Liga Europa

Celta vive sua maior campanha continental e vira bastião da hegemonia ibérica na Liga Europa

Na virada do século, o Celta de Vigo ganhou um apelido bastante sugestivo pelo momento que vivia: EuroCelta. Os celestes se acostumaram a garantir vaga na antiga Copa da Uefa e, mais do que isso, faziam boas campanhas. Caíram por três vezes nas quartas de final, emendaram seis participações continentais e disputaram até mesmo a Liga dos Campeões em 2003/04. Aquela campanha serviu praticamente como um ponto final do período glorioso. Os galegos até reapareceram na Copa da Uefa em 2006/07, mas foi uma exceção em meio à decadência. Desde então, atravessaram transformações. Passaram cinco temporadas na segunda divisão, subiram, começaram a dar trabalho aos grandes. E, desta vez, com o retorno à Liga Europa após uma década de ausência, conseguem chegar ainda mais longe que o velho EuroCelta. Nesta quinta, confirmaram a classificação às semifinais do torneio continental.

O desempenho do Celta desde que retornou à elite de La Liga é bastante digno. Exceção feita à reestreia, quando ficaram uma posição acima da zona de rebaixamento, nas três temporadas seguintes frequentaram sempre a parte de cima da tabela, com direito ao sexto lugar em 2015/16, que valeu a vaga na Liga Europa. Além disso, nos dois últimos anos alcançaram as semifinais da Copa do Rei, deixando pelo caminho Atlético de Madrid e Real Madrid. Da mesma maneira, viraram pedra no sapato do Barcelona, com três triunfos pelo Espanhol desde 2014. Faltava só uma campanha de impacto que ratificasse o momento fulgurante vivido em Balaídos. Não falta mais.

O Celta nem chamou muita atenção no início da Liga Europa. Conquistou a classificação em um grupo difícil, contra Ajax, Standard de Liège e Panathinaikos. Todavia, só venceu duas partidas e avançou na segunda colocação. Por conta disso, cruzou com uma pedreira nos 16-avos de final, diante do Shakhtar Donetsk, voando no torneio. Pois os galegos souberam se impor, ainda que tenham contado com o auxílio da arbitragem. Nas oitavas, bateram o Krasnodar nos dois compromissos. Já nas quartas, o desafio era o Genk. Os celestes fizeram o serviço na ida, em Balaídos, com a virada por 3 a 2. Já nesta quinta, o empate por 1 a 1 na Bélgica foi o suficiente. Pione Sisto abriu o placar para os espanhóis ao roubar a bola e chutar de fora da área. Leandro Trossard empatou e os visitantes seguraram a pressão, já que um gol seria fatal. Puderam comemorar o feito inédito.

O mais interessante é a maneira como o Celta vem resistindo às mudanças nos últimos anos. Mesmo perdendo jogadores, os galegos conseguem manter sua força. Substituto de Luis Enrique, o argentino Eduardo Berizzo tem grande parte nisso. Em seus tempos de jogador, o defensor atuou em Balaídos por cinco anos, entre 2000 e 2005. Depois, ao pendurar as chuteiras, tornou-se pupilo de Marcelo Bielsa, trabalhando como seu assistente na seleção chilena, antes de emplacar voo solo e dar o título nacional ao O’Higgins. O treinador sustenta um estilo de jogo ofensivo e bastante veloz, investindo nas jogadas pelos lados do campo. Aproveita bem as peças à sua disposição. Hugo Mallo, Pablo Hernández, Pione Sisto e Daniel Wass estão entre os destaques, justamente por potencializarem estas virtudes. Ainda que o grande nome seja Iago Aspas.

Depois da malfadada venda ao Liverpool e de uma tímida passagem pelo Sevilla, o camisa 10 voltou a Balaídos para ser dono do time. Parece ser daqueles jogadores que só sabem jogar com uma camisa. Vem em excelente momento em La Liga e também contribui bastante para o sucesso na Liga Europa, com cinco gols e duas assistências. Além disso, consegue se sobressair em diferentes funções, seja no comando do ataque ou caindo pelos lados, quando John Guidetti entra como homem de referência. Aos 29 anos, talvez não tenha a chance em outro grande clube. Independentemente disso, a idolatria recebida junto aos galegos já vale demais.

Aspas, aliás, deve se gravar como a referência deste Celta já histórico para os padrões do clube. Nolito, Michael Krohn-Dehli, Augusto Fernández, Rafinha e outros nomes se destacaram no atual ciclo. Nenhum deles com o poder de decisão e a longevidade do camisa 10, que já se coloca entre os maiores artilheiros celestes em todos os tempos. Já pode se equiparar a outros jogadores marcantes, incluindo alguns daquele EuroCelta, como Pablo Caballero, Mazinho, Sylvinho, Catanha, Valery Karpin e Aleksandr Mostovoi.

O peso de Aspas e seus companheiros, entretanto, tende a ser maior no contexto continental. O Celta carrega a responsabilidade de honrar a hegemonia dos clubes ibéricos na Liga Europa, como o único remanescente da região, dona de dez títulos e seis vices nos últimos 14 anos. Os celestes podem não ter a badalação, a camisa pesada ou os destaques dos outros três concorrentes – Ajax, Lyon e Manchester United. De qualquer forma, já provaram nos últimos anos que não há desafio ao qual eles não se dispõem a encarar. O sucesso europeu surge como uma grande possibilidade de coroação.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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