Europa

Do conto de fadas à cadeia, o Östersunds sofre um melancólico rebaixamento três anos depois de encantar na Liga Europa

O Östersunds saiu da quarta divisão sueca para os mata-matas da Liga Europa em sete anos, mas se valeu de uma fraude com dinheiro público e entrou em desgraça depois da revelação da corrupção

O Campeonato Sueco ainda tem quatro rodadas para chegar ao final e, pela disputa apertada entre Malmö e Djurgardens, é bem capaz que o campeão só saia nos últimos suspiros. Porém, a primeira certeza da competição é o melancólico rebaixamento do Östersunds. Os rubro-negros emergiram como uma grande sensação no país, saltando da quarta divisão à elite em cinco anos, antes de conquistarem a Copa da Suécia em 2017 e fazerem uma campanha marcante na Liga Europa 2017/18. Todavia, a derrocada da equipe é meteórica desde a saída do técnico Graham Potter e da revelação de um caso de corrupção envolvendo seu presidente, que desviou dinheiro dos cofres públicos municipais para a agremiação. Depois de flertar com o rebaixamento nas últimas temporada, a queda se concretizou com um desempenho pífio na Allsvenskan 2021.

Fundado em 1997, numa cidade com 50 mil habitantes mais conhecida por suas ligações com os esportes de inverno, o Östersunds militou durante grande parte de sua história na terceira divisão da Suécia. Foram 14 participações consecutivas na terceirona, sem descer e nem subir. Em 2010, o rebaixamento à quarta divisão deixava os rubro-negros ainda mais distantes de seus sonhos. Aquele momento, entretanto, marcaria uma revolução. Antigo diretor de futebol e influente empresário da construção civil local, Daniel Kindberg voltou à diretoria e se valeu dos bons contatos que tinha na Inglaterra. Trouxe Graham Potter para ser o treinador. E o novo técnico, que trabalhava no futebol universitário em Leeds, proporcionaria o conto de fadas.

Potter traria novos métodos ao Östersunds. Dentro de campo, a qualidade do jogo coletivo e a proposta ofensiva se tornaram notáveis. Ainda assim, o inglês também se destacou por suas ideias pouco usuais para o dia a dia dos rubro-negros. Para promover a união dos jogadores, o treinador realizava atividades culturais. Os atletas precisavam escrever livros, criar exposições ou até mesmo atuar. Também faziam trabalho voluntário e outras ações comunitárias. Uma maneira não apenas de desenvolver cada um além do futebol, como também de melhorar a interação interna. Já o elenco reunia diversos imigrantes e filhos de imigrantes nascidos na Suécia. A lista de nacionalidades era ampla, também com alguns estrangeiros – de jogadores ingleses a comorenses, de curdos a ugandeses. Tal caldeirão cultural, sob a inspiração de Potter, deu liga.

O Östersunds passou só um ano na quarta divisão e já conquistou o acesso. Também subiu de imediato na volta à terceirona, quebrando uma barreira inédita. Ficaria ainda três anos na segundona, mas a conquista da promoção à primeira divisão em 2015 saía melhor que as expectativas. E os novatos não demoraram a fazer barulho na elite. Depois da oitava colocação em 2016, terminaram em quinto no ano seguinte e conquistaram a Copa da Suécia de 2017. Tal feito garantiu a passagem para a Liga Europa, onde a fama dos rubro-negros realmente se alastrou.

O Östersunds começou aquela Liga Europa 2017/18 eliminando o Galatasaray, o que já era um feito enorme nas preliminares. Depois, espantou a zebra contra os luxemburgueses do Fola Esch. A vaga na fase de grupos, por sua vez, foi garantida com o triunfo sobre o PAOK. E os azarões não seriam meros figurantes, mesmo numa chave dura contra Athletic Bilbao, Hertha Berlim e Zorya Luhansk: os suecos conquistaram três vitórias e dois empates, garantindo uma classificação segura e só ficando atrás dos bascos na ponta por causa do confronto direto. Nos 16-avos de final, poderiam desafiar o Arsenal.

O Östersunds acabou eliminado no primeiro mata-mata, mas sem deixar de lutar. Apesar da derrota por 3 a 0 logo na ida, os pequeninos ainda tiveram o gosto de ganhar por 2 a 1 dentro do Estádio Emirates na volta. Sucumbiram, mas não sem antes infligir mais uma derrota dolorosa aos Gunners. O problema é que o sucesso provocaria um desmanche dos rubro-negros. Vários jogadores importantes saíram, com menções principais ao sueco Ken Sema e ao iraniano Saman Ghoddos, dois que hoje militam na Premier League (Watford e Brentford, respectivamente) e frequentam suas seleções. Já Graham Potter aceitou uma proposta do Swansea em junho de 2018, antes de iniciar seu excelente trabalho à frente do Brighton, com o qual também deixa suas marcas na elite inglesa.

Mas a derrocada do Östersunds não se explica apenas pelas saídas. Em 2019, Daniel Kindberg (o antigo diretor de futebol que depois virou presidente) e outros dois funcionários dos rubro-negros foram condenados a três anos de prisão, por desviarem cerca de US$1,5 milhão de dinheiro público ao clube – principalmente de uma companhia municipal de habitação, da qual Kindberg também era chefe-executivo. Assim, a ascensão meteórica se tornou bem mais questionável, já que o bom trabalho recebeu uma injeção financeira ilícita. Mesmo sendo um valor irrisório comparado a concorrentes na Liga Europa e até no Campeonato Sueco, tal impulso dependeu na verdade de programas habitacionais da cidade.

Além da fraude revelada, o Östersunds também precisou lidar com uma série de entraves. As contas ficaram no vermelho já em 2019, mesmo com as vendas de jogadores e as premiações da Uefa. Para piorar, a agremiação acabaria punida pela controversa venda de Ghoddos, com o Huesca alegando ter um contrato com o jogador negociado com o Amiens. Diante do caos em suas finanças, o clube precisou organizar uma vaquinha para conseguir sua licença profissional, contando inclusive com a participação de ex-jogadores e de Graham Potter. E a pandemia tornou a realidade ainda mais dura, cortando fontes de receitas. A média de público, que batia na casa dos 7 mil espectadores por jogo na época da Liga Europa, agora mal passa dos 2 mil com a volta dos torcedores às arquibancadas.

O impacto dos problemas foi visível em campo. O Östersunds até terminou o Campeonato Sueco de 2018 na sexta posição, mas depois disso foi só ladeira abaixo. Seria o 12° em 2019 e o 13° em 2020, em ambos beirando o rebaixamento. Isso até que o desastre se concretizasse na atual temporada. Os rubro-negros são lanternas da Allsvenskan, com míseros 14 pontos em 26 rodadas. A equipe está a 14 pontos de alcançar os playoffs contra o descenso, o que tornou impossível a salvação faltando quatro rodadas. São apenas três vitórias em toda campanha, contra 18 derrotas sofridas. O goleiro Aly Keita, bem como os zagueiros Sam Mensiro e Ronald Mukiibi, são os únicos titulares daquela Liga Europa que permanecem no elenco.

Até pelas circunstâncias ao redor, fica difícil acreditar na estabilidade do Östersunds na primeira divisão sueca durante os próximos anos, mesmo se conquistarem o retorno imediato em 2022. Os rubro-negros, que não nutriam tanta simpatia entre os outros torcedores suecos durante a sua ascensão, se tornaram ainda mais execrados depois que a fraude foi descoberta e não terão vida fácil. Reaparecer nas copas europeias, então, dependeria da descoberta de um novo Graham Potter. E sem dinheiro além da própria realidade da próxima vez.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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