Europa

Crise, desmandos, violência: a tradição do AEK foi enterrada

A séria crise econômica vivida pela Grécia já tinha deixado suas marcas no futebol. O início da temporada contou com uma debandada de jogadores. Os clubes gastaram apenas € 5,366 milhões em contratações, um décimo do investimento feito quatro anos antes. E, ainda assim, 93,6% desse valor saiu dos cofres do Olympiacos, um dos poucos com saúde financeira para enfrentar as turbulências. Previsivelmente, a Thrylos acrescentou a quarta estrela na camisa ao se sagrar campeã nacional pela 40ª vez.

Os reflexos da bancarrota vivida pelos gregos, no entanto, também atingem a tradição do esporte. Nesta sexta-feira, foi confirmada a quebra de um marco histórico. Terceiro maior campeão nacional, dono de 11 taças, o AEK Atenas disputará a segunda divisão na próxima temporada. Ao lado de Olympiacos, Panathinaikos e PAOK, a Dikefalos Aetos era um dos clubes que nunca tinha sido rebaixado no país.

E a queda veio da pior maneira possível. No último domingo, o AEK recebia o Panthrakikos no Estádio Olímpico, em jogo decisivo na luta contra o rebaixamento. O empate sem gols prevaleceu até o fim, quando Dimitris Papadopoulos marcou um gol contra, que daria a vitória para os visitantes. Foi o estopim para a revolta nas arquibancadas. Cerca de 200 torcedores invadiram o gramado, ameaçaram os jogadores e obrigaram o árbitro, depois de uma hora e meia de espera, a encerrar a partida [veja o vídeo]. Ao todo, 39 pessoas acabaram detidas e 15 foram presas.

A decisão da comissão disciplinar do Campeonato Grego sobre o incidente só veio nesta sexta. A entidade confirmou a vitória do Panthrakikos na partida, além de multar o AEK em € 4 mil. A Dikefalos Aetos estaciona na tabela com 27 pontos e não tem mais chances de salvação. A última rodada, contra o Atromitos, deverá ser palco apenas para novos protestos – e, provavelmente, violência – da torcida contra o processo de degeneração no qual o clube se afunda.

Doze meses de desastres

A origem na derrocada do AEK Atenas vem do último ano, quando o clube quase foi rebaixado, mas por motivos extracampo.  O Campeonato Grego possui uma dura legislação em relação aos problemas econômicos dos clubes e não tem pudores para degolar aqueles que não fecham suas contas. Na última temporada, o Iraklis serviu como exemplo de aplicação das regras. E os aurinegros quase entraram nesta dança também.

Com dívidas avaliadas em € 35 milhões, o AEK precisou tomar medidas drásticas para ter as contas aprovadas. Vários jogadores importantes do time foram dispensados ou vendidos por preços baixos e a folha de pagamentos foi reduzida em 65% (de € 12 milhões para € 4,5 milhões) para não estourar o prazo limite no vermelho. Deu certo, pelo menos momentaneamente.

Com elenco enxuto e sem dinheiro em caixa para fazer grandes contratações, a Dikefalos Aetos apostou basicamente nas categorias de base e em jogadores de clubes de divisões inferiores da Grécia. Somando as duas janelas de transferências, o clube inchou os vestiários com 28 novos atletas, gastando apenas € 510 mil. Montou o grupo com menor média de idade do Campeonato Grego, de apenas 22,9 anos.

E os reflexos na tabela não demorariam a vir. Com apenas três vitórias no primeiro turno, a equipe ficou na zona de rebaixamento em 13 das primeiras 17 rodadas. A esperança de ressurreição veio em janeiro, quando os aurinegros conquistaram 14 de 18 pontos possíveis e ficaram a cinco posições da degola. Contudo, uma nova derrocada aconteceu depois disso e, com apenas um triunfo nos últimos oito jogos, o time perdeu as esperanças.

A podridão é generalizada

Para piorar a situação vivida pelo AEK, as turbulências afetam o clube nos mais diversos setores. Em campo, a situação grave está muito acima do mau futebol. Os aurinegros ganharam as manchetes depois que o meia Georgios Katidis fez gestos nazistas ao comemorar um gol. O jogador foi devidamente punido pelo clube, suspenso pelo restante da temporada. Além disso, o técnico Ewald Lienen, demitido na última rodada, acusou os atletas de não se empenharem por conta do atraso de salários – algo que afeta nove entre dez clubes gregos.

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Já fora de campo, a torcida é marcada por diversos episódios de violência. Meses antes, chegou a forçar a demissão do técnico Dusan Bajevic, a ameaçar sua família e a agredi-lo. As invasões do centro de treinamentos são constantes. Já nesta sexta, com a confirmação da punição ao clube, os mais revoltados interromperam o fluxo de carros em ruas de Atenas.

E, para piorar, repleta de membros acusados de falcatruas, a diretoria atrapalha ainda mais a Enosis. Em reação ao rebaixamento, o AEK emitiu uma carta oficial chamando a decisão de “crime premeditado por um sistema corrupto” e prometendo apelar através de meios legais. Embora ainda possa recorrer, o time dificilmente reverterá a pena.

Evitar o rebaixamento na justiça, agora, deveria ser a última preocupação dos dirigentes.  O AEK ainda precisa correr para tentar fechar suas contas e não sofrer outro descenso já na próxima temporada, relegado à semiamadora terceira divisão. E, depois que um acordo de apoio financeiro com o banco inglês Seymour Pierce fracassou, o clube pensa em uma forma de burlar o sistema caso continue no vermelho.

A ideia é adquirir o registro de outra equipe da segundona e mudar seu nome ligeiramente, iniciando uma nova vida sem dívidas. Uma medida que está longe de ser a melhor forma de recuperar o clube. Se não evitar a bancarrota, o caminho é renascer. Disputar divisões amadoras, limpar suas estruturas administrativas, contar com o apoio dos verdadeiros torcedores e não dos hooligans.

Há 89 anos, refugiados da Guerra Greco-Turca fundaram uma união atlética. Eram gregos e descendentes que se mantiveram em Constantinopla durante anos e, através de clubes, transmitiam a cultura helênica dentro do Império Otomano. Na volta à Atenas, resolveram reconstituir uma dessas entidades: o AEK, exemplo da luta pela preservação cultural e pelos valores de uma nação. Uma bela tradição, que é corroída pela violência de torcedores e pelos desmandos administrativos. E, atualmente, sem grandes perspectivas de salvação.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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