Eliminatórias da EurocopaEuropa

Ibra encarnou o orgulho sueco para levar seu país a mais uma Eurocopa

Ao apito final, Ibrahimovic não conteve a emoção. Conhecido por seu temperamento muitas vezes frio e debochado, o veterano caiu de joelhos no gramado do Estádio Parken. O capitão da Suécia marcou ambos os gols no empate por 2 a 2 com a Dinamarca, resultado suficiente para garantir a classificação de seu país à Eurocopa de 2016. Talvez, sua última competição internacional, quando estiver prestes a completar 35 anos – embora também tenha manifestado o interesse de disputar as Olimpíadas de 2016. E a importância de Ibra acabou reconhecida por seus companheiros. Os suecos saíram de encontro ao camisa 10, correndo para abraçá-lo no centro do gramado.

VEJA TAMBÉM: A confirmação da Ucrânia na Euro garante o devido reconhecimento a sua dupla de talentos

A imagem emblemática exalta a importância de Ibrahimovic para a atual seleção. Comparando os dois elencos, a Dinamarca possui um time mais completo. Os dinamarqueses estão mais bem servidos em diferentes posições e contam com vários nomes promissores, sobretudo no meio de campo. Os suecos, por outro lado, dependem ainda de uma geração envelhecida, que rendeu bastante ao país durante a década passada, mas está longe de seu ápice. Ibra, contudo, segue como um dos melhores centroavantes do mundo. E em um nível acima de qualquer outro jogador em campo em Copenhague.

No jogo de ida, Ibra já tinha feito a diferença na vitória por 2 a 1, mas de maneira simplória. Converteu o pênalti que complementou a vantagem para os suecos. Nesta terça, entretanto, ele assumiu definitivamente o papel de protagonista na decisão. A Dinamarca era melhor no jogo e pressionava desde os primeiros minutos – chegando a carimbar a trave. Entretanto, o camisa 10 apareceu pela primeira vez aos 19 minutos, para abrir o placar justo na primeira finalização de seu time, após oito arremates dos anfitriões. Companheiro de longo tempo na seleção, Källström cobrou escanteio que Ibra completou para as redes.

O tento deu um banho de água fria nas pretensões da Dinamarca, que perdeu o ritmo na sequência da partida. Afinal, o time da casa se viu obrigado a balançar as redes mais três vezes, se quisesse avançar e evitar também a prorrogação. Os suecos se seguravam muito bem na defesa, diante da falta de criatividade que passou a afetar os dinamarqueses, em especial no início do segundo tempo. E, aos 31, Ibra brilhou outra vez. Se no primeiro jogo o camisa 10 teve um golaço de falta negado por Kasper Schmeichel, desta vez o goleiro nada pôde fazer diante do capricho do artilheiro. Bola no ângulo, para deixar a Suécia a minutos da Euro.

Depois disso, a Dinamarca até acordou para o jogo, mas era tarde demais. Precisando de quatro gols naquele momento, a equipe passou a insistir ainda mais no jogo aéreo, e a encontrar brechas na defesa sueca. Conseguiu até arrancar o empate, com tentos de Yussuf Poulsen e Vestergaard entre os 36 e os 46 da segunda etapa. Pouco para reagir, diante do excesso de erros no campo ofensivo.

Na saída do estádio, Ibra manteve o tom tradicional de suas declarações: “Diziam que uma derrota faria eu me aposentar da seleção. Mas eu aposentei um país inteiro. Nos fizeram todas as críticas e nos colocamos na repescagem. Muitos ficaram desapontados com isso, mas ainda tínhamos a chance. Pegamos a Dinamarca, tudo estava contra nós. Nós não os vencíamos, eu não tinha marcado um gol contra eles, mas seguimos pacientes. Não posso descrever o sentimento. É o destino ter uma chance de me despedir na Euro. Muitas pessoas reclamam que sou velho e fraco, mas não é isso que se parece”.

Esta será a sexta participação da Suécia em Eurocopas. Até 1992, o país nunca havia se classificado para a competição – tanto pela limitação no número de participantes quanto pelo fato de o torneio só surgiu depois da eclosão da principal geração local, que viveu o auge entre os anos 1940 e 1950. Contudo, nos últimos 23 anos, os suecos se estabeleceram como um dos participantes mais tradicionais da Euro, ausentes apenas em 1996. E vão a sua quinta participação seguida em 2016, a quarta com Ibra no time.

Dizer que Ibrahimovic colocou a Suécia no mapa do futebol é uma boa dose de exagero, considerando o rico passado da nação de Liedholm, Gren, dos irmãos Nordahl, de Henrik Larsson e tantos outros jogadores de destaque. É mais uma galhofa no currículo do craque. Mas não dá para negar a importância histórica de Ibra para o futebol sueco, carregando uma geração questionável. Assim como a maneira como ele valoriza os serviços prestados ao seu país.

A entrega de Ibrahimovic e sua emoção ao apito final ressaltam principalmente o gosto que ele tem jogando por sua seleção. Uma garra que se evidencia mais do que nos clubes, por mais que ele continue brilhando neles. E que, no fim das contas, passam uma mensagem também diante do contexto político no qual a Europa está submersa. O filho de um muçulmano bósnio e de uma croata católica, nascido em Malmö, é quem melhor representa o orgulho de ser sueco. Vontade reconhecida por seus companheiros, por seus torcedores e, sobretudo, por seus compatriotas. O melhor jogador do futebol francês estará na França para a Euro 2016.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo