Europa

Dabbur decide se aposentar da seleção de Israel, após vaias por manifestação em prol dos palestinos

Mesmo em grande fase nas Eliminatórias, Dabbur era vaiado inclusive quando marcava gols pela seleção israelense

Um dos principais jogadores israelenses em atividade no futebol europeu, Munas Dabbur anunciou nesta segunda-feira que se aposentou da seleção. O atacante de origem palestina tomou a decisão após ser alvo de críticas por seus posicionamentos nas redes sociais. Durante a intensificação dos conflitos na Faixa de Gaza, o jogador postou mensagens em prol dos árabes – embora ele negasse o teor político contra o governo israelense. Vaiado quando esteve em campo depois disso, Dabbur se despede da equipe nacional aos 30 anos.

O imbróglio envolvendo Dabbur começou em maio de 2021. Com a escalada dos conflitos na Faixa de Gaza, o atacante postou uma foto do Domo da Rocha, local sagrado para os islâmicos em Jerusalém. A publicação ainda trazia uma mensagem do Alcorão, que dizia: “Não pense que Alá ignorará o que os malfeitores fazem. Ele está apenas concedendo descanso até um dia quando seus olhos se arregalarão em horror”. A passagem logo foi interpretada como um questionamento ao governo israelense pelo abuso de força contra os palestinos. Na época, surgiram rumores de que um familiar do futebolista foi agredido por membros das forças de segurança de Israel.

Dabbur negou qualquer direcionamento na postagem, garantindo que desejava expressar “sua dor, e não o posicionamento político”. Pediu desculpas públicas e foi apoiado pelos companheiros, bem como pela comissão técnica da seleção. Não foi suficiente para impedir os questionamentos ao atacante em relação ao seu comprometimento com Israel. Ausente na Data Fifa de junho, Dabbur retornou às convocações em setembro. Desde então, passou a ser alvo de vaias durante os jogos em estádios israelenses. Pouco importava a excelente fase do centroavante, que marcou cinco gols e deu duas assistências em suas últimas seis aparições pelas Eliminatórias da Copa. Mesmo nas comemorações de seus tentos ele era vaiado.

Dabbur ainda esteve presente nas duas Datas Fifa de 2022 e disputou todos os três jogos de Israel na Liga das Nações. Porém, o contexto parece ter influenciado diretamente sua decisão, mesmo sem uma menção direta aos episódios no anúncio da aposentadoria. “Gostaria de informá-los sobre minha decisão de que minha passagem pela seleção de Israel chegou ao fim. Gostaria de agradecer à minha família e a todos que sempre me apoiaram”, afirmou o atacante, sem muitos floreios em seu anúncio.

Convocado pela primeira vez aos 22 anos, Dabbur fazia parte da seleção de Israel desde 2014. O atacante disputou 40 partidas, com 15 gols marcados. Sua melhor sequência aconteceu exatamente nas últimas Eliminatórias, nada suficiente para atenuar a crise. Formado no Maccabi Tel Aviv, Dabbur teve boas passagens por Red Bull Salzburg e Grasshopper. Após uma tímida estadia no Sevilla, o centroavante compõe o elenco do Hoffenheim desde janeiro de 2020.

Embora a seleção de Israel seja composta majoritariamente por jogadores de origem judaica, as aberturas aos árabes se tornaram maiores durante as últimas décadas. A primeira grande figura de origem árabe foi o meio-campista Rifaat Turk, presente nas Olimpíadas de 1976 e eleito o melhor jogador em atividade no país em 1980. Já na sequência da década de 1980, o atacante Zahi Armali, de origem árabe-cristã, foi um dos principais artilheiros da equipe nacional. Outro nome notável foi o lateral Najwan Ghrayib, que passou pelo Aston Villa e causou controvérsia há duas décadas por comparar o primeiro ministro Ariel Sharon com Saddam Hussein, diante da forma como tratava os árabes. Um de seus contemporâneos era o meio-campista Walid Badir, que atuou por Israel em 74 partidas, de 1997 a 2007. Foi o primeiro árabe a usar a braçadeira de capitão do país.

Ao longo do último ano, Israel convocou sete jogadores de origem árabe. Dentre os nomes mais recentes, outro jogador relevante é Beram Kayal, volante com passagens por Celtic e Brighton. O veterano vê a seleção como um elemento de integração. Também vale mencionar Bibras Natcho, outro muçulmano a capitanear os israelenses, embora seja de etnia circassiana e não árabe. Neste grupo, ainda assim, Munas Dabbur se destacava por seu talento e pela relevância já como um dos dez maiores artilheiros da história da seleção. Entretanto, a condição que conquistou em campo não o impediu de se manifestar por aquilo que achava correto, e a reação contrária acaba encurtando uma trajetória que tinha tudo para ser maior.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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