Europa

Falta o encaixe

O futebol é, sem dúvidas, uma das maiores paixões do povo turco. Na última semana, porém, teve o seu lugar ocupado por outro esporte. Com o Mundial de Basquete ocorrendo no país e, principalmente, com a belíssima campanha da seleção local, a bola laranja foi muito mais requisitada pela população. Pela primeira vez na história, os turcos chegaram às finais da competição. E isso depois de vitórias épicas contra Grécia e Sérvia.

Mas, enquanto a turma de Hidayet Türkoglu encantava em quadra, Guus Hiddink tinha calafrios à beira do campo. O badalado técnico holandês fez a sua estreia em partidas oficiais pela seleção turca de futebol e já deixou as primeiras impressões no comando da equipe. E, apesar de acumular êxitos, o time ainda está longe do ritmo incessante alcançado pelo país no basquete.

Desde as partidas ocorridas às vésperas da Copa do Mundo, nas quais a Turquia enfrentou República Tcheca, Irlanda do Norte e Estados Unidos, Hiddink já vinha acompanhando de perto o que era feito com a seleção nacional. Contudo, seu trabalho de fato começou apenas em agosto, em amistoso realizado contra a Romênia, o qual os turcos venceram por 2 a 0.

Em campo, muitas caras conhecidas do futebol local. Dentre nomes como Volkan Demirel, Mehmet Aurélio e Emre Belozoglu, o titular com menos partidas na equipe principal da Turquia era Ismail Koyabasi que, mesmo aos 21 anos, já acumula uma dezena de convocações. Além de veteranos como Kazim Richards e Nihat Kahveci, Sercan Yildrim, também já testado algumas vezes antes, foi o único “novato” usado como substituto.

Em uma primeira partida, Hiddink pareceu prezar por aqueles que já constavam nas fileiras da equipe antes de seu ingresso. Mesmo que os turcos não tenham conquistado a classificação para a última Copa do Mundo, ficando na terceira posição de seu grupo, atrás de Espanha e Bósnia, o ato do treinador demonstrou que espera contar com o apoio de todos os figurões do país.

Feita a apresentação de seu trabalho aos medalhões, Hiddink preferiu fazer algumas apostas na convocação seguinte. Para os primeiros confrontos na qualificação para a Euro 2012, contra Cazaquistão e Bélgica, o treinador também resolveu abrir algumas portas em seu grupo. Para o gol, por exemplo, todos os goleiros listados possuíam 22 anos. Onur Kivrak, do Trabzonspor, era o único que já havia estreado. Sinan Bolat, do Standard Liège, nunca saiu do banco e Cenk Gonen, do Besiktas, só possuía experiências anteriores em seleções de base.

A maior surpresa, entretanto, estava posta na zaga. Omer Erdogan não é nenhum garoto. Pelo contrário, do alto de seus 33 anos, só havia sido convocado anteriormente para uma partida com o segundo plantel turco, isso no longínquo ano de 2003. Mas, credenciado pelo papel de xerife que desempenha no Bursaspor, foi colocado como titular em ambas as partidas válidas pela Euro 2012. Por fim, Ozer Hurmaci, que ganhou espaço no Fenerbahçe na última temporada e vinha se destacando com a seleção sub-21, foi chamado pela primeira vez, mas não jogou.

Em relação aos jogos, o que se viu de fato no gramado foi um time ligeiramente perdido. Com uma formação 4-4-2 contra o Cazaquistão, a Turquia foi pouco efetiva em campo. Mesmo jogando fora de casa, os turcos não conseguiram pressionar um adversário fraco, ficando reféns de contra-ataques e bolas alçadas na área. Tuncay Sanli, referência na área adversária, pouco participou do jogo. Depois de um gol de Arda Turan em sobra de bola, ao menos o primeiro tempo teve um lance de efeito, através do belo gol de voleio marcado por Hamit Altintop. Já na segunda etapa, os melhores momentos se resumem praticamente a chances desperdiçadas pelos cazaques. Não fosse o gol de Nihat a 15 minutos do fim, as críticas pela falta de ímpeto seriam ainda mais pesadas.

Temendo um revés contra a Bélgica quatro dias depois, em confronto ante a torcida no Sükrü Saracoglu, Guus Hiddink mudou o time taticamente. Agora no “popular” 4-2-3-1, o holandês esperava explorar melhor as incursões de Arda Turan e Hamit Altintop pelos lados do campo, preparando as jogadas para Tuncay Sanli, centralizado no ataque.

Mais uma vez, no entanto, os turcos não criavam lances agudos na frente. E, ao contrário do jogo contra os cazaques, a defesa estava completamente perdida. Menção especial justamente ao jovem goleiro Onur Kivrak. Apesar de exaltado pelo técnico de seu clube, Senol Gunes, considerado um dos maiores camisas 1 da história do país, Kivrak esteve o tempo todo mal contra os belgas. Tanto é que, exatamente em uma saída estabanada do arqueiro, Van Buyten abriu o placar para os visitantes.

Depois de um primeiro tempo desanimador, Hiddink reforçou o seu ataque, com a saída de Selçuk Inan da meia-cancha e a entrada do centroavante Semih Senturk. E, enfim, o treinador parece ter encontrado o encaixe correto para o elenco que tem em mãos.

De volta ao 4-4-2, a Turquia empatou aos três minutos da segunda etapa, em jogada de insistência de Hamit Altintop. O caminho ficou ainda mais fácil após a expulsão de Kompany, aos 19 minutos. E, como consequência, o próprio Semih Senturk virou o placar, em outro lance originado nos pés de Altintop.

Em outro erro bisonho de Kivrak em bola levantada na área, a Bélgica empatou, novamente com Van Buyten. Mas, com uma postura correta e vontade real, a vitória definitiva não demorou a tardar. Com a maioria de seus atletas subindo ao ataque, os turcos encontraram o tento da vitória em cruzamento rasteiro de Gokhan Gonul, que acabara de entrar, para Arda Turan.

Dos primeiros testes, o que fica é a força do meio-campo turco. Caso as coisas apertem, Hiddink sabe que poderá contar com Altintop e Arda Turan para os momentos críticos. Já no ataque, por enquanto, Tuncay Sanli parece longe da melhor forma. Semih Senturk ou até mesmo o jovem Sercan Yildrim têm capacidade para agregar mais qualidade à equipe. E, apesar de seu potencial, Onur Kivrak ainda não está pronto para a camisa 1, ao contrário do competentíssimo Volkan Demirel.

Se não tirou suspiros da torcida, Guus Hiddink ainda está com 100% de aproveitamento no novo cargo. Para a próxima rodada das Eliminatórias da Euro, porém, precisará de um esforço muito maior do que o visto até aqui. Afinal, enfrentar a Alemanha em Berlim é um desafio nada digerível. Que a vontade apresentada pela seleção de basquete ao menos sirva de inspiração.

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Equipe Trivela

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