‘É preciso dar passo atrás’: Brasileiro do USG passou por guerra até chegar à Champions League
Guilherme Smith, atacante do Union Saint-Gilloise, repassa à Trivela passagem pela Ucrânia e Estônia, e momento no clube belga, que estreia contra o Bodo/Glimt na fase preliminar da Champions League
Poucos são os jogadores que têm a sabedoria de corrigir a rota na trajetória de suas carreiras. Seja por ir à Europa precocemente, seguir para mercados alternativos em busca de dinheiro ou perda de espaço em seus clube. Este não é o caso de Guilherme Smith, atacante do Union Saint-Gilloise. Aos 23 anos, na liga da Bélgica, ele teve de passar por diversos obstáculos na sua carreira até poder ouvir o hino da Champions League dentro de campo.
Com passagens por categorias de base de Fluminense, Vasco e Botafogo, deixou o Rio de Janeiro em 2021, mesmo com perspectivas de ser alçado à equipe profissional do Alvinegro, para jogar no Zorya Luhansk, da Ucrânia. No ano seguinte, com o início do conflito entre Rússia e Ucrânia, se viu preso no país enquanto acompanhava notícias de bombardeios e ataques próximo de onde morava.
Smith passou por essas dificuldades com um pensamento: dar alguns passos atrás para, depois, dar o dobro para frente. É desta forma que, nesta terça-feira (4), o atacante se prepara para enfrentar o Bodo/Glimt pela fase preliminar da Champions League. Será a segunda temporada consecutiva em que o brasileiro disputa a principal competição europeia, em seu segundo ano na Bélgica.
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— Muitos atletas deveriam pensar em dar alguns passos atrás para conseguir avançar depois. Às vezes você não tem tanto espaço em um clube, mas consegue jogar em outro para dar um salto maior.— afirma o atacante, à Trivela.
Smith atendeu a reportagem uma semana antes do confronto de ida com o time norueguês, que passou por cima de gigantes na última temporada. Antes do duelo pela Champions League, se sagrou campeão da Supercopa da Bélgica, diante do Club Brugge — primeiro objetivo do Union nesta temporada. “Estamos estudando o Club Brugge primeiro para, depois, estudar o Bodø. Claro que vai ser um jogo muito difícil lá no campo sintético, mas na nossa casa também será”, conta o atacante.
Guilherme Smith passou por guerra e futebol alternativo antes de chegar à Bélgica
Negociado ao Zorya Luhansk em 2021, em meio aos problemas financeiros do Botafogo, Guilherme Smith não se arrepende dos caminhos e decisões que tomou em sua carreira. As consequências, que não passaram por suas escolhas, impactaram no início desta passagem pela Europa.
Diante dos conflitos armados, Guilherme foi emprestado ao Braga para ganhar minutos na equipe sub-23. Mas no primeiro ano, ainda na Ucrânia, esteve sozinho, sem a companhia da família — e impactado com as notícias e vídeos que chegavam por meio das redes sociais.
— Com 18 anos, é um momento que você não espera passar por uma guerra. Ninguém espera, na verdade, mas ainda mais nessa idade, no meu primeiro ano na Europa, sozinho e sem a família. Foi um baque muito grande para nós, para mim, para o meu pai, para a minha mãe e para o meu irmão — detalha o atacante.
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— Aquele período foi muito complicado porque minha mãe não dormia e eu não conseguia dar notícias para a família por limitações no uso do celular. Vi coisas inacreditáveis, mas acabou sendo uma experiência que me calejou — explica.
A Ucrânia se tornou, ao longo da década de 2010, como uma das principais portas de entrada para brasileiros na Europa. Este foi o projeto que atraiu Smith em 2021: estar no Velho Continente ainda jovem, para buscar uma grande liga posteriormente.
— Quando recebi a proposta da Ucrânia, acho que tomei uma boa decisão ao sair cedo do Brasil para me adaptar jovem ao futebol europeu. O objetivo já era estar na Europa para, depois, dar o próximo passo rumo a outra grande liga — analisa o jogador.
O plano, no entanto, não deu certo logo de cara. Depois do Zorya Luhansk e dos empréstimos ao Braga, de Portugal, o atacante decidiu dar alguns passos atrás, se juntando ao futebol da Estônia em 2024. Ganhar minutos e mostrar seu potencial em campo, em busca de novas propostas, foi o que motivou jovem a rumar ao Leste Europeu.
Ucrânia e Estônia estão próximas no Leste Europeu. Apenas Belarus, Lituânia e Letônia separam os países. Por isso, o clima frio e certa “solidão” marcaram a passagem pelo Nõmme Kalju, em 2024/25.
— Acho que falta humildade ao jogador para dar um passo atrás para, lá na frente, dar vários à frente. Eu sempre tive essa postura. Só passei por clubes grandes, mas, graças a Deus, venho de uma família humilde e entendo como funciona o futebol — afirma Guilherme Smith.
O único objetivo do atacante, na Estônia, era trabalhar até conquistar uma proposta de outro mercado no futebol europeu. “Se você não for com a cabeça boa, focado apenas no objetivo de trabalhar e vencer, você não aguenta”, conta, relembrando seu período na Estônia. No Kalju, marcou 12 gols em 35 jogos — sua temporada mais artilheira da carreira.
— Não tem muita coisa para fazer e é uma cultura muito diferente (na Estônia); as pessoas são muito diferentes. Parece até que vivem muitos anos no passado. Mas é claro que a capital (Tallinn) é bonita e organizada — conta.
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Mudança para a Bélgica trouxe evolução para Guilherme Smith na carreira
Em 2025, diversos clubes procuraram o atacante. A escolha pelo Union St. Gilloise se deveu ao momento do clube, campeão belga em 2024/25 e classificado para a fase de liga da Champions League. Além disso, também proporcionou ao atacante uma evolução em seu estilo de jogo.
Durante a sua carreira, Smith atuou principalmente pela ponta-esquerda; na Bélgica, passou a ser mais um ala, próximo ao meio-campo, e com a função de apoiar o setor defensivo como um lateral.
É esta função, também, que o aproxima de uma seleção brasileira. Ainda que tenha passado por dificuldades no início desta adaptação, foi fundamental para a conquista da Copa da Bélgica na última temporada — no “maior clube do país”, segundo sua própria avaliação.
— Esta é uma posição (ala) que muitos clubes têm utilizado na Europa hoje em dia, e acredito que isso soma pontos. Penso que, começando a temporada e indo bem nessa função, o Ancelotti possa dar uma olhada, dar uma oportunidade — afirma.
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Para a Copa do Mundo 2030, Carlo Ancelotti não deverá contar com Alex Sandro como alternativa na lateral-esquerda; Douglas Santos, titular neste Mundial, terá 36 anos na próxima edição do torneio. Surge a oportunidade para o italiano testar outros jogadores para a função — assim como Guilherme Smith.
O atacante chegou ao Union com a equipe já estruturada. Quando se sagrou campeã nacional, o clube encerrou um jejum de 90 anos sem conquistar o principal título do país. Com seu desempenho em campo, Guilherme Smith também teve o contrato renovado até junho de 2030, quando terá 27 anos.
Estreia na Champions League teve sentimento de ‘dever cumprido’ para o atacante
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Smith pôde estrear na Champions League na última temporada, contra o Bayern de Munique, na Allianz Arena. A derrota por 2 a 0 — em duelo no qual a equipe belga chegou a ter chances de passar à frente no marcador — teve um sentimento de realização para o jogador. Durante a execução do hino ele riu, de alegria, pelo plano do futebol europeu ter dado certo.
— Eu nem chorei nem nada, minha emoção foi de rir mesmo, de demonstrar alegria e sorrir. Naquele momento passou um filme na cabeça de tudo o que a gente trabalhou para chegar até ali, para jogar o maior campeonato do mundo e estrear contra o Bayern de Munique — afirma.
Contra o Bodo/Glimt, terá a oportunidade de colocar o clube em sua segunda fase de liga da Champions League consecutiva. A derrota para o Bayern de Munique, na última temporada, evitou que o clube conquistasse a classificação para o mata-mata. Depois de superar Anderlecht e Club Brugge, na Copa e Supercopa da Bélgica, este é o principal objetivo da equipe.
Para Guilherme Smith, dentro de campo, o principal objetivo é se colocar à disposição da seleção brasileira e chegar à Premier League ou LaLiga. Na vida pessoal, o jovem, que se descreve como uma pessoa alegre, viveu seu ápice junto à família: levar seus pais, que nunca tinham viajado de avião, para a Europa. E é com a família em mente que ele quer conquistar seus novos sonhos.