Europa

ESCANDINÁVIA | Vinte anos de um título de cinema

Certa equipe disputa, com outras quatro, a única vaga em um torneio importante. A campanha é boa, mas não o bastante para classificar o time. Terminam em segundo. Faltando poucos dias para o início da tal competição, o concorrente que os superou é desqualificado. A vaga cai no colo do vice.

Reunido às pressas, o plantel desembarca sem alarde e vai comendo pelas beiradas. Silenciosamente, se classifica para a fase seguinte, eliminando dois adversários tradicionais pelo caminho. Ainda assim, quem apostaria no título daqueles caras, que estavam lá por mera obra do acaso? Pois eles superam a então defensora do título, que contava “apenas” com o melhor jogador do mundo –  ele perde um pênalti. De lucky losers a finalistas em menos de um mês, batem um peso pesado ainda maior (campeão do mundo dois anos antes) na decisão e conquistam um título tão histórico quanto improvável. E tudo isso, vale lembrar, sem seu grande craque, ausente por não se dar bem com o treinador. No elenco, um jogador dividido entre o esporte e a doença da filha; outro, acostumado a tabelar com o irmão, embarcando em seu primeiro “voo solo”.

O roteiro acima se encaixaria tranquilamente numa produção cinematográfica, mas é bem real e completará duas décadas no próximo mês de junho. Enquanto a seleção dinamarquesa estiver em campos ucranianos para a atual Eurocopa, o vigésimo aniversário de sua maior glória certamente será lembrado: a conquista da Euro-92.

A jornada triunfal da Dinamarca se inicia, de fato, em 1990. Naquele ano, começavam as eliminatórias para a Eurocopa da Suécia. Dinamarqueses estavam numa chave difícil, na companhia de Iugoslávia, Irlanda do Norte, Áustria e o “bônus” Ilhas Faroe. No contexto da época, os iugoslavos eram um time de topo, enquanto norte-irlandeses e austríacos viviam um momento bem mais representativo que seus presentes. Como apenas o primeiro colocado estaria na Euro, a parada era dura.

Favorita, a Iugoslávia venceu sete dos seus oito jogos – incluindo a Dinamarca, em Copenhague. Na partida de volta, os dinamarqueses até deram o troco, vencendo por 2 a 1 em Belgrado. Entretanto, um empate diante da Irlanda do Norte não permitiu que a seleção dos Balcãs fosse alcançada. Com um ponto a menos que os rivais, a equipe dinamarquesa estava fora da Eurocopa.

Mergulhados no caos de sua guerra civil, os iugoslavos sofriam diversas sanções internacionais. Numa delas, a UEFA baniu de suas competições a seleção e os clubes locais. Dessa forma, mais de seis meses após o fim das eliminatórias (e faltando apenas dez dias para a estréia), os comandados de Richard Møller Nielsen eram convidados para a disputa do campeonato europeu de seleções.

O grande nome dinamarquês do momento era, claro, Michael Laudrup. Brilhante no Barcelona campeão europeu, o craque tinha em Møller Nielsen seu maior desafeto. O relacionamento com o treinador era tão conturbado que, durante as eliminatórias, o meia e outros jogadores importantes (como Heintze, Bartram, Mølby e o irmão Brian Laudrup) resolveram abandonar a seleção. O caçula Brian até reatou com o técnico a tempo de participar da Euro; Michael e os demais ‘rebeldes’, porém, tiveram de assistir ao título pela televisão. 

Assim, a Dinamarca viajou à Suécia com uma base bastante alterada em relação ao começo das eliminatórias. Em campo, segurou um empate com a Inglaterra na estréia e perdeu pela contagem mínima para a anfitriã. Numa época em que as vitórias ainda valiam dois pontos, dinamarqueses iniciaram a partida contra a França na última posição da chave, precisando da vitória para seguir adiante. O meia Larsen abriu o placar logo no começo do jogo, mas a equipe de Cantona e Papin igualou no segundo tempo. Faltando pouco mais de dez minutos para o apito final, o reserva Elstrup desempatou a contagem. Era o gol da classificação.

A Holanda, adversária das semifinais, era ampla favorita. Então detentora do título europeu, contava com o trio milanês Rijkaard/Gullit/Van Basten, além de apresentar ao mundo alguns nomes promissores de sua geração seguinte, como Frank de Boer, Jonk e Bergkamp. A seleção dinamarquesa esteve na dianteira do placar até os últimos cinco minutos de partida, quando Rijkaard empatou para a Laranja. Nos pênaltis, brilhou a estrela de Peter Schmeichel, que defendeu a cobrança de Marco Van Basten.

Mesmo credenciada pela vitória que chocou a Europa, o time dinamarquês era azarão na final. A Alemanha vencera a Copa do Mundo dois anos antes e, ainda que a ausência do contundido Lothar Matthäus fosse sentida, a base era a mesma do título mundial. Mas, com gols de Faxe Jensen e Kim Vilfort, a zebra vermelha e branca voltou a dar as caras nos gramados suecos, numa conquista que talvez apenas a Grécia de 2004 tenha sido capaz de igualar tamanha surpresa.

O título, claro, rendeu muitos frutos aos membros daquela equipe. Abaixo, o time base da campanha e o que o futuro reservaria para cada um deles:

1.Peter Schmeichel (goleiro, 28 anos, Manchester United)
Talvez o grande jogador daquele time, Schmeichel fez a defesa mais importante da competição ao pegar o pênalti de Van Basten. Com o passar do tempo, o lance épico seria apenas mais um na vitoriosa trajetória do goleiro, um dos grandes da história recente do futebol. Ao contrário do que se pensa, Schmeichel já era do Manchester United na época do título.

2. John Sivebæk (lateral-direito, 30 anos, Monaco)
Um dos remanescentes da Dinamáquina de 1986, o lateral também era um dos poucos daquele time que atuavam fora do futebol local. Presente em todos os minutos dos quatro jogos anteriores, saiu contundido no segundo tempo da decisão. Aquela seria a última partida de Sivebæk pela seleção dinamarquesa. Hoje, é agente de jogadores.

4.Lars Olsen (zagueiro, 31 anos, Trabzonspor)
Sucessor de Morten Olsen tanto na organização da defesa quanto no papel de líder, o capitão Lars Olsen foi o responsável por receber o troféu da Eurocopa. Perdeu espaço na seleção após passagens fracas pela Bélgica e Suiça, mas se recuperou a tempo de ser reserva na Euro de 96. Atualmente, treina as Ilhas Faroe.

3.Kent Nielsen (zagueiro, 30 anos, AGF Aarhus)
Outro integrante da experiente retaguarda dinamarquesa, disputou a Copa de 1986 e vinha de uma passagem pelo Aston Villa. Após atuar no centro da defesa nas partidas anteriores, disputou a final na lateral-esquerda, suprindo a ausência do lesionado Andersen e abrindo espaço para Piechnik. O lance mais marcante de Nielsen foi a bicicleta em cima da linha que evitou o gol do alemão Riedle. Tornou-se um técnico de razoável sucesso no futebol dinamarquês.

5. Henrik Andersen (lateral-esquerdo, 27 anos, Köln)
Misto de lateral e volante, Andersen era titular absoluto no esquema de Møller-Nielsen. Contudo, sua participação no torneio acabou mais cedo: num choque com Van Basten, saiu lesionado (e chorando) da partida contra a Holanda e ficou fora da final. Perseguido pelas contusões, se aposentou cedo, aos 33 anos.

6. Kim Christofte (meio-campista, 31 anos, Brondby)
Outro atleta versátil, capaz de atuar (e bem) como líbero, lateral ou meia, Christofte era um jogador extremamente técnico – o que lhe rendia críticas por seu estilo, considerado frio e pouco combativo. Ainda que a idade sugerisse rodagem, o camisa 6 não possuía grande experiência internacional. Mesmo assim, esteve em campo em todos os 450 minutos da conquista dinamarquesa e converteu o último pênalti da épica disputa contra os holandeses. Aposentado, trocou o futebol pelas mesas de pôquer, onde certamente sua frieza é mais valorizada.

7.John Jensen (meio-campista, 27 anos, Brondby)
Mais conhecido como Faxe Jensen, era popular na Dinamarca pelas entrevistas cheias de sinceridade. Pouco acostumado a balançar as redes, coube a ele abrir o placar da decisão. E aquele gol lhe perseguiria para sempre. Vendido ao Arsenal, virou folclore em sua tentativa quase desesperada de marcar pela primeira vez com a camisa gunner. A saga ganhou até uma música: We'll be there when Jensen scores (nós estaremos aqui quando Jensen marcar). No final das contas, foi apenas um golzinho em quatro temporadas no antigo Highbury.

18.Kim Vilfort (meio-campista, 29 anos, Brondby)
Parceiro de Faxe Jensen na faixa central do meio campo tanto no clube quanto na seleção, Vilfort dividia as atenções com um drama familiar: sua filha, de apenas sete anos, estava com leucemia. O quadro se agravou e Vilfort foi autorizado a voltar ao país natal durante o torneio. Assim, ficou de fora da partida decisiva contra a França. Liberado da concentração, viajava para a Suécia apenas nos dias das partidas. E coube a ele sacramentar a conquista dinamarquesa, com um gol aos 32 minutos da segunda etapa.

13.Henrik Larsen (meio-campista, 26 anos, Lyngby)
Inicialmente um reserva, o meia Larsen ganhou a posição e foi um dos artilheiros do torneio. Foi o grande nome das semifinais, marcando duas vezes na Holanda. O título na Suécia foi o principal momento de uma carreira com discretas passagens por Pisa (Itália) e Aston Villa (Inglaterra). Esteve também na edição seguinte da Euro, sem o mesmo sucesso.

11.Brian Laudrup (atacante, 23 anos, Bayern)
Quase sempre ofuscado pelo irmão mais famoso, Brian Laudrup também foi um excelente jogador. Ainda que não tenha marcado nenhuma vez na campanha, foi peça fundamental do título dinamarquês – enquanto Michael, brigado com o treinador, curtia as férias em casa. Ao contrário do mais velho, porém, Brian não repetiu nos clubes o mesmo sucesso de sua carreira internacional. Se recuperou recentemente de um câncer linfático.

9. Flemming Povlsen (atacante, 25 anos, Borussia Dortmund)
Um dos grandes matadores da história do futebol dinamarquês, Povlsen é outro que, mesmo passando em branco no torneio, teve importância significativa na conquista. Na disputa de pênaltis da semifinal, ganhou a batalha de nervos com Van Breukelen. O experiente arqueiro holandês catimbou antes da cobrança do atacante, mas não adiantou. Povlsen foi outro a encerrar precocemente a carreira graças às contusões: parou com apenas 29 anos, em 1995.

12. Torben Piechnik (zagueiro, 29 anos, B 1903)
Apesar dos 29 anos, o currículo do zagueiro Piechnik marcava apenas quatro partidas internacionais antes da Euro de 1992. Substituto do lesionado titular Andersen, entrou numa fogueira: marcar Klinsmann, Effenberg e companhia na final. Se saiu tão bem que chamou a atenção do Liverpool. No futebol inglês, entretanto, não fez sucesso. Aposentado em 1999, é corretor de imóveis.

Richard Møller Nielsen (técnico, 54 anos)
Uma bandeira do Odense Boldklub, Møller Nielsen se tornou treinador cedo, antes dos trinta anos. Acumulou passagens pelo OB e outros clubes locais antes de treinar a seleção dinamarquesa sub-21, entre 1978 e 1989. Lá, conheceu muito de seus futuros atletas. No time adulto desde 1990, mostrou pulso ao não reconvocar Michael Laudrup e outros jogadores de nome que se afastaram da seleção por conta própria. O crédito que deu ao seu elenco foi recompensado com o título. Surpreendentemente, falhou ao classificar a Dinamarca para o Mundial dos Estados Unidos, mas estava no banco para comandar a equipe na conquista da Copa das Confederações, em 1995.

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