Liga Europa

Como foi a primeira conquista europeia do Eintracht Frankfurt: a Copa da Uefa de 1980, que premiou lendas do clube

Com uma reta final de campanha resolvida "entre alemães", o Frankfurt viveu o desfecho de anos marcantes ao clube

O Eintracht Frankfurt é um clube com uma história copeira. O único título no Campeonato Alemão veio nos tempos em que a competição ainda era organizada em mata-matas. Maior é o sucesso na Copa da Alemanha, com cinco taças. E um dos maiores orgulhos das Águias foi sua façanha europeia, na Copa da Uefa de 1979/80. A campanha serviu para coroar uma geração de grandes ídolos do clube, a maioria deles na reta final de suas carreiras. O Frankfurt superou adversários de peso na campanha e faria uma reta final “caseira”, despedaçando os sonhos de Bayern de Munique e Borussia Mönchengladbach. A superação da equipe foi notável ao longo daqueles meses, para render uma taça que representa muito também à identificação da torcida com as campanhas continentais – tão valorizadas nos últimos anos.

O Eintracht Frankfurt tinha experimentado o seu período de maior sucesso na virada dos anos 1950. As Águias conquistaram seu primeiro (e ainda único) título alemão em 1959 e disputaram na edição seguinte a Champions, em sua estreia nas competições continentais. Seria uma campanha inesquecível, em especial pelos 12 a 4 agregados emplacados sobre o Rangers nas semifinais, antes da derrota por 7 a 3 para o Real Madrid numa das mais lendárias finais da história. Não haveria grande continuidade daquele timaço, porém, cujos protagonistas já eram veteranos. O Frankfurt até fez campanhas na parte de cima da tabela da Bundesliga ao longo dos anos 1960, mas nada suficiente para levar a Salva de Prata.

Desta maneira, o Eintracht Frankfurt teve aparições esporádicas nas copas europeias depois daquele vice na Champions. Outro sucesso isolado viria na Copa das Cidades com Feiras de 1966/67, a antecessora da Copa da Uefa. As Águias eliminaram adversários respeitados na época, como o Ferencváros e o Burnley, mas caíram nas semifinais diante do Dinamo Zagreb. Após a vitória por 3 a 0 na ida, os alemães-ocidentais perderam a volta por 4 a 0 na Iugoslávia. Durante o fim da década de 1960, o Frankfurt perdeu forças na Bundesliga e até flertou com o rebaixamento. Seria um passo na beira do abismo, antes de um período mágico nos anos 1970.

O Eintracht Frankfurt montou uma de suas equipes mais talentosas a partir daquele momento, sob as ordens de Erich Ribbeck e depois de Dietrich Weise. As Águias eram reconhecidas pelo futebol vistoso e altamente técnico, com um time recheado de jogadores da seleção. O problema estava na postura de “Robin Hood” na Bundesliga, com pontos conquistados contra os principais adversários, mas derrotas para oponentes na rabeira da tabela. Com isso, o time que chegava a liderar o Campeonato Alemão por algumas rodadas acabava perdendo fôlego nos momentos decisivos e não passava da terceira colocação. Mais sucesso o Frankfurt faria na Copa da Alemanha, com as taças levantadas em 1974 e 1975. Com isso, as participações continentais também se tornaram mais frequentes.

Em 1975/76, o Eintracht Frankfurt voltou a desfrutar de uma longa campanha no cenário europeu, alcançando as semifinais da Recopa. As Águias deixaram pelo caminho o Atlético de Madrid, mas sucumbiram diante do West Ham na semifinal. Já em 1977/78, pela Copa da Uefa, o Frankfurt bateu nas quartas de final. A equipe fez o mais difícil ao eliminar o Bayern, até cair diante do Grasshopper. Os rubro-negros não apareciam necessariamente como uma potência nacional, mas ganhavam respeito internacional e apresentavam bons jogadores. Isso até que a quinta colocação na Bundesliga de 1978/79 valesse uma vaga na Copa da Uefa. Seria a quinta participação da equipe num torneio da Uefa em oito temporadas. Sem dúvidas, a mais inesquecível.

O Eintracht Frankfurt contava com um elenco bastante experiente naquele momento. As estrelas da companhia eram Jürgen Grabowski e Bernd Hölzenbein, dois craques desenvolvidos no próprio clube. A dupla havia liderado os anos dourados na década de 1970 e tinha enorme projeção, com ambos se tornando importantes na seleção – especialmente na conquista da Copa de 1974. A lista de medalhões também incluía Bernd Nickel, camisa 10 que não teve vida longa na Mannschaft, mas exibia enorme qualidade para bater na bola. Já na defesa, vindo de uma geração mais jovem, o zagueiro Charly Körbel era um símbolo de identificação com a agremiação.

O restante do elenco tinha sido formado a partir de 1974, num momento mais estável do Frankfurt. Willi Neuberger veio do Wuppertaler e estava entre os melhores laterais do país. O miolo da zaga ainda tinha Bruno Pezzey, austríaco que escreveria uma trajetória vitoriosa na Alemanha. No meio, o volante Ronny Borchers era outra cria da base que chegou a defender a seleção alemã por algumas partidas. Tinha companhia de Werner Lorant, bem mais rodado, trazido do Saarbrücken. O centroavante da equipe era Harald Karger, que começava a se desenvolver após ser pinçado nas divisões de acesso.

Chamavam atenção também algumas apostas inusitadas do Eintracht Frankfurt. O goleiro Jürgen Pahl e o meio-campista Norbert Nachtweih eram nascidos na Alemanha Oriental, contratados após fugirem do país em uma viagem com a seleção sub-21. Já a novidade daquela temporada para o ataque era Cha Bum-kun, um raro asiático se aventurando na Europa. O sul-coreano de 26 anos chegou à Alemanha Ocidental através do Darmstadt, mas teve problemas para ser liberado do serviço militar obrigatório em seu país. Após resolver a pendência, chegou como um velocista para ocupar a ponta direita das Águias.

O comando técnico, por fim, acabava sob as ordens de Friedel Rausch. O treinador de 39 anos tinha sua carreira fortemente ligada ao Schalke 04 e virava uma aposta das Águias, a partir de janeiro de 1979 – após Otto Knefler se afastar da função por conta de um acidente de carro. O novo técnico tentava ocupar uma lacuna em meio a trocas mais constantes nos anos anteriores, sem que medalhões como Dettmar Cramer e Gyula Lóránt durassem tanto na casamata. Rausch acabaria pegando o legado de seus antecessores, mas bateria de frente com os veteranos no início de seu trabalho. A ideia de afastar algumas peças e mudar outras de posição gerou atritos de início.

O Eintracht Frankfurt estreou na Bundesliga com derrota e parecia inserido numa crise pelos bastidores. Todavia, os resultados começaram a aparecer e aliviaram a barra de Rausch. Foram quatro vitórias consecutivas, que valeram a liderança, até uma derrota para o Schalke 04 na sexta rodada. Apesar dos entraves e de algumas lesões, o moral estava alto para a estreia na Copa da Uefa. O adversário na primeira fase era o Aberdeen, então um time em ascensão na Escócia. Sir Alex Ferguson era um novato comandante, cheio de futuras lendas alvirrubras em campo, como Gordon Strachan e Willie Miller, além de Steve Archibald no ataque.

A primeira partida aconteceu na Escócia e o Eintracht Frankfurt teve uma atuação satisfatória, com o empate por 1 a 1. As Águias começaram o duelo no comando e abriram o placar logo aos 13 minutos, com Cha Bum-kun, desperdiçando ainda outras chances. A reação do Aberdeen veio aos oito do segundo tempo, num lance em velocidade com Joe Harper. Os alvirrubros melhoraram e acertaram a trave com o Strachan, mas Neuberger ainda desperdiçou a oportunidade da vitória visitante no fim. A exibição das Águias rendeu elogios de Fergie: “O Eintracht jogou com tanta ousadia que não vejo hipóteses para nós na volta. Cha foi tão imprevisível que não conseguimos lidar com ele”.

O topo da Bundesliga não se sustentaria, mas o Eintracht Frankfurt começava a pegar embalo na Copa da Uefa. A classificação na primeira fase seria ratificada dentro do Waldstadion, com a vitória por 1 a 0 sobre o Aberdeen. Cha Bum-kun, em especial, arrebentou com os adversários. Os escoceses ainda levaram perigo no primeiro tempo e testaram o goleiro Klaus Funk. A melhora na segunda etapa foi liderada por Hölzenbein, que marcou o gol aos cinco minutos, aproveitando um ótimo passe de Cha. O Frankfurt poderia ter feito mais, com claro domínio, mas o travessão salvou os visitantes no fim quando Cha tentou o seu. “Estamos vencendo jogos que perderíamos na temporada passada. Costumávamos correr como loucos, mas o desempenho caía sem o gol. Agora esperamos e jogamos com calma”.

O adversário do Eintracht Frankfurt na segunda fase era o Dinamo Bucareste, costumeiro candidato ao título no Campeonato Romeno. Treinador da seleção local na Copa de 1970 e lenda do clube, Angelo Niculescu era o técnico. Em campo estava o líbero Cornel Dinu, também símbolo dos Cachorros Vermelhos. Tinha a companhia de outros jogadores da seleção, como Ionel Augustin, Gheorghe Multescu, Florin Cheran e Alexander Szatmári. A partida de ida, em Bucareste, preocupava os alemães por motivos políticos: temiam que os jogadores fugidos da Alemanha Oriental tivessem algum problema. Foi necessário fazer o meio-campo diplomático para conseguir garantias de que não ficariam retidos na Cortina de Ferro.

O Eintracht Frankfurt deu sorte de perder por 2 a 0 na Romênia. Dava para ter sido mais. O Dinamo abriu o placar num pênalti convertido por Multescu, aos 20 minutos, e acertou a trave três vezes só na primeira etapa. Os alemães melhoraram na segunda etapa, mas tomaram o segundo já aos 43, num arremate de Augustin que bateu na trave e no rosto do goleiro Funk antes de entrar. A volta necessitava de uma reação na Alemanha Ocidental, mas a boa notícia ficava para a recuperação de Nickel após lesão.

O Waldstadion se encheu com 30 mil pessoas. E o Eintracht Frankfurt não decepcionou sua gente, com a vitória por 3 a 0 sacramentada na prorrogação. Todavia, os anfitriões precisaram de paciência. Durante o primeiro tempo, o goleiro Constantin Stefan fechou sua meta. Somente aos 28 da segunda etapa é que o zero saiu do placar, numa cabeçada de Cha. A partir de então, as Águias se animaram. A pressão cresceu no final, especialmente após a expulsão de Multescu. E foi a 20 segundos do fim que Hölzenbein salvou os alemães, ao aproveitar uma rara falha do goleiro e finalizar sentado. Assim, forçou a prorrogação. Logo aos três minutos do tempo extra, Nickel fez o terceiro gol e encaminhou a classificação do Frankfurt. Dinu, lesionado, deixou o Dinamo com nove. Ainda assim, os romenos perderiam um gol feito na reta final, que quase provocou outra reviravolta.

As oitavas de final trariam outro duelo perigoso para o Frankfurt: o Feyenoord, que vinha de uma imponente década nas competições continentais (inclusive com o título da Copa da Uefa em 1974, além da Champions em 1970) e atravessava uma longa fase invicta. Vaclav Jezek, campeão da Euro com a Tchecoslováquia, era o treinador. A equipe ainda tinha Wim Jansen, Ben Wijnstekers e Michel van de Korput entre os jogadores da seleção local, além do dinamarquês Ivan Nielsen e do islandês Pétur Pétursson.

Por conta do jogo de camisas dos visitantes, o Eintracht Frankfurt atuou com o uniforme reserva no Waldstadion e entrou em campo com uma curiosa camisa verde.  Deu sorte, com uma inapelável goleada por 4 a 1. Os alemães mandaram até bola na trave, antes de Cha fazer o primeiro de cabeça e Nickel ampliar com um chute de longe, em falha do goleiro. Durante o segundo tempo, o Feyenoord partiu para o abafa e acertou a trave, mas se expôs. Em dois contra-ataques, Helmut Müller e Stefan Lottermann aumentaram a vantagem. Somente aos 41 é que os holandeses descontaram, num bonito chute de André Stafleu. A nota ruim ficava para a séria lesão de Nickel, com um problema ligamentar.

A parada estava encaminhada para o reencontro no Estádio de Kuip e, assim, a derrota por 1 a 0 não trouxe problemas ao Eintracht Frankfurt – mesmo sob grande pressão dos 60 mil nas arquibancadas. O gol do Feyenoord (agora de verde) seria anotado apenas aos 44 do segundo tempo, numa troca de passes concluída por Jan Peters. Foi uma partida muito pegada, em que o Frankfurt precisou se concentrar na defesa, mas também criou suas chances de vitória. E a tensão tomou conta da atmosfera. Houve brigas entre as torcidas, assim como uma chuva de objetos no início do segundo tempo que interrompeu o jogo. A violência também tomou conta das ruas de Roterdã, com pedradas nos ônibus e até coquetéis Molotov atirados contra carros com placas alemãs. Os visitantes costumavam ser insultados como “nazistas”.

Durante as quartas de final, o Eintracht Frankfurt voltou ao Leste Europeu. Enfrentaria o Zbrojovka Brno, clube que vivia seu auge no Campeonato Tchecoslovaco na virada de década e tinha levado o título nacional duas temporadas antes. O grande nome era o do técnico Josef Masopust, Bola de Ouro de 1962. Karel Jarusek, Karel Kroupa e Petr Janecka eram os destaques do meio para frente, todos convocados à seleção. Ainda assim, nem parecia o desafio mais duro dos alemães na campanha. Hölzenbein e Cha eram desfalques importantes por lesão, mas Nickel estava de volta ao time.

O Eintracht Frankfurt de novo goleou na partida de ida, dentro do Waldstadion, por 4 a 1. O primeiro tempo foi um pouco mais equilibrado. Nachtweih abriu o placar num chute da lateral, que contou com falha do goleiro, mas Stefan Horny empatou de cabeça. As Águias retomaram a vantagem pouco antes do intervalo, num pênalti convertido por Werner Lorant. Já no segundo tempo, Nickel fez o terceiro num contra-ataque e Karger fechou a contagem de cabeça. Grabowski também gastou a bola naquela noite, a ponto de ser elogiado por Masopust: “É uma super equipe, com dez grandes jogadores e um craque”. Aquele seria o último jogo do veterano nos torneios continentais. Pouco depois, em duelo contra o Borussia Mönchengladbach na Bundesliga, Grabi sofreu uma dura entrada do jovem Lothar Matthäus e foi direto para o hospital. Com uma fratura no pé, ainda tentaria seu retorno aos gramados, mas sua carreira se encerraria antes do esperado ato final na temporada.

Para a volta na Tchecoslováquia, o Frankfurt não teria Grabowski ou Hölzenbein. Porém, a derrota por 3 a 2 não atrapalhou a passagem rumo às semifinais. Horny abriu o placar de cabeça aos 10 para o Zbrojovka, mas Karger empatou oito minutos depois, em outra testada. As Águias ainda viraram aos 32 do segundo tempo, numa jogada de Neuberger. A vitória dos tchecoslovacos saiu depois dos 44, com gols tardios de Vitezslav Kotasek e Jan Kopanec. Nada que estragasse os planos dos alemães, que contaram com o apoio de 1,5 mil torcedores nas arquibancadas – entre eles, 500 simpatizantes que vieram da Alemanha Oriental.

As semifinais da Copa da Uefa de 1979/80 eram uma versão internacional da Pokal. De um lado, o Borussia Mönchengladbach pegaria o Stuttgart. Do outro, o desafio do Eintracht Frankfurt era o Bayern de Munique, que vinha num período de reconstrução liderado por Karl-Heinz Rummenigge – o Bola de Ouro daquela temporada. A geração tricampeã europeia era representada também pelo veterano Paul Breitner, já no meio-campo, enquanto Klaus Augenthaler e Dieter Hoeness surgiam como novas opções. O técnico era o húngaro Pál Csernai, que havia trabalhado no Frankfurt pouco antes, como assistente de Gyula Lóránt.

Duas semanas antes do jogo de ida pela Copa da Uefa, o Bayern derrotou o Frankfurt pela Bundesliga e praticamente encerrou qualquer pretensão de recuperação das Águias. Os bávaros levariam a Salva de Prata naquela temporada, após um jejum de seis anos. Já no Estádio Olímpico, também deu Bayern na semifinal europeia, mesmo com a presença de 15 mil torcedores visitantes invadindo a Baviera. A vitória dos anfitriões por 2 a 0 acabou construída no segundo tempo.

Durante a primeira etapa, o Frankfurt apresentou boa organização defensiva. Funk fez suas defesas e Lorant colou em Rummenigge, enquanto Hölzenbein puxou alguns contragolpes. A mudança no cenário se deu após o intervalo, especialmente com a entrada de Norbert Janzon no Bayern. Dieter Hoeness foi oportunista no primeiro gol, aos cinco minutos, num cruzamento de Janzon. As Águias saíram para o ataque e tiveram suas chances, com direito a bola na trave e gol anulado. Contudo, Paul Breitner converteu pênalti aos 30 e deu números finais ao embate. Ficaram os elogios de Csernai pela apresentação dos adversários: “Hoje nos faltou ritmo e energia, mas não ao Frankfurt. Eles estão expostos a menos estresse e realmente querem ir à final”.

O Waldstadion se preparou para uma grande batalha no reencontro com o Bayern. Mais de 50 mil pessoas lotaram as arquibancadas. O Eintracht Frankfurt precisava da força de sua torcida, num momento em que emendava derrotas na Bundesliga e se afastava inclusive da zona de classificação à Copa da Uefa. Uma novidade na escalação estava na escolha por Pahl no gol, e não Funk – “muito nervoso”, segundo o técnico Friedel Rausch. Naquele momento, as Águias precisavam de concentração e tranquilidade.

O Eintracht Frankfurt conseguiu emplacar uma histórica goleada por 5 a 1, que valeu a classificação, mas não deixou de ter sua dose de drama antes da prorrogação. O líbero Bruno Pezzey foi o herói no tempo normal, ao abrir o placar aos 31 minutos do primeiro tempo, num momento em que a defesa do Bayern mantinha grande solidez. Do outro lado, Rummenigge pouco aparecia. Durante o segundo tempo, o jogo ficou mais aberto, mas o Frankfurt era melhor e acertou duas vezes a trave. O gol decisivo saiu apenas aos 42, de novo com Pezzey. O austríaco vinha em litígio com a diretoria, após críticas, e dava uma grande resposta em campo. Antes do fim do tempo regulamentar, Nickel carimbou a trave em cobrança de falta, mas não evitou a prorrogação.

O placar revertido levava aos 30 minutos adicionais. Foi só então que o Eintracht Frankfurt, inflamado por sua torcida, deslanchou para a goleada. Karger saiu muito bem do banco e anotou o terceiro com uma pancada na área, aos oito minutos. Ainda no primeiro tempo extra, Wolfgang Dremmler descontou ao Bayern num chute de longe que o goleiro Pahl aceitou. Neste momento, os bávaros passavam graças ao gol fora de casa. Mas Karger anotou o quarto depois do intervalo e o golpe de misericórdia veio num pênalti convertido por Werner Lorant. Uma comemoração ensandecida tomou conta do Waldstadion ao apito final. “Foi sem dúvida uma grande exibição do Eintracht, porque também não jogamos mal”, avaliou Csernai.

O outro alemão na decisão seria o Borussia Mönchengladbach. E os Potros podiam ser considerados favoritos. Não era mais a equipe que dominou a Bundesliga em meados da década de 1970, já com campanhas de meio de tabela na competição. Em compensação, a experiência internacional dos alvinegros era bem maior. Tinham os títulos da Copa da Uefa em 1975 e 1979, além do vice em 1973, assim como o vice da Champions em 1977. Antigo ídolo nos tempos de centroavante, Jupp Heynckes vivia a primeira temporada de sua bem-sucedida carreira como técnico. Wolfgang Kneib, Frank Schäffer, Winfried Schäfer e Wilfried Hannes eram nomes importantes da defesa. O meio contava com o ascendente Lothar Matthäus, ao lado do capitão Christian Kulik e do dinamarquês Carsten Nielsen. Já na frente, Ewald Lienen era o principal destaque, acompanhado por Karl Del’Haye e Harald Nickel.

Naquela época, a final da Copa da Uefa era disputada em jogos de ida e volta. O Borussia Mönchengladbach jogaria a primeira em casa, diante de 25 mil torcedores em Bökelberg. Fez as honras da casa com a vitória por 3 a 2, mas num jogo difícil. Logo aos dois minutos, o Frankfurt acertou o travessão com Nickel. Os visitantes tinham controle da bola, até que o Gladbach crescesse. O goleiro Pahl realizou uma sequência de grandes defesas para evitar o gol. Num momento em que o jogo era aberto, as Águias abriram o placar aos 37, num escanteio fechado que Karger desviou quase em cima da linha. Os visitantes teriam mais uma bola no travessão, mas, aos 45, os Potros empataram. Kulik pegou na veia e finalmente venceu Pahl.

O Frankfurt continuou mais perigoso durante o segundo tempo e retomou a vantagem aos 26 minutos, com um lindo peixinho de Hölzenbein. Entretanto, o Gladbach buscou a virada. Matthäus acertou um potente chute de primeira para empatar, aos 31. Já aos 43, Kulik mergulhou numa bonita cabeçada e determinou o triunfo dos Potros. Antes do fim, Neuberger ainda mandou uma sapatada da intermediária, mas Kneib realizou uma defesa sensacional com a ponta dos dedos e assegurou o triunfo. Por aquilo que foi a partidaça, o time de Jupp Heynckes saía com um bom resultado. Os gols fora, em compensação, também davam uma possibilidade interessante para o Frankfurt.

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Apesar do resultado favorável ao seu time, Jupp Heynckes reconheceu a superioridade dos oponentes: “O Eintracht foi superior em termos de jogo, velocidade e raciocínio. Por vezes, eu tinha a impressão que eles estavam com um jogador a mais em campo”. O único lamento das Águias era a substituição de Karger, com uma lesão no joelho após um choque. O talismã não sabia, mas aquela contusão abreviou o fim de sua carreira aos 23 anos. Viraria então um símbolo daquela campanha na Copa da Uefa, especialmente pela maneira como decidiu a prorrogação contra o Bayern. Após a aposentadoria, ele viraria técnico na base do Frankfurt.

Na volta, o Eintracht Frankfurt entrou em campo apoiado por 60 mil torcedores no Waldstadion. A escalação estava ligeiramente modificada, sem Karger, mas com a presença de Nachtweih ao lado de Cha no ataque. Apesar das expectativas de que Grabowski voltasse para um grand finale, o craque acabaria limitado às tribunas. Por lá, os torcedores pediam para que ele se tornasse presidente das Águias, tamanha sua adoração. E, como mais um aficionado, Grabi poderia aplaudir seus companheiros. O Frankfurt conquistou o título, com a vitória por 1 a 0 saindo apenas no fim e se tornando suficiente graças aos gols fora.

O domínio do Frankfurt durante o primeiro tempo foi cristalino. As Águias ocupavam o campo de ataque e pressionavam bastante, o que aprisionava o Gladbach. Raras vezes os Potros conseguiram encaixar seus contragolpes. Todavia, o Frankfurt não conseguiu destravar a defesa adversária. Foram muitos lances de perigo em bolas alçadas e chutes de fora. Kneib fez boas defesas, em especial numa batida no canto de Nickel, enquanto Neuberger chutou por cima num lance com a meta aberta.

Durante o segundo tempo, o jogo se tornou mais aberto. E mais perigoso para o Frankfurt. O duelo ficava pegado, com entradas duras de ambos os lados. Matthäus, que não era nada querido por causa do lance com Grabowski, abria a caixa de ferramentas. E os goleiros apareciam. Kneib salvou um lance no mano a mano com Nachtweih, que estava impedido. Pahl trabalhou ainda mais. Pegou uma falta venenosa de Matthäus, antes de uma defesa dupla contra Kulik e Lienen. A taça poderia ir para qualquer lado.

Aos 32 do segundo tempo, o Eintracht Frankfurt mudou. Entrou Fred Schaub, garoto de 19 anos que tinha estreado na equipe principal na temporada anterior e não chegava a 20 partidas como profissional. Aquela era sua estreia na Copa da Uefa. Virou um talismã, com o mais importante de seus três gols pelo Frankfurt, menos de cinco minutos após sua entrada. Num lance brigado na entrada da área, Schaub ganhou a dividida e chutou no canto para superar Kneib. No fim, com o Gladbach desesperado pelo empate, as Águias poderiam até ampliar nos contragolpes e teriam um gol anulado por impedimento. A diferença mínima, de qualquer forma, bastou para a comemoração do inédito título continental.

Uma cena marcante da comemoração aconteceu durante a entrega da taça. Grabowski estava presente para receber o troféu das mãos de Hölzenbein, o capitão da noite, e seria carregado nos braços pelos companheiros. Não que isso apagasse certa frustração, como comentou anos depois à Kicker: “Foi um belo gesto dos meus companheiros, uma pequena consolação. Era uma final europeia e eu não estava em campo”. Sua carreira, apesar disso, merecia ter o brilho de um título europeu no currículo. Assim também com Hölzenbein, Nickel e Körbel, outros gigantes das Águias.

Parecido com o que aconteceu em 1960, o time campeão de 1980 não teve grande continuidade pela idade de seus jogadores. Mesmo o técnico Friedel Rausch preferiu sair, para assumir o Fenerbahçe. Aquela geração pelo menos faturou mais uma Copa da Alemanha, em 1981, enquanto Körbel era o último remanescente no tetra da Pokal em 1988. A reconquista do protagonismo continental, de qualquer maneira, é algo mais recente. Aos torcedores mais antigos, certamente o sucesso na Liga Europa resgata filmes antigos na memória.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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