejum da Roma e à carência de taças continentais. Já nesta temporada, sem que o time engrenasse tanto na Serie A, de novo a competição continental serve de esperanças. Porém, o desafio é maior na Liga Europa. Os giallorossi abusaram dos tropeços na fase de grupos, com derrotas para Ludogorets e Betis, mas se recuperaram para ficar na segunda colocação. É uma temporada oscilante como um todo, também na Serie A, na qual a Loba não consegue desfrutar de grandes sequências invictas. O time segue na briga pelo G-4, mas tropeços como o empate recente contra o Lecce atrapalham as ambições. O time ainda se despediu da Copa da Itália, eliminado pela Cremonese.

O grande nome da temporada da Roma é Paulo Dybala. Todo mundo esperava que o argentino emplacasse na capital, até pela forma como foi recebido com carinho, mas seu desempenho consegue superar as expectativas. As melhores atuações da Loba quase sempre passam por ele. Tammy Abraham poderia ser mais efetivo, mas continua com bons números, enquanto Lorenzo Pellegrini é outro que sobra em nível de talento. Mas não é uma equipe impecável, por vezes com problemas de segurar os resultados. O mercado de inverno garantiu a chegada de Ola Solbakken, destaque do Bodo/Glimt que pode aparecer mais na Liga Europa, torneio que conhece bem. Outra boa notícia é a recuperação de Georginio Wijnaldum no meio. Enquanto isso, os romanistas se despediram de Nicolò Zaniolo, de herói na Conference a figura indesejada na capital por toda a sua ingratidão em forçar uma transferência, acabando no Galatasaray.

Salzburg comemora o gol de Okafor (KERSTIN JOENSSON/AFP via Getty Images)

Red Bull Salzburg

O Red Bull Salzburg é um dos tantos times que vivem sua temporada basicamente por aquilo que podem fazer nas competições continentais. Dentro do Campeonato Austríaco, a hegemonia é enorme e parece pronta a se repetir. Os Touros Vermelhos até foram derrotados na segunda rodada, mas não sabem o que é perder desde então. Sustentam uma vantagem de seis pontos sobre o Sturm Graz na dianteira. Algoz na liga, o Sturm também teve o gosto de eliminar o Salzburg nos pênaltis pela Copa da Áustria. Nada que sirva de tanto lamento, quando a Liga Europa ainda pode contar com uma boa campanha. O clube da Red Bull veio da Champions, mas teve chances de classificação até a última rodada. Empatou seus primeiros embates com Milan e Chelsea, além de se dar melhor contra o Dinamo Zagreb pela terceira posição. Não é a Roma que intimida.

Há sempre uma intensa rotação no Red Bull Salzburg, pela capacidade do clube na revelação de talentos. Nesta temporada, o nome mais maduro para visar um próximo passo é o atacante Noah Okafor, artilheiro da equipe no Campeonato Austríaco e autor de gols importantes na Champions. Entretanto, as expectativas são até maiores sobre Benjamin Sesko, centroavante que une qualidade técnica e presença física. A variação no ataque anda alta, com o brasileiro Fernando e Junior Adamu também entre os melhores marcadores do time. Mais atrás, Luka Sucic e Nicolas Seiwald são figuras importantes na criação, enquanto Strahinja Pavlovic é um jogador de Copa do Mundo na zaga, onde desponta também o francês Oumar Soulet. O mercado de inverno ainda garantiu Oscar Gloukh, israelense de 18 anos com muito futuro na armação. No banco de reservas, o técnico Matthias Jaissle é outro prodígio, aos 34 anos.

Monaco x Bayer Leverkusen

(INA FASSBENDER/AFP via Getty Images/One Football)

Bayer Leverkusen

O Bayer Leverkusen vinha de uma temporada muito boa na Bundesliga e quebrou a cara com o péssimo início na atual, que culminou na demissão de Gerardo Seoane. Xabi Alonso ainda levou um tempo para melhorar os resultados na liga, mas evitou um prejuízo maior na Champions. É verdade que a única vitória no torneio, contra o Atlético de Madrid, aconteceu com Seoane. Ainda assim, os empates na reta final valeram a vaga na Liga Europa, com a queda dos colchoneros na lanterna. E a virada do ano também fez bem aos Aspirinas. A equipe chegou a emendar cinco vitórias consecutivas na Bundesliga, suficientes para afastar os riscos de rebaixamento e, apesar de derrotas mais recentes, a posição está segura na parte intermediária da tabela. Embora a distância para o G-4 não seja irreversível, o objetivo é a Liga Europa.

Um grande acréscimo do Leverkusen nas últimas semanas foi o retorno de Florian Wirtz, recuperado de grave lesão que o tirou da Copa do Mundo. É a referência no ataque, embora Moussa Diaby também viva ótima fase. Adam Hlozek, em quem muito se apostou na janela de transferências, enfim parece adaptado na BayArena e vem de boa sequência aberto na ponta. No meio, Jérémie Frimpong se destaca bastante na ala direita e vive uma fase de artilheiro, enquanto Robert Andrich é um operário de muita valia na engrenagem de Xabi Alonso. Já a defesa possui elementos bastante interessantes, especialmente com Piero Hincapié, nome bem cotado para as próximas janelas de transferências.

Ben Yedder, do Monaco (VALERY HACHE/AFP via Getty Images)

Monaco

O Monaco se acostumou a viver altos e baixos nos últimos meses. A equipe teve uma recuperação incrível na última Ligue 1, a partir da chegada do técnico Philippe Clément. Porém, o início da atual campanha foi ruim e o time chegou a beirar a zona de rebaixamento. Isso até que nova recuperação se iniciasse, para levar os alvirrubros às cabeças. A equipe sustenta uma invencibilidade de oito rodadas atualmente, com a cereja do bolo pelos 3 a 1 sobre o Paris Saint-Germain no final de semana. O time está em terceiro e deve brigar pelo menos por Champions. Já na Liga Europa, passou num grupo de adversários tradicionais. Acabou atrás do Ferencváros nos critérios de desempate, mas superou Trabzonspor e Estrela Vermelha.

O Monaco possui dois dos principais artilheiros da Ligue 1 na temporada. Wissam Ben Yedder e Breel Embolo entregaram 26 gols juntos, 14 do francês e 12 do suíço. Possuem características complementares para preocupar qualquer defesa. Ainda há a alternativa de Kevin Volland, embora o alemão tenha perdido espaço, com o garoto Eliesse Ben Seghir ganhando chances aos 17 anos. Aleksandr Golovin é outro que participa bastante do bom momento, entre as principais peças na criação, pelo lado esquerdo. E se a zaga possui uma boa dupla com Guillermo Maripán e Axel Disasi, com a proteção de Youssouf Fofana no meio, eles também garantem segurança para as subidas de Caio Henrique. O lateral esquerdo é o líder de assistências dos alvirrubros e faz mais uma temporada digna de elogios.

Juventus x Nantes

(Valerio Pennicino/Getty Images/One Football)

Juventus

A Juventus não pode renegar a oportunidade que se apresenta na Liga Europa. Os objetivos na Serie A estão muito distantes, ainda mais com o risco de perder novos pontos, diante de outras investigações em andamento. O torneio continental, desta maneira, é a chance de ter uma conquista de peso e ainda conseguir um atalho para a Champions League. Afinal, apesar de toda a história da Velha Senhora, novos troféus internacionais andam fazendo falta em seu museu nos anos recentes. É uma chance aberta, embora o desempenho em campo, independentemente dos imbróglios nos bastidores, deixe interrogações. A Juve foi péssima na fase de grupos da Champions. Foram cinco derrotas, duas para PSG e duas para Benfica, com o time batido até pelo Maccabi Haifa. Pelo menos os juventinos ficaram na Liga Europa pelos critérios de desempate. Já a campanha na Serie A teve uma boa guinada na metade final do primeiro turno, até a goleada sofrida contra o Napoli. Nos compromissos mais recentes, a equipe tenta se reajustar, depois dos efeitos que os 15 pontos perdidos na canetada geram.

Massimiliano Allegri tem elementos suficientes para brigar pela Liga Europa. O elenco da Juventus pode não ser o melhor montado, mas não se dispensa a qualidade de um clube que pode contar com um trio ofensivo do calibre de Dusan Vlahovic, Federico Chiesa e Ángel Di María. Adrien Rabiot vem em grande temporada no meio, enquanto Manuel Locatelli e Filip Kostic podem melhorar – o segundo, aliás, com o prêmio de melhor jogador da última Liga Europa. Já a zaga chegou a ter um período em que parecia intransponível, com o trio formado por Alex Sandro, Bremer e Danilo, além da qualidade de Wojciech Szczesny no gol, mas o setor sofre mais recentemente. Há ainda uma gama de garotos que podem aproveitar a rotação maior na Liga Europa. E o lesionado Paul Pogba, se por ventura voltar em breve.

(JEAN-FRANCOIS MONIER/AFP via Getty Images/One Football)

Nantes

O Nantes vive momentos de nostalgia com seus sucessos recentes. A conquista na Copa da França representou o fim do jejum de duas décadas nas competições nacionais. Já o reencontro com a Juventus remete a um dos períodos mais gloriosos do clube, quando os Canários jogavam por música e bateram de frente com a Velha Senhora nas semifinais da Champions em 1995/96. Os tempos são bem diferentes, mas pode ser uma motivação extra no Estádio de la Beaujoire. A temporada do Nantes na Ligue 1 é para evitar o rebaixamento. O time só venceu um jogo nas primeiras dez rodadas e ficou em penúltimo, mas se recuperou depois disso. As vitórias se tornaram mais frequentes nas últimas rodadas, sobretudo contra rivais diretos, o que garantiu fôlego. O sonho na Copa da França segue em pé nas quartas de final. Já na Liga Europa, por um momento a classificação parecia difícil, com só três pontos em quatro rodadas, além de goleada do Freiburg na França. A recuperação veio com triunfos decisivos diante de Qarabag e Olympiacos. Ninguém, todavia, com a capacidade competitiva da Juve.

Responsável pela conquista da Copa da França, Antoine Kombouaré se manteve no cargo mesmo com as turbulências recentes. O time demorou a se encaixar também por perdas importantes, como a de Randal Kolo Muani. E o investimento foi considerável na janela de inverno. Andy Delort chegou como nova referência no ataque, enquanto Florent Mollet é uma alternativa importante na armação. Ambos já ganharam a posição na equipe titular. De qualquer maneira, há muita gente boa que fez parte da conquista da Copa da França. Alban Lafont é um bom goleiro, com Jean-Charles Castelletto e Andrei Girotto entre os pilares no meio da zaga. Pedro Chirivella é o esteio na cabeça de área, com Moses Simon e Ludovic Blas de alternativas nas pontas. Outro reforço do início da temporada é o tarimbado Moussa Sissoko, mas em declínio.

Sevilla x PSV

Sevilla

O Sevilla convive com o caos a temporada inteira. E isso transpareceu especialmente na Champions. Os andaluzes tomaram algumas goleadas acachapantes, incluindo os 4 a 0 do Manchester City na estreia, em que pareciam inertes. Julen Lopetegui perdeu o emprego após os 4 a 1 do Dortmund no Nervión. O que salvou a campanha foi a vitória sobre o Copenhague, no que valeu a passagem à velha conhecida Liga Europa. E, agora com Jorge Sampaoli, o torneio se transforma no único estímulo para o primeiro semestre de 2023. O time segue em situação arriscada em La Liga, mas ganhou um respiro nas semanas recentes, com quatro vitórias nas últimas seis rodadas – fazendo o mesmo número de pontos que nas primeiras 15. Tem gente muito pior para cair em La Liga. Além disso, os sevillistas têm uma mística a honrar no torneio no qual têm seis troféus.

O elenco do Sevilla enfraqueceu na atual temporada, com perdas significativas que não tiveram reposições no mesmo nível. Apesar da pressão de Sampaoli, não foram muitos reforços na janela de inverno, e todos por empréstimo – Bryan Gil, Pape Gueye, Loïc Badé. A confiança se concentra também em quem já estava no elenco, e os rojiblancos podem render mais. Quem se destaca nas últimas partidas é Youssef En-Nesyri, enfim voltando a marcar gols. Bono possui papel muito importante na meta dos andaluzes. No mais, a equipe conta com uma quantidade razoável de jogadores experimentados, a exemplo de Jesús Navas, Nemanja Gudelj, Ivan Rakitic, Fernando Reges, Lucas Ocampos, Erik Lamela e Suso. Não é a versão mais forte do Sevilla, se comparada a outras formações campeãs da Liga Europa, mas dá para honrar o passado com um bom papel.

Xavi Simons, do PSV (MAURICE VAN STEEN/ANP/AFP via Getty Images)

PSV

O PSV terá uma tarefa muito difícil de se reorganizar na segunda metade da temporada. Os Boeren perderam alguns de seus maiores destaques na janela de transferências de inverno. O clube lucrou bastante, mas as saídas de Cody Gakpo e Noni Madueke são muito custosas em termos de produção ofensiva, assim como Philipp Max é outro titular que partiu. Não à toa, o impacto na tabela da Eredivisie se tornou inescapável. A equipe vinha muito bem até a pausa para a Copa do Mundo, se revezando na liderança e com derrotas esparsas. Entretanto, a retomada das atividades não foi boa para o técnico Ruud van Nistelrooy e os tropeços se tornaram mais constantes, derrubando os alvirrubros na tabela. Sonhar com o título continua acessível, assim como pensar na Copa da Holanda, com a vaga nas quartas de final. Resta saber se o elenco mais curto dará conta também da frente continental. Eliminado pelo Rangers nas preliminares da Champions, o PSV avançou numa chave da Liga Europa que também possuía Arsenal, Bodo/Glimt e Zurique, mas demorou para pegar embalo.

Sem Gakpo, o grande destaque do time é Xavi Simons. O meia desabrocha no PSV, depois de deixar o PSG, e tem feito maravilhas na Eredivisie. Aos 19 anos, já tem um papel fundamental na qualidade ofensiva da equipe. Luuk de Jong é o homem de referência, enquanto Guus Til também oferece bastante na definição das jogadas. Dois dos melhores nomes à disposição, Ibrahim Sangaré e Joey Veerman são pontos de equilíbrio na cabeça de área. Mais atrás, André Ramalho é uma opção rodada no miolo de zaga, enquanto Walter Benítez foi um reforço para a atual temporada no gol. Apesar das perdas sensíveis em janeiro, o PSV também trouxe novidades. Neste sentido, Thorgan Hazard é a esperança de incomodar os adversários na ponta esquerda. Fabio Silva também chegou para o ataque.

Rennes x Shakhtar Donetsk

Shakhtar Donetsk

O desempenho do Shakhtar na Champions League foi louvável, mesmo com a eliminação. Existiam muitas dúvidas sobre a capacidade dos ucranianos, que sofreram um desmanche em decorrência da guerra e sequer poderiam atuar em casa. Com um time composto basicamente por jogadores locais, muitos deles jovens, os Mineiros tiveram boas atuações. Golearam o RB Leipzig logo de cara e empataram outras três partidas, inclusive com o Real Madrid. A classificação às oitavas escapou, mas a vaga na Liga Europa já servia de alento. Até porque o grande objetivo na temporada é esse, enquanto o Campeonato Ucraniano acaba realizado aos trancos e barrancos. A guerra no país provocou adiamentos de partidas e as condições são limitadas. O clube de Donetsk, que há anos não pode atuar na sua cidade, persegue o líder Dnipro-1. A retomada da liga após a pausa de inverno só acontecerá em março.

Além do tempo sem partidas oficiais, o maior desafio para o Shakhtar será lidar com a ausência de Mykhaylo Mudryk. O ponta sobrou como melhor do time na Champions e, não à toa, virou uma aposta milionária do Chelsea. Os reforços por enquanto são locais, com destaque ao retorno do zagueiro Yaroslav Rakitskiy. O veterano pinta entre as lideranças, ao lado do goleiro Andriy Pyatov e do volante Taras Stepanenko. Entre os mais jovens, outros bons valores pintaram na Champions. Anatoliy Trubin foi o titular no gol e salvou em alguns momentos, enquanto Marian Shved e Oleksandr Zubkov produziram bem no setor ofensivo. O lateral brasileiro Lucas Taylor é um dos raros estrangeiros no presente elenco, assim como o centroavante burquinense Lassina Traoré. Já no banco, o croata Igor Jovicevic permanece com um bom trabalho técnico.

Rennes comemora contra o PSG (Foto: LOIC VENANCE/AFP via Getty Images/One Football)

Rennes

O Rennes se habituou às competições europeias nos últimos anos. Fez um bom papel na fase de grupos da Liga Europa, mesmo sem ficar com a primeira colocação. Os rubro-negros, inclusive, fecharam o Grupo B de maneira invicta. Ganharam três jogos e empataram outros três, em chave na qual tinham a concorrência de Fenerbahçe, AEK Larnaca e Dynamo Kiev. A campanha na Ligue 1 é que não engrena, com um começo ruim e, depois de uma série de resultados melhores, novas oscilações mais recentes. A sexta posição fica aquém das expectativas, com a briga na Champions já sete pontos distante. Outro lamento aconteceu na Copa da França, embora a eliminação diante do Olympique de Marseille seja compreensível.

Bruno Génésio faz um trabalho longo no Rennes. E o time possui bons valores, a começar por Amine Gouiri, atacante de faro de gol e qualidade técnica. A responsabilidade na frente aumentou, com a lesão de Martin Terrier e a saída de Kamaldeen Soulemana. De qualquer maneira, há mais gente para contribuir. Jérémy Doku e Arnaud Kalimuendo são jovens opções, enquanto Benjamin Bourigeaud e o recém-trazido Karl-Toko Ekambi têm mais rodagem. Também vale ficar de olho no ascendente Désiré Doué, meia de 17 anos que virou xodó. Na armação, Lovro Majer é ótimo. A defesa é liderada por Arthur Theate e ganhou Djed Spence na lateral. Já no gol, a experiência de Steve Mandanda vale demais.

Midtjylland x Sporting

Arthur Gomes, do Sporting (Foto: CARLOS COSTA/AFP via Getty Images/One Football)

Sporting

O Sporting não atravessa mais o melhor momento com Rúben Amorim. As perdas no elenco pesaram e a reposição não foi suficiente. Demorou para que o time engrenasse neste Campeonato Português e, com muitos tropeços, corre sérios riscos de sequer conseguir vaga na Champions, oito pontos abaixo do G-3 atualmente. O vice na Taça da Liga e a eliminação para o Varzim na Taça de Portugal pioraram as coisas. Assim, a Liga Europa vira tábua de salvação. A campanha na fase de grupos da Champions começou ótima, com vitórias sobre Eintracht Frankfurt e Tottenham. As derrotas contra o Olympique de Marseille fizeram os lisboetas desabarem, mas pelo menos deu para conseguir a terceira colocação e a sobrevida no torneio secundário.

O time que já estava enfraquecido ainda perdeu Pedro Porro no fechamento da janela, mas Héctor Bellerín pelo menos serve como uma boa novidade na lateral direita. Já a principal referência do Sporting é Pedro Gonçalves, o Pote, um dos principais responsáveis pelos gols do time desde a temporada do título português. Nos últimos meses, o ponta quebra o galho muitas vezes mais recuado como volante. Na frente, o centroavante Marcus Edwards também oferece muito espírito de luta e inteligência. Hidemasa Morita preenchia a lacuna no meio-campo ao lado de Manuel Ugarte, após as saídas de Matheus Nunes e João Palhinha, mas o japonês está machucado. Já na zaga, a braçadeira de capitão continua com Sebastián Coates, principal liderança dos leoninos.

Midtjylland comemora contra a Lazio (Foto: Marco Rosi – SS Lazio/Getty Images/One Football)

Midtjylland

O Midtjylland é talvez a principal exceção nesta fase dos mata-matas da Liga Europa, vindo de uma liga menos tradicional. E não que o desempenho dos tricolores no atual Campeonato Dinamarquês seja bom. A equipe ocupa a modesta sétima colocação, no momento fora até do hexagonal final. Apesar do equilíbrio no campeonato, já são 12 pontos atrás do líder Nordsjaelland, com apenas cinco vitórias em 17 rodadas. O interesse na Liga Europa se torna maior. A campanha longa se corresponde principalmente à goleada por 5 a 1 sobre a Lazio, tão espantosa quanto decisiva à classificação. Os nórdicos também empataram as duas com o Feyenoord e derrotaram o Sturm Graz na emocionante rodada decisiva, o que garantiu a passagem com somente oito pontos. Mas é um concorrente sob desconfiança, até pelas duras derrotas nas preliminares da Champions para o Benfica.

O Midtjylland permanece na pausa de inverno, e a falta de ritmo é uma questão. Como se não bastasse, dois de seus melhores jogadores saíram na janela de inverno. Evander arrumou as malas para o Portland Timbers e Anders Dreyer, artilheiro do time na temporada, seguiu para o Anderlecht. Entre os que ficam, Pione Sisto é um dos mais rodados do ataque, enquanto o garoto Gustav Isaksen deve ganhar importância, depois de já ter feito diferença na fase de grupos da Liga Europa. Na defesa, o goleiro Jonas Lössl e o zagueiro Erik Sviatchenko estão entre os mais experientes. E há a legião brasileira: o zagueiro Juninho, o lateral Paulinho, o volante Charles e o atacante Júnior Brumado. O técnico Albert Capellas, trazido do time B do Barcelona na atual temporada, ainda não conseguiu corresponder.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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