Liga Europa

A façanha do Östersunds na Liga Europa se mede em decibéis: na narração insana e no grito da torcida

Em 2011, o sonho do Östersunds era alcançar o nível profissional do Campeonato Sueco. O clube da cidade de 50 mil habitantes, famosa por fomentar os esportes de inverno, acabara de ser rebaixado à quarta divisão. A reconstrução começou encabeçada por Graham Potter, o técnico inglês que (perdão pelo trocadilho) fez mágica. Foram dois acessos consecutivos e, depois de três temporadas na segundona, os rubro-negros alcançariam a primeira divisão. Fizeram mais: a honrosa oitava colocação na elite foi complementada pelo surpreendente título da Copa da Suécia em 2016. Já nesta quinta, o Östersunds avançou à fase de grupos da Liga Europa, logo em sua primeira participação continental, e derrubando clubes tradicionais. Um feito que, naturalmente, gerou uma comoção imensa na Suécia.

A campanha notável do Östersunds já tinha ganhado as manchetes na segunda fase preliminar, quando os nanicos eliminaram o Galatasaray em Istambul. Tiveram um pouco mais de respiro na etapa seguinte, sem problemas para superar os luxemburgueses do Fola Esch. Já nos playoffs, mais um peso pesado, o PAOK. Os gregos vinham de seis aparições na fase de grupos durante as últimas sete edições da Liga Europa. Venceram o jogo de ida por 3 a 1 em Tessalônica, o que já parecia o suficiente para a vaga. Mas não poderiam se descuidar tanto contra um franco atirador como o Östersunds. Empurrados por sua torcida na acanhada Jämtkraft Arena, os suecos marcaram dois gols entre os 26 e os 32 do segundo tempo. Cortesia do meio-campista Saman Ghoddos, convocado pela Suécia no início do ano e especulado recentemente por clubes ingleses.

Já o lance mais emocionante ficou para o último minuto. O PAOK tinha uma bola perigosa nos arredores da área. Até o goleiro subiu para o ataque. Mas a cabeçada à queima-roupa dos gregos acabou defendida por Aly Keita em cima da linha, antes que o arqueiro se estatelasse contra a trave. Na sobra, os visitantes ainda mandaram por cima do travessão, em outra ótima chance desperdiçada. O tiro de meta foi a deixa para que o árbitro apitasse o final da partida. Para que, graças à vitória por 2 a 0, confirmasse a classificação milagrosa do Östersunds, levando ao delírio todos os presentes.

A narração da AETV, um canal online sueco, demonstra bem o quão inacreditável é a façanha. Se você acha exagero a gritaria nos microfones, basta confirmar pela empolgação dos torcedores nas arquibancadas. Ou dos jogadores, que logo saíram correndo para abraçar os demais companheiros. Que começaram a dançar e a cantar com a torcida. Que pareciam não querer sair de campo, talvez com medo de que a volta para os vestiários os fizesse acordar daquilo que mais parecia um sonho.

O Östersunds terá um grupo difícil pela frente na próxima etapa. Pegará Athletic Bilbao, Hertha Berlim e Zorya Luhansk. Mais uma vez, será o azarão, especialmente contra espanhóis e alemães. Mas já demonstrou ser capaz de ir além. Será um time a se acompanhar, especialmente pelo elenco multicultural – que reúne jogadores de origem curda, assíria, palestina, iraniana, grega, inglesa, nigeriana, ganesa, congolesa, ugandesa e até comorense. A grata surpresa renderá ao menos mais seis jogos de boas histórias para contar. Quem sabe, gerando tanta vibração quanto se viu (e se ouviu) nesta quinta.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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