Dificil renascimento

Não se pode dizer que o Olympiacos teve algum problema financeiro nestes últimos anos. Os resultados dos Thrylos -13 títulos em 14 temporadas- falam por si mesmos. Seu inimigo eterno, o Panathinaikos, também não, apesar de não ter conseguido resultados esportivos da dimensão dos alcançados pelo rival de Pireu. Porém, com relação ao AEK, o terceiro do trio de gigantes de Atenas, a situação é oposta. Dinheiro nunca foi problema -sempre foi a solução de todos os problemas.
O AEK tem uma diferença fundamental com relação aos seus rivais. Não tem um mecenas, um milionário que banque o seu futebol, como tem os seus rivais. Enquanto isso, os alvirrubros contam com a fornida conta bancária de Sokratis Kokkalis, empresário do ramo de telecomunicações, os verdes contam com os bolsos de algumas famílias endinheiradas da elite ateniense -como os Vardiniogannis, Pateras e os Giannakopoulos. E este detalhe faz toda a diferença. Enquanto os seus rivais vivem pensando em como investirão para a próxima temporada contando com o bolso generoso de seus proprietários, os Enosis tem que pensar se precisarão vender o almoço para ter o que comer no jantar.
Os Dikéfalos já enfrentaram dias mais sombrios, é verdade. Praticamente faliu no verão de 2004, e, para não virar um clube amador -como rezam as regras da EPO, a CBF grega- teve que se desfazer de seu querido estádio em Nea Filadelfia e da maior parte de suas estrelas, alguns, inclusive, que haviam acabado de se tornar campeões europeus em Portugal -como Giorgos Katsouranis. Demis Nikolaidis, ídolo do time, resolveu assumir a responsabilidade de salvar o time de seu coração, liderando um grupo de investidores que tiraram o AEK do buraco, dando uma sobrevida aos Enosis. A verdade é que a situação se amenizou, mas nunca foi resolvida. E agora o clube começa a sofrer de novo com a má situação financeira.
É uma crise que começa pela parte econômica, passa pela política e acaba se refletindo dentro de campo. O que ocorre é o seguinte: o clube não tem dinheiro suficiente para montar times capazes de fazer frente aos dois rivais, o que acaba causando os atritos entre diretoria e torcida -que acabaram por ser o estopim da crise política vivida pelos Enosis neste momento, com a saída de Nikolaidis. Os atritos entre torcida e diretoria acabam por complicar ainda mais a situação dentro de campo, tirando a tranquilidade necessária para conquistar os resultados. E assim o AEK se afunda cada vez mais.
Solução de curto prazo? Existe a mais simples delas. A injeção de dinheiro por meio da entrada de um investidor endinheirado. O problema é que os atuais acionistas não parecem dispostos a permitir a entrada de um novo investidor, e por isso a entrada deste novo investidor tem sido dificultada. Dimitris Melissanidis, ex-Presidente do clube nos anos 90, parecia ter um projeto interessante para o clube mas foi descartado no começo do ano. Neste final de ano, mais uma oferta foi feita. Desta vez, o investidor seria Haralambos “Bob” Kozoni, um norte americano descendente de gregos que fez a sua fortuna no ramo imobiliário, que estaria interessado em investir no clube. Seria uma compra da maioria das ações do clube -cerca de 60%-, com investimento inicial de cerca de 19 milhões de Euros, pagamento de dívidas e a continuação do plano da construção de um estádio próprio. As últimas informações dão conta que o acordo foi aceito, e em 10 de janeiro, durante a assembléia geral do clube, Kozoni deve ser oficializado como novo manda-chuva do clube.
Seria o início da solução dos problemas do AEK. Com as contas em dia e algum dinheiro para fazer investimentos, começa a solução dos problemas pontuais que vem assolando a vida dos Enosis. Resta saber se o norte-americano, fanático torcedor do clube, terá paciência para trazer os Dikefalos de volta aos seus tempos de glória. É o que os torcedores do clube, que enfrenta uma fila de 15 anos, esperam.
A última conquista?
Mais uma vez o roteiro se repetiu. Em gramados inimigos, os gregos estragam a festa de seus adversários. Desta vez, foi na Ucrânia, quando o Navio Pirata tomou de assalto a cidade de Dontetsk, e, na pilhagem, levou a vaga para a Copa do Mundo na bagagem. É a repetição de um roteiro que já assombrou a Europa há cinco anos, quando os gregos levaram o troféu da Eurocopa de Lisboa…
Mas a vitória pelo placar mínimo em Donetsk com o gol de Dimitris Salpingidis, mais do que carimbar o passaporte da seleção grega para a Copa do Mundo, deve marcar a celebração com chave de ouro o apogeu da era de ouro do futebol nacional grego. Afinal, é bem provável que o alemão Otto Rehhagel, com 71 anos completados em setembro, fará na África do Sul a sua última competição oficial no comando do Navio Pirata. Já para a última renovação de contrato, ao final das eliminatórias para a Euro passada, o alemão chegou a falar em deixar os campos. Mas, como foi oferecido um bom contrato, e havia uma boa chance de levar os gregos a mais uma Copa do Mundo, Rehhagel aceitou a renovação de contrato por mais dois anos.
A escolha da data da retirada para o alemão tem lá o seu significado. Afinal, trata-se apenas da segunda vez que o Navio Pirata ruma a uma Copa do Mundo -curiosamente, ambas fora do continente europeu, já que a estreia foi em 1994, nos Estados Unidos. O problema é que a campanha norte-americana há dezesseis anos foi decepcionante, com três derrotas, sem gols marcados e com dez sofridos. Mas a esperança dos gregos é que a última aparição do “rei” Otto em gramados internacionais reverta a má impressão deixada em gramados americanos.
Justificativa para isso, os gregos tem. Afinal, Rehhagel chega à Copa como o sujeito que fez a seleção grega surgir como uma nação relevante no cenário internacional com a conquista da Euro 2004. Apesar de não ter um estilo de jogo vistoso e dos mais agradáveis, o Navio Pirata tem sido eficiente na conquista de resultados. O setor mais sólido do time ainda é o meio de campo, capitaneado pela dupla do Panathinaikos Giorgos Karagounis e Kostas Katsouranis, mas defesa e ataque tem bons valores atuando em campeonatos da Europa ocidental, como Sokratis Papastathopoulos (do Genoa-ITA) e Fanis Gekas (Bayer Leverkusen-ALE), por exemplo. Não é um time brilhante -nunca foi-, mas que sabe das suas limitações e, justamente por isso, pode complicar a vida de algum eventual favorito na Copa. Seria o suficiente para encerrar com glórias a carreira do treinador dos helênicos, Rei Otto, o conquistador.



