Europa

Decisão nos detalhes

O Campeonato Turco pode não ter os craques do Espanhol, a tradição do Italiano ou o dinheiro do Inglês. No entanto, quando o quesito é “emoção até o último instante”, a Süper Lig ganhou de goleada de toda a concorrência. Fenerbahçe e Trabzonspor chegaram empatados em pontos na rodada final e, mesmo contra adversários não tão fortes assim, conseguiram manter a dúvida até os últimos minutos de jogo.

Com oito gols a menos de saldo, o Trabzonspor precisava encher as redes do Karabükspor. Apesar do número não ter sido suficiente, a Karadeniz Firtinasi fez sua parte e goleou por 4 a 0. Já o Fenerbahçe parecia ter a vida resolvida antes de a bola rolar contra o primeiro acima da zona de rebaixamento. Parecia. Com mala branca ou não, o fato é que os Yigidos venderam caro a derrota e perderam apenas por 4 a 3.

Confirmado o título, os Sari Kanaryalar puderam, finalmente, soltar o grito da garganta. O time já tinha aprendido a lição no ano passado. Depois de uma arrancada incrível nas dez rodadas finais, o Fener empatou o seu último jogo e deixou a taça escapar por entre os dedos para o Bursaspor. Pior foi a confusão feita dentro do Estádio Sükrü Saracoglu quando, naquela vez, anunciaram a conquista antes de ela se consumar. Neste fim de semana, sem mal entendidos, o capitão Alex pôde levantar o troféu sem maiores preocupações.

A conquista, entretanto, foi construída em cima de pequenos detalhes. Ainda que sejam equipes bastante diferentes na forma de atuar, os dois concorrentes demonstraram eficiência parecida para chegarem ao final de forma tão parelha. Depois de uma primeira metade em que o Trabzonspor nadou de braçada e só foi ameaçado por Bursaspor e Kayserispor, o segundo turno apontou que o verdadeiro rival seria o Fenerbahçe.

A fim de desvendar quais os tais detalhes que separaram os dois postulantes ao título, separamos alguns motivos que ajudam a explicar por que a taça foi parar em Istambul, e não em Trebizonda.

– Mentalidade no segundo turno

Os nove pontos de vantagem ao fim do primeiro turno certamente relaxaram o Trabzonspor. Tanto é que nas três primeiras rodadas de 2011, a Karadeniz Firtinasi somou apenas dois pontos em nove disputados e ainda assim ficou com a liderança. Todavia, enquanto a equipe dava margem ao erro, o Fenerbahçe começava babando a arrancada rumo ao título.

Depois de fechar a primeira metade com uma vitória simples sobre o Sivasspor, o Fener passou a emendar vitória atrás de vitória. Em terceiro no começo de 2011, a liderança veio depois de seis rodadas e seis triunfos consecutivos. A série só foi ser quebrada no décimo jogo, com o empate por 0 a 0 ante o Bursaspor. Depois disso, ajudada por um novo tropeço do Trabzonspor, a equipe chegou ao título com mais sete vitórias seguidas.

É interessante também observar a mentalidade implantada por Aykut Kocaman ao longo do segundo turno. Nos jogos em casa, consciência defensiva e frieza na hora de avançar ao ataque – exceção feita à goleada sobre o Ankaragükü, o Fener não venceu por mais de dois gols nenhum outro jogo. Já fora de seus domínios, o time parecia preocupado em fazer mais gols do que levar. Em seis das nove partidas, balançou as redes três vezes ou mais – média exata de 3 gols/jogo.

– Força em seus domínios

Com a torcida quase sempre lotando as arquibancadas, o clube soube muito bem usar o fator campo. Em 17 partidas feitas no Sükrü Saracoglu, foram nada menos que 14 vitórias e três empates. E os únicos tropeços em casa foram bastante compreensíveis: além do placar igualado nos clássicos contra o Besiktas e Galatasaray no primeiro turno, a equipe também não saiu do zero contra o Bursaspor. O Trabzonspor, por outro lado, escorregou em algumas partidas em casa nas quais não podia vacilar. Foram 40 pontos conquistados como mandante, diante de 42 como visitante.

O time de Istambul mostrou-se quase intransponível em seu estádio. Enquanto o ataque marcou tantos gols em casa (41) quanto fora (43), os números da defesa caem para menos de um terço – foram 26 tentos sofridos longe dos domínios, contra apenas oito levados diante da torcida. Mais uma vez, o desempenho impressiona: os Sari Kanaryalar não sofreram gols no Sükrü Saracoglu ao longo de todo o segundo turno.

– Poder de decisão

A comodidade do Trabzonspor em alguns momentos atrapalhou o resultado final do clube. Apesar de perder apenas duas vezes ao longo da competição, o time empatou sete vezes. Dessas, nada menos que cinco foram por 0 a 0, o que representa a falta de iniciativa em relação ao resultado. Do outro lado, o Fenerbahçe só passou três partidas do campeonato sem marcar gols. Dos 82 pontos conquistados, nada menos que 73 estavam garantidos desde o primeiro tempo, demonstrando o poderio em decidir as partidas o quanto antes possível.

Fora isso, os pontos perdidos pelos Sari Kanaryalar foram contra adversários mais significativos. Exceção feita à derrota para o Ankaragükü, todos os outros tropeços ou foram em clássicos (Besiktas e Galatassaray) ou contra clubes que frequentaram o topo da tabela (Trabzonspor, Bursaspor, Kayserispor e Gaziantepspor). Apesar de se dar melhor contra os rivais direto, os Bordo-Mavililer bobearam contra rivais mais fracos, como Manisaspor, Antalyaspor, Ankaragükü e Eskisehirspor.

– Mentores dentro e fora de campo

Na beira do gramado, a vantagem era do Trabzonspor. Senol Günes é um mito dentro do clube, onipresente nas maiores conquistas da história. Pelo Fenerbahçe, Aykut Kocaman já era ídolo como jogador e tinha uma boa passagem como diretor de futebol, mas apenas estreava como técnico. No cargo, já havia comandado equipes medianas rumo a colocações medianas. Era a aposta que nem mesmo as eliminações frustrantes na Champions e na Liga Europa derrubaram.

Em campo, porém, Kocaman esteve bem melhor representado que Günes. Apesar de contar com jogadores decisivos, como Burak Yilmaz e Umut Bulut, o Trabzonspor não tinha alguém que liderasse a equipe. As responsabilidades eram dividas entre os 11 jogadores. No Fenerbahçe, pelo contrário, Alex chamava o jogo para si.

Nas declarações após a conquista, Kocaman afirmou que a equipe é montada para jogar em torno do camisa 10. Alex manteve excelentes condições físicas, perdendo apenas uma partida e começando no banco em outra por conta de lesões. Ao todo, participou de 44 dos 84 gols do Fener, artilheiro com 28 gols e melhor passador com 16 assistências. A cada 62 minutos, uma jogada de gol criada de seus pés. É, sem dúvida, o craque da Süper Lig, premiado com o título por uma regularidade incrível.

– Qualidade do elenco

Com bases formadas em torno de 17 jogadores, a diferença entre os clubes aqui se faz na consistência que o Fenerbahçe ganhou ao longo da disputa. Com a inclusão de nomes como Mamadou Niang, Joseph Yobo e Miroslav Stoch, o time demorou um pouco para se entrosar. Quando se acertou, porém, manteve a alta. Tanto é que, além de não ter perdas significativas, o clube não precisou contratar ninguém para dar a guinada do segundo turno. Fruto da união do elenco e da eficiência do esquema tático armado por Aykut Kocaman, variando entre o 4-2-3-1 e o 4-4-2 conforme a disponibilidade de seus jogadores.

Já o Trabzonspor precisou superar os desfalques desde as primeiras rodadas, quando Teofilo Gutiérrez, autor de oito gols em nove partidas, entrou em atrito com a diretoria. Outros, como os meias Alanzinho e Ibrahima Yattara, caíram de produção e passaram a freqüentar o banco. Os Bordo-Mavililer ainda tiveram que lidar com outros problemas. O goleiro Onur Kivrak sofreu contusão na reta final, mas seu reserva, Tolga Zengin, deu conta do recado. Já por causa de suspensões, o clube não contou com o artilheiro Burak Yilmaz justamente na última rodada. A perda de controle também custou caro no jogo do returno contra o Fener, quando o time acabou com nove em campo e minou as próprias chances de virar o placar.

– Confrontos diretos

O primeiro encontro entre os concorrentes aconteceu ainda na segunda rodada. De um lado, o Trabzonspor em ascensão, motivado pelos títulos recentes da Copa e da Supercopa e também por uma boa atuação fora de casa contra o Liverpool nas qualificatórias da Liga Europa. Do outro, o Fenerbahçe, que já caíra na Champions ante o Young Boys. Sem Alex, que voltava de contusão e só entrou nos quinze minutos finais, os Sari Lacivertliler foram presas fáceis e perderam por 3 a 2, depois de ficarem dois gols atrás no placar por duas vezes.

Esta partida, no entanto, não teve tanto peso para ambas as equipes quanto a volta, disputada em Istambul. Desta vez, o Fener estava empenhado em fazer um segundo turno diferente, contra um Trabzonspor que tentava manter a boa folga construída até ali. No fim das contas, os 2 a 0 construídos em menos de cinco minutos, com tentos de Lugano e Niang, valeram mais do que apenas três pontos.

A vitória acabou por impulsionar o Fenerbahçe na briga pelo título, enquanto o Trabzonspor precisou se situar até perceber que nada estava garantido. Era a prova definitiva do que estaria por vir. Um detalhe que, quinze rodadas depois, apresentou seu resultado definitivo.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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