Europa

Feridas abertas

A violência presente no estádio Olímpico de Atenas neste domingo deixou o futebol em segundo plano no maior clássico do Campeonato Grego. O “dérbi dos eternos inimigos” terminou aos 37 minutos do segundo tempo, com centenas de feridos, 57 presos, três caminhões de bombeiros contendo incêndios nas arquibancadas e mais de 800 cadeiras destruídas. Embora apenas um dos “inimigos” estivesse nas arquibancadas, já que apenas torcedores da equipe mandante são permitidos nos grandes clássicos gregos, o prejuízo foi avaliado em cerca de 150 milhões de euros.

O vandalismo da torcida do Panathinaikos, no entanto, tem muito mais a falar sobre os resultados do clube em campo do que possa parecer. O tumulto no fim do jogo foi reflexo direto do placar adverso. Dentro de casa, a equipe de Jesualdo Ferreira teria a chance de iniciar a reviravolta rumo à primeira colocação da Super League. Se vencesse, ficaria a um ponto do Olympiacos, faltando cinco rodadas para o fim da competição. Com tabelas similares, não seria surpreendente se o Panathinaikos retomasse o topo da tabela.

Não foi o que aconteceu. A Thrylos teve o controle do jogo ao longo do primeiro tempo e nem mesmo a situação de caos instaurada no intervalo, que atrasou o retorno das equipes ao gramado em 55 minutos, retraiu a equipe. Bastaram cinco minutos da segunda etapa para que Djamel Abdoun roubasse a bola de Katsouranis (em lance no qual se pode discutir a falta), atravessasse a defesa inteira do Pana e arrematasse cruzado. Sem perspectivas do empate, a revolta dos torcedores, em certo ponto, refletiu a perda do campeonato.

A organização da Super League ainda não confirmou a vitória do Olympiacos, o que só deve acontecer nesta quinta-feira. Serão sete pontos de vantagem para o clube de Pireu, condição impensável de se reverter para um time que, em 25 rodadas, desperdiçou apenas 14 pontos – duas derrotas e quatro empates. E a dificuldade cresce ainda mais quando se considera a dedicação total da equipe nos torneios domésticos, eliminada na Liga Europa. São sete vitórias seguidas na competição (incluindo Pana, PAOK, Aris e AEK), prova de um elenco encaixado e com peças valiosas, como Kevin Mirallas, Djamel Abdoun, Ariel Ibagaza e Colin Kazim-Richards.

Do outro lado da rivalidade, o Panathinaikos deverá ter um obstáculo a mais em sua empreitada, já que dificilmente escapará de uma punição pelos fatos de domingo. Da virtual vantagem de disputar três de seus últimos cinco jogos em casa, o clube provavelmente não contará com o apoio das arquibancas. Além, é claro, do prejuízo financeiro que deve ser ocasionado por uma prometida multa, ao menos para arcar com os prejuízos da administração do estádio Olímpico de Atenas.

Uma tragédia que chega ao seu ápice agora, mas que já estava desenhada desde janeiro. A equipe manteve a invencibilidade no primeiro mês do ano, ainda que todas as vitórias viessem pelo placar mínimo e a maioria contra adversários da metade inferior da tabela. Depois disso, derrota para o Levadiakos. E, após mais dois triunfos, o planejamento não resistiu à dura sequência prevista pela tabela: batido por PAOK e AEK Atenas, o Trifylli foi destroçado pelo clássico contra o Olympiacos. Depois de 14 rodadas na liderança, o sonho do título tinha seu fim.

A atual posição do clube também tem muito a dizer sobre a preparação pobre para a temporada. Ciente da perda de Djibril Cissé, mas sem dinheiro em caixa, a movimentação na janela de transferências de verão foi tímida, mesmo que Zeca e Quincy Owusu-Abeyie tenham se mostrado boas apostas. Para piorar, ninguém chegou no meio da temporada. Vivendo da inspiração ofensiva de Sebastián Leto, a situação dos Prasinoi ruiu quando o argentino sofreu grave lesão, justamente em janeiro, ficando fora da Super League desde então.

Por fim, o colapso deste final de semana agrava a crise política interna vivida pelo Pana, com rumores de pedidos de demissão entre dirigentes após a derrota. A prometida compra do clube por um sheik árabe esfriou desde o fim de 2011 e pode afastá-lo ainda mais após os episódios de violência. Sem os petrodólares, já está claro que a situação econômica atual em Atenas é de poupança total.

No momento, Jesualdo Ferreira precisa se concentrar para recuperar a confiança de seu elenco após o trauma ante o Olympiacos. Apesar da vantagem de alguns pontos que o time levará consigo, uma nova disputa se iniciará em abril, com a realização do quadrangular pela disputa vaga na Liga dos Campeões. Se ficar fora da principal competição continental – e sem os milhões de euros que ela poderá trazer – o Panathinaikos poderá transformar a temporada 2012/13 em uma verdadeira tragédia grega.

Alguém consegue segurar?

O Campeonato Turco também viveu seu maior clássico no final de semana. Durante os 15 primeiros minutos de jogo, o Fenerbahçe parecia que finalmente lavaria sua alma contra o Galatasaray. Foram dois golaços de Moussa Sow e Alex, dignos de transformar a vitória no Sükrü Saraçoglu como um ponto de virada na história do clube, diante das acusações de fraudes enfrentadas ao longo dos últimos meses.

No entanto, havia um erro sério no script do épico. Os Sari Kanaryalar preferiram fechar-se na defesa e não aguentaram a pressão. Cederam o empate e quase tomaram a virada, com Milan Baros acertando a trave no quinto minuto dos acréscimos finais. São 12 anos sem vitórias do Galatasaray em clássicos disputados do lado asiático de Istambul, embora a igualdade deste sábado não signifique necessariamente um revés aos comandados de Fatih Terim.

A impressão deixada após a partida é que, quando quer, o Cim Bom consegue se impor contra qualquer adversário da atual Süper Lig. Já tinha sido desta maneira contra o Besiktas, com Johan Elmander buscando a vitória por 3 a 2 nos acréscimos. Ao longo de 2012, são 11 vitórias em 14 jogos. A única derrota, sofrida contra o Bursaspor fora de casa, foi vendida caro. Os Aslanlar dominaram o jogo todo, mas permitiram o gol no único chute certo dos Yesil Timsah ao longo dos 90 minutos.

Não fosse a mudança de regulamento no Campeonato Turco, o Galatasaray poderia ter comemorado o título justamente na casa dos rivais. Restando três rodadas, são nove pontos de folga e 15 gols a mais no saldo. Uma vantagem brutal diante dos resultados acirrados do torneio nos últimos anos – ainda que a manipulação de resultados elevem as suspeitas. Superioridade esta que pode ser explicada pela pré-temporada sem turbulências e pelo planejamento correto após a campanha desastrosa de 2010/11.

Por mais que as tradições de Fenerbahçe, Besiktas e Trabzonspor se equiparem, nada se compara à quantidade de cartas que o Gala possui sobre a mesa para o quadrangular decisivo. Os Aslanlar contam com o brilho alternado de jogadores como Johan Elmander, Selcuk Inan, Felipe Melo, Milan Baros e Albert Riera, o que a torna menos vulnerável à inspiração de um protagonista específico – o que acontece com Alex ou Burak Yilmaz, por exemplo. Independente da eliminação “surpresa” na Copa da Turquia, sob as ordens de um treinador carimbado como Fatih Terim e diante do excelente momento pelo qual passa a equipe, é difícil imaginar uma quebra de ritmo tão grande, a ponto de atrapalhar o favoritismo do Galatasaray.

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Equipe Trivela

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