Alegria na tormenta

O Sporting às vezes lembra um pouco o Palmeiras – e não só pela cor verde. É um time grande que há um bom tempo não tem sem conquistas de relevo e, volta e meia, se encontra em meio a turbulências políticas (internas e externas). O atual momento extracampo não é muito diferente, após a polêmica envolvendo o vice-presidente Paulo Pereira Cristóvão, acusado de ter “forjado” um depósito anônimo na conta do auxiliar José Cardinal antes do embate entre os Leões e o Marítimo, pela Taça de Portugal – deposito esse que teria motivado uma denúncia do próprio Sporting à Liga de Clubes (LPFP). O caso será mais explanado adiante, mas o que vale salientar aqui é que, pelo menos por agora, o que ocorre fora das quatro linhas não parece afetar o time dentro de campo. A merecida vitória sobre o Athletic Bilbao, pela Liga Europa, é prova disso.
A equipe de Alvalade teve o controle do jogo durante quase os 90 minutos. “Quase”, porque do lance em que sofreu o gol de Aurtenetxe até alguns minutos depois, o tento sofrido em casa pareceu ter caído como uma bomba – a ponto de, pouco depois, os bascos terem acertado a trave. Mas se não é um time técnico ou habilidoso, o Sporting de Ricardo Sá Pinto é, ao menos, muito raçudo. E mostrou isso ao arrancar a virada e até perder uma boa chance a cinco minutos do fim, com André Carrillo. Diego Capel e Marat Izmailov fizeram mais uma atuação muito boa, e não fosse a pontaria de Ricky Van Wolfswinkel (que dessa vez esteve bem falha), talvez o ataque sportinguista se consagrasse. Ao menos, já mostra que é digno de respeito. Pelo meio, destaque à boa atuação de André Martins, mais defensivo que Matías Fernandez (que se recupera de lesão), mas eficiente na transição com o ataque.
A vitória veio bem ao estilo do que tem sido o Sporting com Sá Pinto. Chama atenção a vibração do ex-jogador a cada lance e a forma como ele aglutinou o elenco. As comemorações dos dois gols leoninos na quinta-feira não deixam esse colunista mentir. Não que com Domingos Paciência o time estivesse dividido, mas é nítido que o atual treinador tem uma dialética melhor que a do antecessor para juntar o grupo. Algo que, como esta coluna já comentou, “salva a pele” do presidente Godinho Lopes após a contestada (à época, com razão) demissão de Paciência, por ter acertado a mão na escolha do novo técnico. Mas talvez o principal trunfo de Sá Pinto seja o sucesso em desligar seus comandados do que ocorre fora de campo e com os rivais. O que ajuda a entender as atuações seguras ante Bilbao (justo no auge do supracitado Caso Cardinal) e Benfica (em meio às críticas encarnadas à arbitragem).
O bom momento europeu do Sporting – e que também se reflete na evolução portuguesa no ranking de coeficientes da UEFA, agora se aproximando da Itália – porém, só não ganha mais destaque em razão dos bastidores (sempre eles). E aí, volta-se à “crise” citada no primeiro parágrafo. Como dito, tudo começou antes do confronto entre os Leões e o Marítimo pela Taça de Portugal, no qual o auxiliar José Cardinal (que, diga-se, é um dos mais elogiados do país), que trabalharia na partida, foi acusado pelo Sporting na última semana de ter recebido um deposito “anônimo” de 2 mil euros em sua conta. Antes do jogo em questão, o próprio Cardinal, sob a alegação de “motivos pessoais”, pediu para ser substituído. Mas, dias depois, a maré inverteu, e o vice-presidente do time de Alvalade, Paulo Pereira Cristóvão, tornou-se suspeito de ter projetado uma “armadilha” para Cardinal, com o depósito dos euros.
Então, as histórias começaram a brotar pela mídia – todas sob investigação, pelo menos em tese. Uma delas é de que um funcionário da empresa particular de Cristóvão teria sido o responsável pelo depósito. Outra é de que a “armadilha” teria sido armada para tirar Cardinal da partida, devido a queixas anteriores de atuações do auxiliar em jogos da equipe. Além disso, o jornal Correio da Manhã chegou a noticiar a existência de uma “rede de espionagem”, coordenada por Cristóvão, para ficar de olho nos próprios jogadores sportinguistas. Não foi de se estranhar que, após a explosão da polêmica, o vice-presidente tenha pedido suspensão de seu mandato, para que “as averiguações fossem feitas”. Mas foi surpreendente que, alguns dias depois, o próprio Sporting tenha reintegrado Cristóvão – ainda que internamente, conforme o jornal O Jogo, Godinho Lopes já enfrente forte pressão para demiti-lo.
O mandatário leonino, por sua vez, afirmou que o clube já abriu inquérito interno para apurar o caso – bem como a própria Federação Portuguesa de Futebol (FPF). Ao mesmo tempo, divulgou nota anunciando que o Sporting entrará na Justiça contra os jornais Correio da Manhã, Diário de Notícias e Jornal de Notícias, além da revista Sábado. Veículos que, conforme os Leões, teriam acusado a agremiação “de forma ilegítima e abusiva” de ter relação com o depósito na conta de Cardinal (ou de, no mínimo, ter sido conivente com a suposta armadilha). A novela é longa e terá novos e tensos capítulos nos próximos dias. Uma pena, e por duas razões: por tirar o foco desse (raro) grande momento do time alviverde e por aumentar ainda mais a pressão e as dúvidas sobre a arbitragem portuguesa – mesmo que, desta vez, esta pareça ser a maior das vítimas.
Campeão?
O Benfica venceu a final da Taça da Liga ao derrotar o Gil Vicente por 2 a 1, em uma partida bastante equilibrada. Mas, curiosamente, quem olhasse o cenário posterior a conquista – a quarta seguida na curta história do torneio – pensaria que as Águias tinham é perdido a decisão, tamanha a indisposição dos torcedores com o técnico Jorge Jesus e vários dos jogadores do elenco. Algo que não só evidencia que essa perda de força do time encarnado na reta final da temporada (já presenciada em 2010/11) não é mais suportada pela exigente massa vermelha, mas também mostram o quão irrelevante é a competição para os grandes. Com um detalhe: já na época anterior, o mesmo Benfica também fora campeão debaixo de vaias de seus torcedores. Talvez fosse a hora da Liga de Clubes (que organiza a Taça da Liga) repensar o formato do torneio. Ou a própria existência do mesmo.



